domingo, 30 de dezembro de 2012

Transcendências...

 "Akash", Bangladesh, ganhador do concurso Travel Photographer 2009.


Há um véu que adorna o rosto.
Um mosquiteiro sobre a cama.
O mundo bem podia ser feito de filó
e de sua inevitável transparência.
Mas há tantos chambres de dormir
e máscaras de gás nos armários.
no algodão que encobre os corpos
para serem levados ao Ganges há paz.

transparências sim, algo dão,
algodão puro, água para banhar-se...
A água de rio corrente desacorrenta almas e tecidos.
Translúcidos nos tornamos.
Translúdicos como crianças que brincam com oxigênio.
Transparentes da mesma família humana.
Tolerantes e violentos como as águas dos rios,
mas também doces e profundos.
O tempo é movimento, tomba e dilata.
A poesia é uma transparência do ser
que se desnuda em várias fatias de horas anteriores.
O poeta é um sonhador que transparece feliz.
O fundo é o barrento da alma que se transforma
com transgrediências...
E transcende.

Patrícia Porto

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Êxodo.



@ cristina garcia rodero

Êxodo
Nada mais canalha que o verso de gesto escasso:
uma estampa qualquer a mil raios giratórios de distância da alma,
a uma circunferência matemática de ausência ponderada,
metricamente calculada com grosso calibre
para alvejar seres de pequena dimensão.
Por onde andam apontando suas armas?
Agora sei onde não estou. Do ego ao oco, vago...
E lugar nenhum é minha eira.
Não beira, pois quanto mais alto o mirante
mais alto o pathos e a queda.
Nada mais calhorda que a piada estúpida
da bondosa espécie, hipócrita e  petrificada,
caindo aos pedaços, caindo aos cadarços,
caindo, caindo - como gotas,
chuvas... Too much... "I'm a poet, and I know it." 
Velhas trepadeiras,
novas esquinas sonolentas,

nenhuma distopia, somente rotas e bússola nas mãos.
Nenhuma voz de anjo decaído no deserto desse mapa...
Apenas minhas nádegas sentando no sofá da eterna
falta do que dizer, do que fazer,
do que amar, do que entender.
Para onde parto? Para onde o parto?
It´s Soul long...
Palavras e securas, sons de máquinas elétricas
agora são sons de passado estrangulando as esferas.
Está rindo? Então se ria e borre.
Porque que sorte estranha: contar as calorias do jantar
e as novas favas de existência pacífica.
Cortar a grama com essa nova forma de inventar o vivido,
tragando a fumaça de fora e toda droga segura
para encarar cem anos de tortura e lucidez automática.
Prefiro a genética distorcida, as raízes que adoecem de dor,
o último suspiro do amante no ouvido, sem macular.
Prefiro que me surpreenda, me surpre eennddaa
não há ementa que se cure, não há mal que não perdure,
não há estranhos que não digam até a hora final
o que lhe serve melhor de arranjo.
Prefiro a indecência da morte,
toda luxúria sem capa,
minhas tetas na janela colhendo a chuva
sem exercícios de opressão.   

Patrícia Porto

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

ensaios para voos clandestinos.

Shinji Watanabe


Sim. És pássaro!
então te aprontas e voas
encontra teu universo de um quarto,
de quadros marítimos...
E te dedicas a olhar devassamente
o plano cartográfico dos que já nasceram
em berço de voo.

Sim. És pássaro!
tuas asas estão suspensas por guinchos
sobre marcas de promessas.
Sabes que teu desafeto e destino
é sublimar ressentimentos.
Alçaras o topo de onde
almas humanas também se lançaram aos infernos.
“E temerás do mal - o todo e qualquer um.”

Sim. És pássaro!
tua liberdade ficará grafitada
nas vestes dos filhos de outros filhos.
Tuas asas serão tatuadas
nas costas do homem e da mulher
que ao retornarem cansados
do consumido tempo,
não desejarão a teia infinita
sem mais relógios
e prisões...

Sim. Tu. És. Pássaro!

Patrícia Porto



quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

entre tantos trânsitos, a carne crua


Fotos de Viagem, Lukas Kozmus.


porque nada permanece.
tudo é território
transitório:
amor, pena, solidão,
susto, gratidão, carma,
peste, bom senso, carisma,
a ilusão do amor.
a chuva, o fardo, o fado de Teresa,
a vilania, o espectro do pai,
o demônio, o oposto, a regra
e a exceção e o otimismo.
tudo que é fixo é trivial
e profundamente triste.
tudo o que permanece
é exageradamente pequeno
e ao mesmo tempo é tão grande
que nos faz amar o grotesco
ao som terrível da tempestade
que berra, berra sempre
porque é da natureza das tempestades.
o fixo é a gramática e o que aparta.
o fluido é que liberta, o que transita entre rios e margens.
não te coloca à beira.
é o que nos faz respirar direitos e humanidades.
e tudo mais é acessório, brinde ou souvenir.
é desgaste, desprezo e prisão.
o justo é o atraso da morte, a velhice enfim.
o que passa é o que muda, faz sentidos. 
Sobra. Cria. 

Patrícia Porto

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Viajar é olhar.





Viajar é olhar;
é ter olhos despertos,
olhos de mar,
de amplitudes e horizontes
- para saber olhar os essenciais
e não o pó fútil do verniz das aparências.

Olhos de viajar
para ouvir a sinestesia do tempo:
uma antiga canção de ninar,
de um cansaço de alma velha súplica
- sem mais tempo para a estupidez
das palavras déspotas,
dos verbos imperativos.

