segunda-feira, 16 de julho de 2012

Atravessando a rua em silêncio.

Imagem@ Henri Cartier-Bresson.
                                                     

(Para um passarinho.)

                 Tem uma frase do Bartolomeu Campos de Queirós que, embora curta, é precisa, poética e carrega múltiplos significados, estes que delicadamente afligem as paredes sólidas daquele lugar que chamamos semântica ou de busca de sentidos para as palavras da nossa (língua)gem. Costumo usar a frase de Bartolomeu como a pílula do doutor Caramujo quando, não por acaso, sinto que devo sair da impotência, da letargia, lugar tão conhecido por nós, seres humanos modernos, que vivem como um dilema a nossa conturbada e frenética contemporaneidade - ou seria com-tempo-em-ansiedade? Disse Bartolomeu que tudo passa, que "até passarinho passa". Lembro então que quando descobri que estava doente já há muitos anos, Ana, uma grande amiga, escreveu esta frase num bilhetinho e me deu de presente com um livro também de Bartolomeu, já que éramos as duas suas fãs incondicionais. O livro “Para criar passarinho” passou a fazer parte de minha mesa de cabeceira e foi assim durante um longo percurso de avanços, retrocessos e reincidências. O livro de Bartolomeu foi tão medicamento quanto os outros e tão eficiente quanto os outros. E gosto cada vez mais de pousar os olhos sobre um trecho que fala assim:
           "Para bem criar passarinho é necessário ter corpo capaz de escutar o silêncio das pedras, o som do vento nas folhas, o ruído de soluços preso em garganta. Isso se alcança afinando bem os sentidos, para perceber sopros de flauta, cordas de harpa e murmúrios das perguntas e lembranças."
           Parece que uma boa definição para a morte foi encontrada por Manuel Bandeira: sim, “o maior de todos os milagres”, o último dos milagres, ele que viveu sempre entre fantasmas de lembranças. E os que já passaram pela tangência da morte, talvez tenham realmente aprendido o incrível e enigmático valor da vida. Porque somente a presença contumaz, a presença física da morte nos faz criar deslocamentos antes inimagináveis. A ameaça da última parca a nos cortar o tecido faz aguçar nossos mais íntimos sentidos. Os sons da música dos passarinhos e a busca da diferenciação entre seus cantos é uma nova aprendizagem sobre sons e notas. Os odores do mundo aparecem - e agora não mais atenuados por nossa displicência olfativa, as texturas das palavras nos chegam com o eco de vozes, o pôr do sol de tantos tons abrandam o que é noite, as crianças fazendo algazarra no faz sorrir assim como a gargalhada sonora de uma menina que atravessa o espelho... E nos perguntamos atônitos: por que esperar a ameaça do fim para aprender a experimentar todos esses pequenos delírios - quase "delitos" da vida?
         Dizem que quase todas as pessoas quando são diagnosticadas com doenças de difícil tratamento tendem naturalmente a negar aquela primeira condição e se perguntam: “por que comigo?” “por que agora?" São invadidas de sentimentos paradoxais, por um lado, superioridade e onipotência; por outro, fragilidade e frustração. E depois, dizem que nos passos seguintes, há revolta e por fim, chega o dia da conformação. Ainda assim nenhuma dessas etapas poderá ser medida como mais ou menos dolorosa. E todas – acreditem – nos fazem ver o mundo. Simplesmente isso: ver o mundo. E ver o mundo tem muito do ver a vida de mais perto, ver dos seres o imperceptível ao olho nu. Porque estamos diante de outra nudez, a maior de todas: a nudez da nossa própria alma.
           E qualquer que seja a via crúcis, ela nos ensina ainda mais sobre paciência, tolerância e humildade. Ser simples. Afinal assim chegamos ao mundo e assim partiremos dele. Não levaremos nada em nossos bolsos. Não carregaremos para nossos túmulos: riquezas, jóias, patrimônios, títulos, plateias... Estaremos sozinhos - de novo... Seremos simples. Perceberemos talvez e então que nada pode ser mais estúpido e violento que a intolerância, o desprezo e a prepotência. É diante do sofrimento que nosso corpo carnal torna-se então capaz de escutar o silêncio das pedras. Ele, suas marcas e cicatrizes serão o símbolo maior da nossa profunda humanização. E é ele que nos une ao que transcende. A alma é um todo que só percebemos diante de uma das mais úteis conscientizações terrenas: somos finitos. Perfeitamente únicos e finitos.
            E a cura é também um milagre, mas não porque nos deixa “prontos pra outra”, mas porque nada será como antes depois dela. E ela se repetirá mais de trezentas vezes ao ano, mostrando-nos o quanto somos mortais. Ela nos ensinará a olhar o outro - de dentro de nós - com mais compaixão, nos libertando de raivas e ressentimentos que porventura venham nos assolar. E ela nos ensinará a perdoar aqueles que nos trazem mágoas indevidas, aqueles que tentam diminuir o nosso valor, desprezando nossa humanidade e nosso potencial maior: a própria vida.
            Um rio sem água não é um rio, um corpo sem alma não é humano. O fundo do rio não é o rio – é o fundo e até no fundo há movimento, há a vida do rio, a identidade do rio, o nome do rio, o nome do rio está na água que corre – está na correnteza. A vida do rio é o profundo, do fundo para superfície e da superfície para o fundo, recriando-se para o deleite das margens.
        Por isso eu sigo acreditando num mundo de justiça, amor e bondade onde o ser humano seja a resposta, enfim, para uma questão tão gasta: “onde vamos chegar?” Posso intuir que não estaremos sozinhos na hora que preciso for atravessar a rua em silêncio. Alguém sempre poderá olhar nosso rosto, segurar nossa mão...

Patrícia Porto