terça-feira, 12 de junho de 2012

Porque o amor é e não é Fugaz.


Erland Josephson e Liv Ullmann na película Saraband. Ingmar Bergman, 2003.




Porque o amor é e não é Fugaz.

Depois de conviver com você durante horas, poucos dias, a distância tomou o nosso espaço e encaixou entre nós a saudade. Imaginava um dia que em mim erguesse esse monumento chamado “amor”. Desconfianças de conchas, imensidões de areia... Mas enfim, abandonada de minhas quase certezas, atravessaria a baía em forma de ponte emergindo das ondas, para me desfazer em pequenas espumas provocadas pelas barcas. Escoraria meus braços em estacas e nos rangidos da atracação seria a ligação com os terminais. Eu, terminal e germinal. Um barulho proporcionado pelo metal e madeira no encontro da embarcação.
       À noite nenhuma estrela e o dia de nublados com a informação da chuva sem o aconchego do lar. A fome veio sem notar sabor, o corpo sem a sensibilidade, o poema esquecido sem o fôlego da alma e a mãe que deixou para trás seu filho por algo melhor para ambos, se arrependeu e não pôde voltar. Era tarde, seus seios murcharam de dor. 
        O mundo sem as cores vivas da natureza seguia as horas com os minutos demorados da pulsação do dia; e todos em volta continuavam numa marcha veloz. E a semente de flor sem a vontade da vida a amanhecer-lhe de esperança frente à brutalidade do asfalto. Barulhenta e cinza a cidade prosseguia. O tom único da sobrevivência vinha então no simples, na rotina, no ato de obrigação cotidiana e assim o tempo iria preenchendo e insuflando o corpo como um simples miolo de pão, dando de comer aos passarinhos do estômago
  O amor não lhe pertencia. Não sabia, não sabe de você a estranheza que te habita. Não sabe onde está se envolvendo, se engajando. Mas digo sempre, há avisos, avisos de cuidado na porta: mantenha certa distância no início, vá mais devagar... Este ser que habita este amor é mais frágil que o mais frágil dos cristais mais finos. Toda sua força é ser frágil e ser frágil é a sua única linguagem.
  Feito novo habitante da casa-amor, ele se alimenta do mundo ao redor, que o sacia de calor e de aguardos, vozes que lhe dizem ao corpo palavras sempre estrangeiras. No vitral, a imagem é que ilumina a suavidade das mãos duras do tempo, mas agora amansadas, amassadas em si mesmas, deixando escapar pelos dedos a areia movediça da ampulheta que não dá mais conta do mistério e da obsessão do tempo. Ele, ela é fugaz, é fuga da morte e fogo de renascimento.
       O mundo é todo o silêncio da madrugada, o silêncio vermelho que se aproxima da vidraça do apartamento, avermelhando de luz a fresta, a pouca viagem de luz. E o sono, embalado dos amantes que se sentem sempre últimos e primeiros; este desconhece os sonhadores, pois não sabe do invento a saudade. Hoje adormecido o amor que ficou longe, mas próximo, transforma o tempo em sonho e o sonho é a passagem, é o amor ao lado, do lado de dentro - guardado intacto e sempre precioso.

Patrícia Porto

Lou Bernstein, 1950.

AMOR FEINHO (Adélia Prado)

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.