Viajar é olhar
vislumbrar,
desvelar o infinito do nada
e nele: o mais belo do belo que ousou existir.
Ser do tombo, um universo
e ser do profundo a busca
suprema.
Não no meramente raso,
nem tão apenas mesquinho.

Viajar é olhar
para poder um dia, quiçá,
dores acalentadas,
descansar da guerra
do fogo e da caça
no suave abraço
dos braços da amada.
Uma amada tem muitos abraços.

Viajar é olhar
para não perder de vez o sentido,
para não punir a experiência telúrica
com a ausência bruta, cruel, dos que não sentem.

Patrícia Porto

Pensando em Kierkegaard.

         
          “Poesia é comumente considerada a mais local das artes. Pintura, escultura, arquitetura, música podem ser desfrutadas por todos que vêem ou ouvem. Mas a linguagem, especialmente a linguagem da poesia, é diferente. Poesia, pode-se supor, separa as pessoas ao invés de uni-las. Porém, nós devemos lembrar que, se a língua constitui uma barreira, a poesia nos dá uma razão para tentar superar essa barreira. Desfrutar da poesia de uma outra língua é desfrutar de uma compreensão das pessoas às quais essa língua pertence – uma compreensão que não se consegue de outra forma.”

Kierkegaard


O Navegado.
Meu passo é o ante p
Asso
Antes p
Assa
Antes p
Eso
Antes pul
So
Sol
Mi
Mim
Meu pass
Ado
Antes
Nunca
Dantes
Dentes
Doravante
E sempre
Nave
Gado


Patricia Porto

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Nascimento de Vênus.

“O nascimento da Vênus”, de Sandro Boticelli (1845)

"Conversa estranha com gente esquisita, eu não tô legal..." Aconteceu por duas vezes seguidas. A primeira foi perto do anúncio do fim do mundo, quando estranhamente resolvi me dar de presente um novo mapa astral. Sabe aquela lista de coisas que você faria se o mundo acabasse? Eu estava exercendo a minha de fato e pedi a uma pessoa,  reconhecida na área, que fizesse o meu mapa astral. O resultado disso? Passei mais de vinte anos acreditando que meu ascendente era “virgem” e não era. Como assim?! Claro que isso gerou um inusitado desconforto entre mim e a astróloga em questão, por sinal, maravilhosa pessoa.  “Me dá cá meu ascendente de volta! Que negócio é esse? Não tenho mais idade pra mudar de time nem de ascendente.”
Descobri - dessa maneira, um tanto pitoresca - o quanto nos apegamos às coisas, as mais incrédulas, as menos questionadas, creio. E nos apegamos a tudo e a todos com afinco e orgulho, nos apegamos à história, à racionalidade, às crenças, às banalidades, às quinquilharias, às coleções. Síntese bacana essa, a do ser humano: “apegar-se”. O desapego é um exercício de luta. Uma luta feroz pra muitos. Pra maioria, digo. Os que nascem em outra cultura e crescem longe, bem longe da poluição mercadológica, podem se desapegar com facilidade. Eu acho. Também nunca fui de outra cultura e lugar pra afirmar isso. O certo é que me apeguei tanto ao tal ascendente em virgem que não queria desistir dele por nada. Virgem, o ordeiro, centrado, minimalista, meticuloso, crítico sim, mas ponderado... Por aí vai...  E isso (acreditem) me dava certo conforto. Porque minha bagunça interna já era tão grande, que só um ascendente em virgem poderia me salvar da loucura total e generalizada. Imagina se eu tivesse um ascendente em escorpião?! Sairia por aí mordendo gente na rua!  Já me sentia culpada por ter nascido no mesmo dia em que nasceram Napoleão e  Mussolini. Pra que mais?  O fato é que detestei a nova constatação astrológica e cheguei a duvidar do mapa, e óbvio, dos métodos usados...
Foram minutos de um debate esquisito. E depois de cair de vez no “aqui e agora”, quando enfim percebi minha atitude ridícula, tudo isso acompanhado de uma xícara enorme de chá com florais, só poderia mesmo, finalmente, me conformar. Uma pessoa com ascendente em virgem, pé no chão, não iria tentar dissuadir a astróloga de seu achado profissional com argumentos paradoxais de teimosia. Tudo bem, tudo bem... Havia uma nova combinação no meu céu. Meu ascendente era libra. Mas foi por pouco, bateu na trave.
                Nada contra o signo de libra. Acho câncer, peixes e libra os signos mais fofos do zodíaco. Tenho amigos maravilhosos desses signos. Justificável, pois são pessoas de afeto e  “colo” extraordinários. Mas como eu poderia ter um ascendente em libra se nem pinto minhas unhas? Odeio pintar as unhas. Até porque levo menos de uma hora para destruí-las. Tudo o que eu ouvia falar de libra, de forma muito leiga, estava ligado à beleza, à leveza, ao bom gosto, a certo refinamento. Muito esquisito... A astróloga - canceriana, me apontou então alguns caminhos que seriam os ligados à arte,  à estética literária... Contou-me a seu modo o mito de Afrodite, a deusa do Amor. Nascer da força que espuma da delicadeza e da potência... 
                Com quantas certezas se constrói um barco ou um castelo? Fiquei com essa pergunta rondando minha nossa face psico-astrológica. Respondia: com a mesma, com a mesma. Mas se for um sonho? Uma criação? Uma mudança? Com quantas certezas? Muitas? Algumas? Nenhuma? De quanto tempo precisamos para nos desapegar de uma falsa certeza ou de uma verdade de ocasião? O caminho da verdade é a dialética. Aprendi nos livros e na vida. Só não tinha parado para entender o quanto custa  jogar qualquer verdade, a mais banal delas, para fora da alma. Não, não é somente na cabeça que as verdades são forjadas. Elas vão lá na tua alma e te possuem, talvez para o sempre. Olhei ao redor com medo de estar falando sozinha, tamanho o caos que me incendiava.  Afrodite me guiando numa nova temporada de incertezas e indefinições. Que bela espuma!
                Vi o quanto podemos ser rudes e austeros para manter uma convicção de cabeceira.  Mas também refleti sobre o desprendimento, das dores que causa: as pequenas, as variadas, as enormes, as de todos os tipos e sentimentos contraditórios: e as que invadem à nossa mente querendo fazer moradia fixa quando precisamos deixar algo ou  alguém partir. Voltar pra si mesmo, conviver com sua própria solidão, recolher-se para se reencontrar, pra ressignificar o vivido, não é tarefa das mais divertidas. Vai uma anestesia aí?  Ah, uma onda morna, por favor.
         É preciso voltar para dentro, mas não é fácil. Lembra a minha avó falando: “mas quem te disse que ia ser fácil! Quer moleza? Senta no pudim!”  Mas bem que um pouco de fantasia e  mágica não fazem mal a ninguém. Nem de pudim também. Ao contrário. A fantasia tantas vezes nos salva dos choques da realidade... Acho mesmo que a resiliência, essa palavra da moda, deve ser um portal, uma conexão direta com a fantasia, com a capacidade criativa de viver paralelos, outros mundos; e magicamente. As crianças sabem. Todas elas já nascem resilientes, fora os olhos abertos. Afinal, nosso mundo não anda bom pra peixes e nem pra crianças. Perdoem o trocadilho bobo. Mas não resisti.
                Arrumada de novo, a nova era astrológica me fazia rir, mas uma vez sozinha. Rir de mim mesma, da minha auto piedade diante da inevitável perda. Era preciso dizer adeus à virgem, à Terra... E dizer olá à Vênus. Olá, Afrodite! Enamorei-me de libra com suas delicadezas tão sutis. Quem sabe um novo ser surja da espuma, mais leve, menos dramático e arrogante, menos solar e mais autêntico na sua ambiguidade.
                A segunda conversa esquisita foi com a psiquiatra. Mas essa eu desisti de contar no caminho, conquista de uma recente ética e estética de balança.           
                             
