quinta-feira, 10 de maio de 2012

Amor.


Imagem @ Ansel Adams
Aos Navegantes.

À margem do mar espero teu retorno.
As pedras dizem de ti um rosto imaginado
que calado de esperas se violenta contra a marcha das águas.
Sou toda a violência da promessa sangrando as cordas da embarcação
ao revés num trapézio sobre o mar...
Meus achados são recifes e reis trapezistas se lançam entres os desvios,
entre os fios de solidão, os finos fios de teus cabelos a cobrir minhas mãos...
Minhas mãos, eu as sinto, não são mais de pedra...
Minhas mãos se assumiram frágeis com a música de tua viagem,
passando em vigília horas do tempo a recolher fragmentos de velhas histórias,
a contar vestígios espelhados nas conchas miúdas, no fruto marinho...
Na noite de estrelas acesas eu também me iluminei.
Nossas pequenas fraturas, pois, abraçadas à praia,
e por anos mergulhadas de mistérios, se inscreveram no texto do mundo
e por lá permaneceram cúmplices do barulho que espuma.
Mas eis que sobre o mar reinam seres que dão saltos ornamentais
para aportar em nossas terras e salgar nosso destino demarcado.
E que ao descobrir nossos sinais nos armadilham de esquecimentos,
e repatriam nossa língua de experiências.
Fazem ocultos nossos princípios, nosso enlace, nosso sonho de partilha.
Desatadas enfim minhas mãos só se poderiam lançar
e por isso, por uma nova pátria, se ameaçaram ao precipício,
e agora desunidas, vivem pagãs na presença e na face de um deus que sempre cai.
Minhas mãos se precipitaram e me ensinaram novas raízes,
novos sentidos sobre o desejo de ser outra,
a que dança nua na areia e tem corpo.
Teu retorno já não o podendo rever nos olhos que viviam em mim , o alimento e destruo.
Deixo então que me  transgrida o mar em punhal e me dispa de honra a entrega.  
Minhas mãos abertas do que foi claustro, tocam novos domínios.
Cada qual é uma onda partida, deixada em bilhetes,
avisos, urgências, pedidos feridos, pérolas em dor.
Talvez o mar, talvez um dia, talvez a flor frugal, perdida de meus cabelos para os corais,
encontre em tuas mãos os motivos, a herança tardia dos navegantes.
      
 Patricia Porto