sábado, 11 de agosto de 2012

o Perfumado

Imagem@ Henri Cartier-Bresson

porque trans borda

Deixa ir...
o passado
o fantasma em declínio
as vozes desse hospício
onde enjaularam a tua mente
suave até o permitido - sutil
no permeado de afagos urgentes
na penumbra, na turva lente -
por onde mal viste do pendurado a forca...
Deixa ir...
é tarde o fruto é podre o miolo do pão
é frágil a casca da espera
é tonto o carrasco que te apedrejou a testa
e é fútil tua fuga em demora...
Deixa ir...
as fotos do antigo, os objetos de prata
as ofensas de má dicção
os dentes de leite
o leite da mãe
o ninho doente da mãe...
Deixa ir...
o veto do pai
o cuspe do pai
no prato que o filho comeu
e esbanjou...
Deixa ir...
os móveis de ocasião
os cristais estilhaçados
a ruína, os arruinados
que te espelham e abraçam...
Deixa ir...
o anel que te sobra do dedo
o gatilho que te cobre de medo
a imprevisível armadilha do mundo
que te chama amor...
Deixa ir...
abre espaços no estreito trajeto
compassando a dor de outro plano
compensando de amplidão o teu passo
e o que foi te tirado de feio e belo...
Deixa vir...
de tão tempo doido, doido tempo o perfumado

Patricia Porto