Patrícia Porto
              

domingo, 16 de dezembro de 2012

Eπιφάνεια





na face mais aguda da palavra

pôs se na trama de fiar a lírica
feito o corte ao norte
para advir de todos
um novo serungido

dores sedentas sempre fitam-lhe
cara a cara, queda a queda:
pedaços de velhas construções poéticas
vão caindo sobre o corpo frágil,
um novo corpo frágil digital
sem ponteiros de direção

da palavra do pobre poeta:
agora nua, a despedaçada,
de tão efêmero e algoz existir,
surge da noite selvagem como um berro
rasgando verbos do dicionário:
enfileirando palavras esdruxulas
aos rococós do sem sentir.

dos novos navios, 
o verso da arrogância não
quer se entendido, esteriliza.  
o verso da arrogância é um tiro na face, asséptico,
como a violência soberba dos eternos colonizadores
de terras, mares e ares

quanto vale o poema da terra?
quando vale o poema do mar?
quanto vale o poema do ar?
com quantos grilhões se fere o seu verso alforriado?

mas o poeta do escuro, tateando o ouro das vestes
nobres de seus poetas obtusos,
escreve com sangue seu duplo sentido,
sua dupla jornada de ser e não-ser -
de lançar ao amor seu orgasmo e gozo. E os dois, ele e a amada,
um no corpo do outro, em simbiose, 
escrevem tatuados um novo ato de desconstrução sentimental...

toda voz grita. É o Frágil! Pobre poeta dos escuros... as paredes não gemem.

de longe se pode ouvir
sua viagem, miragem,
mensagem:
livre ele da criatura da guilhotina,
transborda sobre a cheia
que limpa e batiza novos povos:
meu mestre, sou louca, senhor! Ela diz.
Devora-me em mim o eu que há em ti!
angula-me, me gole, me enigma. Mas não me esnobe o que sublima,
o que tateia a pedra e não a tira.


Patrícia Porto



sábado, 15 de dezembro de 2012

Do mirante.


Lukas Kozmus



E você abre a janela e espanta o que foi espanado
da casca.
E aí é possível ter visões de nuvens e cores,
montes que corromperam um tempo
- o indivisível.
E aí você que se diz poeta - abre o mundo feito uma fruta de gomos
e espera que o ar traga a poeira dos sonhos mais lúdicos e loucos
- feito Poesia – essa coisa de criança.
E você escreve sonhos na areia
ou versos que um dia você docemente teve
e esqueceu de acordar.
Por dúvida ou medo. 
Foi-se na espuma
engarrafando o desejo.


Patrícia Porto

Por que voar? Arre, voar!



Penso em voar
voar dentro em pouco
e aos poucos num raio
por milésimos de segundos
segundo meu fato solto

Penso em voar
voar dentro do poço
pulando atrás do rastro
de um mistério mundo
rompendo meu salto alto

Penso em voar
voar denso e pouso
povo a povo num rasgo
de um parto fundo
profano de meu salvo ato

Patrícia Porto
(1987, escrito aos dezessete)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Paciência Estratégica.


