segunda-feira, 2 de julho de 2012

enquanto a terra durar...



quando a folha seca da terra chegou,
a menina acordou em seu quarto de brincar raízes,
mas já não haviam paredes nem pertences,
nenhuma dor lhe atravessava do atalho - ao gatilho do mundo.
Os olhos viajando para o céu onde diziam morar anjos se esquivavam do saber.
Esvaziados sótão e porão da velha estrutura, a menina era ela mesma o esplêndido brincando com suas horas desertas, seus brinquedos de existir.
Amigos imaginários caminhavam entre as árvores, limpando a vista,
flutuando entre os escassos de seus dedos, transitam onde gotas gentis cintilavam.    

Do lago emerge o fundo da face daqueles que lhe deram a superfície.
Nas trincas do solo, a floresta - que a alimenta de vida - traz também os nomes dos que ficaram na guerra.
Há medalhas sim, pois podaram para fazer crescer.
Mamãe, onde você está?
Na busca do que transcende a viagem do olhar: há bonecas e flores de lótus.
Papai, por que você não voltou?

Levaram o seu quarto e lavaram seus cabelos entre claros e escuros.
Entre os remendos de seu tempo de achados
enlaça com seus braços a última lua de salvação,
pois a noite é segura e não há luzes nem pessoas artificiais.
Abastece de origens e  baobás seus velhos jogos de Infância.
O pai e a mãe na porta que se lacra é um feixe e a chuva é cinza.  Parecem protegidos nos porta-retratos de dormir. Um beijo de boa-noite sela suas chances de encontrar...
E passos sobem os degraus a destruir reminiscências...
No topo da escada um aviso e o vazio dizem: não entre!
Aqui sobram medalhas de feitos de guerras,
e o tempo-espantalho assombra a cadeia de balanço.
Na parede em solidão a cortiça de imagens de seus olhos
veem o pó no desbotado, esfarelando em suas mãos a gravidade – a rochosa – o solo  desgastado de prover.

As manhãs onde ela desenha agora andam em círculos
e constroem de sombras sua sentença, seu direito, seu destino: o etéreo do olhar.
Ninguém voltará da guerra. Dizem...
Todos se foram para o dentro do lago de suas longas memórias!
Todos contam, sussurram, narram feitos heroicos.
E ela está só, só em si mesma, só em explosões de cores e sentidos,
ela está a revolver a terra, a revolver o rapto de sua jornada pela criança que no instante,  pelo decreto do afasto, se ausenta para viver pavios e verdades fabricadas.
Ela está só no seu mundo de girar e o tempo é a pedra da Terra. Tanto bate!...
Do carrossel uma peça, um estilhaço de Marte,
um pedaço de lembrar os dias de brinquedo, os ecos de brinquedo, os sonhos de brinquedo,
os verdes de brinquedo, as estações... É velha a construção que vem rompendo...
No vento do norte o eco:
                                        “papai e mamãe não vão voltar...
                                          papai e mamãe não vão voltar...”