segunda-feira, 18 de junho de 2012

Espólios.





No acervo da casa grande
lá se amontoam esqueletos de objetos particulares:
pequenezas, miudezas, pequenas confissões dos muitos e presos,
de todos os respectivos fantasmas,
roendo em pós os pés dos móveis
respectivamente familiares.
Testemunhas reticentes alegam que há apenas discórdias e inventários,
divisões de bens há séculos amaldiçoados pela feliz coincidência burguesa.
Tanta tola existência!
Por que então não recusar repassar as promissórias do passado?
- Perguntam os fantasmas, olhando pela escotilha.
Por que não enterrar os mortos da família com seus panos e dejetos sepulcrais?
Por que não cessar a voz aos alhures e às pragas de maldição? Sim, mas, quem o faz?
De soberba vive o velhaco com cheiro de urina, guardando em relicários
as carnes, os pedaços arrancados dos santos.
Não, não se pode assim riscar de vez os tortos nomes sobrenaturais
para rasgar os papéis e as certidões!
Que tola insistência!
Sabem, porém, que na lacuna do invento,
no espelho que já não quebra mais mãos,
uma criança, um menino de espírito livre
pode libertar o baú dos mortos
e ousar reverter a história
- para cortar inocente
- e cálido -
a árvore verossimilhante:
pela raiz.

Patricia Porto



Imagens @ Sarolta Bán