Paciência Estratégica
             
                Recentemente numa entrevista concedida à TV brasileira, o Presidente do Uruguai,  apelidado como o Presidente mais pobre do mundo, contou que para lidar com os problemas internos da economia uruguaia e a queda de sua popularidade, seguiria o conselho que a Presidenta Dilma tinha lhe dado: teria “paciência estratégica”.
                Paciência é uma palavra muito ligada à semântica dos monastérios.  Ser monge é quase um aspecto sinonímico de ser paciente.  Um monge estressado, penso que seja algo inviável. Talvez motivo para uma distinta expulsão. Jó era outro. O mais paciente de todos. Mito da Paciência, Jó perdeu tudo: família, terra, honra. Mas reconquistou tudo em dobro pela sua enorme, monumental paciência.  Perder tudo para ganhar tudo em dobro. Imagine-se perdendo alguém que ama, para mais tarde ser contemplado com duas novas pessoas, tinindo, brilhando de novas... A paciência conseguiria dar boa substituição para o que já foi perdido?  
                 Em termos de economia de um país... Aí é outro papo. Certo? Certíssimo ou justíssimo, diria o nosso político mais realista da ficção, Justo Veríssimo.  “Pobre tem que morrer!” Era um de seus bordões. Pobre que não é Presidente é como o operário que não é Presidente, como a mulher que não é Presidenta, como o sociólogo e professor que não é Presidente, como o palhaço que não é deputado. Achar que eloquências ou dinâmicas discursivas podem representar as minorias ou a maioria esmagadora, é uma ilusão de ótica. Gostava mais quando o programa televisivo de fim de domingo deprimente (ou em outra ordem) mostrava os ilusionismos de David Copperfield  ou  ainda, quando o Cid Moreira apresentava o Mister M. Pelo menos eram anunciados como deveriam ser: “mágicos”. Sempre gostei muito de mágicos.  O mágico é um sujeito que tem a tal da paciência estratégica. Porque primeiro ele faz todo um trabalho de sedução, ganha a confiança da plateia com seus truques e mãos rápidas. E depois engana seus olhos com muita rapidez e logística. Geralmente faz mais coisas desaparecer que aparecer ou faz coisas desaparecerem e aparecerem em outros lugares, como paraísos fiscais, cofres suíços etc. E para lidar com a desconfiança da plateia? Mais e mais, muita paciência estratégica. Podem ser anos, décadas de paciência.
              Em Grande Sertão Veredas, “Deus é paciência”. O diabo é que está solto na rua, no meio do redemoinho. Parece que o “Coisa Ruim” não é de ter paciência. Não à toa, antes dos manicômios, o tratamento que se dava aos loucos eram os dos serviços clericais, expulsando os demônios que habitavam a loucura: a irrequieta, a extravagante, a excêntrica, a histérica loucura, principalmente a das mulheres. Afinal, só paciência expulsa demônios. Algumas cachimbadas podem até ajudar.  Meus demônios, por exemplo, se chamam “hormônios”.  Tem dias que nem o  melhor dos exorcistas conseguiria lidar com eles, eu asseguro.  Haja paciência!
               Todas as esferas de poder conhecem a importância da paciência. A indústria farmacêutica ganha rios, tubos, malas, cuecas de dinheiros com a Paideia da Paciência. Vende-se de tudo para o sujeito ficar “paciente”. Porque a impaciência é  decididamente o mal estar do século que ainda se inicia, podemos dizer. O século, um adolescente de doze para treze anos... Fase das mais difíceis de lidar. Dá mesmo  vontade de acabar com o mundo. Um horror! Depois que ele casar passa.
            A paciência aqui de casa tem formato de vidro e no rótulo está escrito rivotril. Cinco, dez gotinhas, hum, dá uma paciência da boa... Melhor que chá de cidreira, folha de maracujá, erva que dá no mato... A necessidade de paciência tem essa estratégia. Outro dia, uma colega de trabalho se encostou em mim de canto, falando baixo: “eu sei que você usa rivrotril, dá pra me arrumar umas gotinhas...” Foi divertido sim, me senti a maluca na jaula dando a solução pro enrustido. Sai desse armário, minha filha. Libera essa louca! Deu  nó na garganta, porque a loucura anda tonta, extraviada, banida dentro dos nossos próprios redemoinhos. Na mitologia persa existe a "syngué sabour" ou pedra-da-paciência, uma pedra mágica que guarda os segredos e as angústias de uma pessoa, e que só pode libertá-la dos seus piores sofrimentos no dia em que explodir.  A liberdade então não está na resignação passiva da pedra. Explodir seria sua libertação dos sofrimentos.  Mas que medo, não?  
             Paciência é uma das sete virtudes, fica do lado oposto aos sete pecados. Do latim patientia,-ae, é a virtude de tolerar dissabores, todos os males da vida com calma. Nossa, dei até umas sacudidinhas pra escrever isso, uma coceira na cabeça... Não tenho a menor calma com gente muito calma. Talvez porque o meu pêndulo caia sempre mais para o lado dos pecadores.
          Entendo que nessa nova “era”, não a de Aquário como pensávamos, mas na era da “Autoajuda”, tudo isso venha parecer conversa pra boi acordar. Que o pobre do boi continue dormindo seu sono em berço esplêndido. E que os incomodados que se acalmem.  Entre as palavras de mesmo significado gosto bem mais de “pachorra” que além do duplo sentido sonoro, é plena de significância em sua ambiguidade.  Assim como o ser humano?  Só de falar “pachorra!” já fico até calma.
            Não, não farei um tratado ou testamento contra a paciência. Nada disso. Nonada. O mal não há. A gente é que atravessa o mundo criando, inventando desesperos, pintando a casa de amarelo.  Talvez eu esteja na embrionária vez pela existência. Não consegui nem mesmo ser um ser humano inteiro, porque se assim fosse não me sentiria tão miserável por tantas vezes. Perfeita a ideia de “paciência estratégica” dos dois Presidentes diante das crises, como um jogo de cartas que se joga sozinho. Quem Perdeu? Eu. Quem Ganhou? Eu. O último a bater? Eu.  Mas tudo estrategicamente.
 

Patrícia Porto 


       

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O Porto.

 Imagem© Igor Kragulaj, Croácia.

adiante...

Se fosse o mar a nossa mão direita
E a nossa garganta fosse a água dar a senha
Não, não teria razão para tanta sede

Se fosse o mar doce como a tua beleza
E não fosse fel a onda, nossa água ardente,
Não, não teria razão para tanta sede.

Se fosse o mar calmo como o teu canto
E não fosse estranha a minha natureza,
Não, não teria razão para tanta sede.

Se fosse o mar todo o teu bem futuro
E se não fosse nessa água esse tanto sal,
Salgando essas carnes nossas feito um fado triste,
Não, não teria razão pra enterrar na areia esses nós e pés,
Adubando a terra com tamanha sede.

O Porto ficou deserto, vazio parto de si.
A inundação foi chegando, salgando sua chegada.
Varreu o sal dos seus barcos
E quem esperou nele o amor
só viu a sede partida.
Tanto mar em terra firme
Se despedindo da vida...



Patricia Porto

domingo, 9 de dezembro de 2012

Pensando na morte do Bezerra.

Shinji Watanabe

Não havia dúvida.
Era preciso enfrentar o Mar:
- não há pressa, disseram.
Trincos trancados.
Xícaras de café.

Templos aguardando
seus joelhos e chagas.

Mas ninguém ficará aflito.
Ninguém cairá da janela do medo
ou subirá escadas de orgulho.
Prometeram:
Ninguém!

No espetáculo fáustico
nenhuma presença dos Anjos,
nenhuma mancha de assalto
no tapete persa. Chinês?

Tome o café rápido!
É preciso enfrentar o Mar:
o absurdo da vida
chamando, chamando!

Marche soldado,
cabeça de papel!
Toda loucura é pouca!

Entra um homem de beca e assalto:
sinto muito, mas o senhor continua vivo
e os suicidas, esses não se enterram em solo santo.
Precisamos reanimá-lo.
Ah, e o solo é santo, doutor?
Atirem-me então ao universo!
E vendam minhas relíquias!
Estou sóbrio e preciso enfrentar o Mar!

Entre os vivos-mortos
ia só dedilhando farsa poética,
onde os vermes-humanos não se podiam mais ver,
“ignoro toda miséria dos seus preceitos!”, gritou!
Agora hei de cerrar a porta do meu abismo com gosto.
Despisto a vida, porque não tive dela virtude,
para abrir enfim, à revelia, a escotilha do mundo!
A última. Que seja. Ao mar!"


É o vasto!
É o Mar!
Estou morto!
Estou vivo!



Patrícia Porto

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

como agre doce.


 Imagem© Pierre Alain

A chuva veio
e levou tudo assim
como o vasto

Mas o que é o vasto
se não o sal
dessas águas de insistência:
viver?

São nossas as lágrimas,
o soro desses olhos
que cobrem o instante
da chuva de dentro.

Por fora:
as poças vão formando
oásis
como lençóis,
onde o sal agora é doce.

Patricia Porto



Um trem de cordas.


Imagem© Os Gemeos, Otávio e Gustavo Pandolfo.Graffiti.

Ainda ouço minha mãe gritando: _Vai perder o trem!
E o trem levava para a escola técnica,
no tempo que eu queria ser de outra natureza.
Maldita sina: nascer mulher! Eu praguejava.
Porque era normal praguejar se se nascia mulher
naquela família.

O trem saía de Alcântara
para um lugar nenhum dentro de mim.
O trem de Alcântara,
a explosão de Alcântara.
Eu queria ser engenheira.
Engenheira das letras? Disse um professor barrigudo. (que trem esquisito...)

E um dia Alcântara explodiu,
ficou deserta de gênios;
a outra, pequena para os meus olhos.
Eu queria conhecer uma tal de Londres,
vi num catálogo ilustrativo.
Era a terra de Shakespeare,
maior escritor inglês de todos os tempos.
Mas o trem de Alcântara não era desses de fios de ouro,
precisava de muitas cordas
e não parava em estações que fossem de sonhos ou loucuras.
Ele seguia avante e sombrio, como um trem de fantasmas,
para um destino que nem era o meu.

Acorda, Patrícia, vai perder o trem!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Garrafas, mensagens e trocadilhos sem mar. Ou por um sonho menos ordinário.



Imagem© Alice Wellinger
Cartas jogadas ao mar?
Não as teremos mais!
De tolas certezas se preenchem a vida dos que andam ao certo.
Agora sim,
é o sal do perecível dos beijos,
do perecível do amor,
do mundo o filho descartado,
o espécime raro engolido pela má sorte.
Saberá quando ancião do dia o mal estar do domingo à noite,
a solidão da geladeira. O pinguim eletrônico. A ração congelada.
Saberá da estátua de um seio amputado,
da bomba anatômica apontada para os nossos umbigos. A perfeição.

Cartas jogadas ao mar?
De insônias passam seus dias, os lobos solitários.
Saberá o filho do mundo - do ínfimo e das margens,
(e por que tantas margens se a alma estará só?)
(por que tantos parênteses?)
Saberá da fragilidade do corpo,
porque terá sido do raciocínio lógico um afogado firme!
Saberá do verso o vespeiro, o excluído, o cortado sem dó.
A palavra que lhe apertará o gatilho. E partirá com ela. Em retirada.

Cartas jogadas ao mar?
Com poucas sentenças deixará sua cidade.
Dirá para velha: "voltarei logo". Mas não voltará nunca.
Saberá por tantos do mapa que não seguirá,
o de veias tortas do mundo, porque será dele
o tempo bastardo e a falta de semelhança com a reta...
Saberá do escudo de uso para morte súbita.
E sentirá a mão de mulher que acenará até o fim. Esperando.
Saberá então do cachorro esquecido no mato. E será dele auto-retrato.

Patrícia Porto

domingo, 2 de dezembro de 2012

Notícia de vã guarda: A Mulher de Berlim.


O urso polar Knut no zoológico Tiergarten, em Berlim


Mulher se joga na jaula de ursos polares.
A mulher de Berlim se joga na cela dos predadores.
A mulher de Berlim na páscoa se lança e invade a piscina de Knut.

Por que a mulher de Berlim se jogou a um dos maiores predadores da terra?
Por que a mulher de Berlim queria abraçar Knut?
Por que se jogou?

A mulher de Berlim só queria abraçar Knut.
A mulher de Berlim só queria se jogar.
Aplacar sua ambígua dor.
E se jogou.
.
.
Pat Porto

sábado, 1 de dezembro de 2012

Meu Brasil brasileiro entre tons e dissonâncias.

Imagem© Araquém Alcântara

                      Tenho andado numa fase frasista esta semana. Acho de uma inteligência  tão "chic" esse poder de síntese! Eu não sei dizer nem mesmo o óbvio em cinco palavras. Que me perdoem os meus colegas, poetas contemporâneos, com suas tesouras antenadas, mas me esparramo pelo chão... Por isso estou sempre ou com uma trilha sonora na cabeça, minha paixão explicita pela música; ou com frases de outros a rondar meu pequeno mundo de cachola. E hoje eu acordei tendo como lema a conhecida frase do Tom Jobim, num desses tons: "Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom”. 
                        Acredito que cada cidadão brasileiro comum, como eu ou você, à sua própria medida ou desmedida passe duas ou três vezes por semana por esse sentimento que diz e clama lá do fundinho de nós: “o que eu estou fazendo aqui neste lugar?!”
                           Que país é este, afinal? Rico e miserável em contradições. Acho até que Belíndia já caducou. Mas dizem que estatísticas não mentem. São como cartas de tarô. Descartes não tinha ideia da persona ou do monstro que poderia criar. E viro número, logo existo! É claro que avançamos muito, o que pode comprovar que a pobreza vem diminuindo. Pode? Sim, basta olhar todos os índices do ilustre economista Marcelo Neri e de todos os Institutos que são realmente sérios. Não estou sendo irônica. É o que ocorre!  Estamos saindo da imensa pobreza e é pra valer. Que nos confirme também o tal Fuleco, nosso mascote do crescimento! 
                        Agora,  pra sair da miséria, do nosso velho e rotineiro miserê, devo confessar que tenho cá minhas dúvidas – e também dívidas à balde pra desmentir. E o que sei (perdoem) é que desse imbróglio todo, uma pergunta teimosa resiste e não quer, mas por nadinha, calar: "se avançamos tanto por que os tantos retrocessos e a tamanha desigualdade?" E esse desconcertante retrocesso ético? Como fica nessa lista? Como lidar com esse “pepino” interno? Ah, no meu não, camarada! Sai pra lá!
                  É paradoxal mesmo. Lembra um pouco aquele jogo de corrida de casas que a tua tia te dava de presente de natal, quando não era meia: vai, meu filho, avance! Ah, agora retroceda, não, volte duas, três casas... Quer saber? Volte ao início e comece tudo de novo que é melhor negócio... Ou deixe-o e  saia logo do jogo! 
                  Não sei vocês, mas eu já pensei algumas boas vezes em arrumar minhas malinhas e ir pra um lugar distante, pra um desses países gelados que prometem oportunidades e são campeões em qualidade de vida. Depois pensei na frase do Tom e na minha bronquite, e desisti. Penso dois segundos por mil vezes. E fico no assobio do samba do avião, resignada... Tá legal, eu aceito o argumento.
                O que eu iria fazer com a minha língua que é ao mesmo tempo - para mim - saída e entrave?  E o Brasil é bom, vai...  Olha as nossas praias, o futebol... Não temos guerras, homens-bomba, vulcões, tsunamis... E aí vai ficando quase impossível não cair naquela piadinha batida da criação do mundo. E o todo poder dizendo: “Você vai ver quem eu vou colocar lá!” A lista da ficha suja é realmente longa e histórica, vários congressos, organizações, departamentos caberiam dentro dela. 
                 Sobre não ter guerras ainda duvido.  A nossa usual estatística de homicídios entre jovens que morrem antes dos vinte e tal – sempre teima em pregar peças. Mas segundo os novos índices, diminuiu pela metade de 2000 para 2010. Sei não... Devem estar torturando uns números por aí. "Cala boca aí seu cálculo de merda!" E tome tapa na cara de mão aberta que é pra não marcar!  
                E quem é o Collor mesmo? O Maluf? O Zé Dirceu? Não seriam também homens-bomba? Outro dia ouvi um repórter falando que estava acontecendo um “verdadeiro terremoto político” em Brasília. Tive que rir. Talvez a nossa natureza seja realmente outra já que estamos extinguindo aquele povo que era do verde, usava cocar e era real, e isso juntamente com os caras pálidas que os protegem. Farinhas do mesmo saco das coisas que permanecem no reino da impunidade. Ah, mas tudo bem, eu também me ufano do meu país! Afinal, como esquecer essa gente bonita brasileira, de pele bronzeada caminhando rumo ao mar? Também disse o Tom sem perder o tom. 
              Parafraseando meu poeta conterrâneo:  "minha terra ainda tem palmeiras, basta ouvir o sabiá". E se sabiá de lá não gorjeia como cá é porque virou raposa há tempos. E o pior: peste que não morre! Gente, até a Hebe que eu pensava ser eterna, morreu. Mas o raposa-mor não morre!  Com certeza já deu três voltas no capeta pra não cumprir o pacto.
               Mas nem por isso podemos esquecer a cidade maravilhosa com sua geografia encantadora. Patrimônio da humanidade. Dá para sublimar qualquer paranoia - com certeza. Basta não pegar ônibus, nem trem, nem metrô - e nem táxi. Ontem atrasada para o trabalho desci do ônibus e peguei um táxi  O “gente boa” do motorista com seu GPS-TV colocou num desses programas bem bizarros pra acompanhar as notícias do trânsito na Avenida Brasil. O sujeito-locutor, uma mistura pavorosa de todos os que o antecederam, gritava horrores! “Olha aí, gente!, tá lá!, o corpo do motoqueiro esmagado embaixo do caminhão! Mostra lá, câmera! E agora outra: cabeça encontrada em matagal!” Quase vomitei na poltrona, ô da poltrona...    
             É isso, ainda bem que brasileiro que é brasileiro sabe torcer com muito orgulho e com muito amor. Então se for de carro, a pé ou bicicleta, torça bastante pra que não chova, ainda mais se estiver na Praça da Bandeira, perto do Maracanã ou à altura do Caju.  Se for de trem e for mulher, torça pra ninguém passar a mão na sua bunda.  E torça, torça forte, pra que não role um feriado prolongado quando você estiver sem grana pra fugir pro Alasca e tiver que atravessar a ponte Rio-Niterói ou pegar a Imigrantes.  E torça, mas torça de pé junto e firme, pra que – nem com a vaca tossindo de pneumonia -  você precise contar com algum serviço prioritário, tipo esses dos hospitais, bombeiros, polícia, defesa civil, todo esse povo também deixado à míngua por esse Estado de coisas.
           Ah, mas tem sempre um cara feliz tomando um pileque homérico pra dizer: “vai, dá pra relaxar, meu amigo...” E se rolar uma graninha talvez até se consiga uma boa solução miliciana, marciana, de outro mundo ou submundo paralelo... Mas vale lembrar que o amigo é sempre da onça.
         O que seria então “o melhor e o pior do Brasil”? Lanço esta pergunta como desafio de resposta aos leitores dessa crônica. Será que daria para pegar um capitão gancho na Carta de Caminha? Por que perder tempo falando de índios, queimadas, destruição, desigualdade, se hoje estamos entre as dez maiores economias do mundo e se temos novos milionários na Forbes? Não sei não... De tanto a gente ficar em cima desse muro fino, ele já está maior que a muralha da China, mas prometendo ruir.
            Para não dizer que não falei das flores...  E a nossa juventude que não está somente na estatística do IML? E as crianças com tanta sede e fome de aprendizagens todas e de perspectivas de presente? Sim, sem dúvida continuam sendo o futuro discursivo do Brasil. Quem dera fosse o melhor na prática. Bem, o pior todo mundo sabe, é a educação que eles continuam  recebendo às avessas e a educação que eles continuam  não recebendo como direito legítimo, como fatia principal de dignidade pra se viver com cidadania, amor, arte, lazer... Nós já temos os royalties pra começar! É... Vamos cobrar? Afinal, a gente não quer só comida.
             Pressinto que ainda vou continuar por um bom tempo a ser perseguida pela frase do mestre Tom. Brigo na padaria porque o pão veio queimado, no ônibus porque o errado é o meu dinheiro suado. Brigo com a caixa do mercado que passa as mercadorias como uma máquina metralhadora  e ainda me olha de cara feia porque eu demoro a arrumar as bolsas. Brigo com o banco que cobrou tarifas indevidas. Brigo com o técnico que veio consertar minha máquina de lavar e me esfolou o bolso pra cobrar a rebimboca da parafuseta de todo aparelho mecânico, eletrônico, de pilha ou bateria... Brigo com o vizinho que colocou o carro da sogra na minha vaga de garagem pra fazer média com a jararaca. Brigo com o sujeito que por pouco não me atropela em cima da faixa de pedestre, estando o sinal fechado pra ele. Brigo com o atendente da minha operadora de telefone – e aí “xingo” e grito! Brigo até com o pobre do cachorro que mora no meu prédio, de apartamentos minúsculos e não para de latir no meu ouvido e  nem me dá o retorno... Brigo, brigo, brigo... Uma merda!
            Mas o Brasil tem tantos tons, tantos sons... Agora deu até vontade de assobiar um sambinha pra esquecer essa merda toda. Ah, cada música, cada tempo, cada dia segue com seu ritmo, a sua dissonância... E é bom à beça, vai...


Imagem© Araquém Alcântara

Patrícia Porto

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

“Quem tem poder, que faça bom uso.”

Imagem: Alice Liddell por Lewis Carroll.



            “Até um vira-lata é obedecido quando ocupa um cargo.” Frase célebre de Shakespeare em Rei Lear. Há uma outra não tão célebre, mas não menos polêmica:  “Gosto de crianças (exceto meninos)”, esta de outro escritor inglês muito reconhecido: Charles Lutwidge Dodgson ou simplesmente Lewis Carroll, autor do clássico “Alice no país das maravilhas”. Carroll já adulto não só tinha como melhores amigas “menininhas”, mas também as fotografava com permissão e apoio da própria mãe. Eram tempos vitorianos... Outro tempo, outra moral. Não tenho tanta certeza, mas talvez não tivéssemos hoje por Dodgson ou Caroll a mesma complacência, isso levando em conta a nossa atual visão de mundo. Sem respostas absolutas que não acabem sucumbindo ao fosso da temporalidade, o que importa me parece ilustrar aquilo que do passado vingou: que Caroll foi indiscutivelmente um grande escritor que tratou de nos deixar de legado  seus incômodos narrativos de imagens perturbadoras e visões pra lá de ambíguas que jogam com nossos próprios e indiscretos espelhos. O cenário de sua escrita? Uma terra e uma época profundamente marcadas pela opressão do puritanismo. Caberia então perguntar o que a repressão e a tirania podem fazer de mesquinho com os homens. Frear, coibir ou iluminar sua loucura? Coroar ou cortar suas cabeças?
           Num tempo não tão distante, muitas rainhas e rainhas-mães se revelaram tão insanas e perversas, tão tiranas e sanguinárias quanto os seus próprios reis-pais, acabando com a esperança de que mulheres no poder sempre nos salvariam de guerras atrozes, perseguições vingativas e derramamentos de sangue. Novamente Shakespeare nos aponta a montanha que há por trás do iceberg ou por trás de um desejo oculto e freado. Lady Macbeth, de Shakespeare, tem a força e a gula dos grandes tiranos. Em toda minha incursão literária nunca li tanta crueldade, tanto ímpeto feroz, marcado pelo orgulho do ódio e o delírio da ambição:
“Vinde, espíritos sinistros
Que servis aos desígnios assassinos!
Dessexuai-me, enchei-me, da cabeça
Aos pés, da mais horrível crueldade!”
            Dessexuai-me... Ninguém melhor que Shakespare para traduzir a vontade do poder, ninguém melhor que Freud para interpretá-lo. O desejo cruel de Lady Macbeth, a inveja de Iago, a persuasão de Cássio, a dominação de Petrucchio, o fantasma de um pai, a manipulação da mãe, Hamlet  e a tirania se contrastando com a palidez e a fragilidade de Ofélia, a ninfa no lago. Que morra, por certo.
           Poderíamos nas aulas de literatura falar de muitos “complexidades” do humano e também das nossas tantas fraquezas de caráter, das nossas absurdas pequenezas... Mas quem quer ouvir isso em sã e feliz alienação afortunada? Fiquemos por ora na superfície, na superfície porque não causaremos mal estar. Enfiar o espinho na ferida é para os loucos, os sem juízo, os vadios, os amorais. Não funciona, eu sei. Continuaremos sempre a desejar a morta do lago, a quietude do poço, como o "silêncio dos inocentes".
            Fiquemos na sustentável ignorância do ser e não nA insustentável leveza do ser, belo filme de Philip Kaufman. Como protagonistas, vemos os engajados Juliette Binoche e Daniel Day-Lewis, personificando o casal Tomas e Tereza numa Praga invadida pelos Russos, naquele tal ano de 1968, o ano que não terminou segundo Zuenir Ventura. Baseado na obra de Milan Kundera, o final do filme destroça nossas esperanças de ver aquele final bacaninha, com o casal apaixonado vivendo numa cabana da montanha. E destampa o vulcão para causar fraturas. Tão difícil assumir a ferida narcísica exposta do nosso lado sombrio...    Revelar o asqueroso, o feio,  o estranho, o desumano, o esquizoide – e o finito. Como nos discos vinis, muitos tentam tocar apenas o lado A, aquele com as melhores paradas de sucesso. O lado B, no obscuro permanece, reprimido numa cortina de fumaça como se seguisse a Lei de Murphy, na consequência inevitável  da opressão: caindo para baixo, no baixo, nas baixezas do grotesco, escondido embaixo do tapete da terra, como As Aventuras de Alice Embaixo da Terra, primeiro nome dado ao livro de Carroll.
            E pensando melhor, afinal, não importa tanto distinguir o lado A do B, porque no fundo ou raso, eles estão mesmo misturados, e se o homem não descobre sua dimensão humana e finita, ainda mais sofrimento deixará de herança aos outros do advir, porque deixará de apostar na dimensão misturada de sua natureza primária. Quando olho para a nossa História recente fico pessimista e isso não tem vínculo com a minha visão política de mundo, mas sim com a minha visão humana de mundo. “Para onde caminha a humanidade” depois do Tibete, da faixa de Gaza, depois do Iraque, das ogivas, das sanções, dos milhões que morrem de AIDS num continente imenso esquecido? Não sei. Fico com medo de me tornar um daqueles anões da Branca de Neve, o Zangado, e virar alvo da globalização da informação. Ranzinza, com idiossincrasias irrecuperáveis: toc, síndrome do pânico, TPM, manias de grandeza, rabugenta e boca porca. Se eu me pergunto para onde caminha a minha humanidade?  Pergunto. E não tenho resposta que não seja ficar com a   minha fiel perplexidade.
           No nosso reino da felicidade de araque e de gente tão cordial e conservadora,  se a ficha  da hipocrisia não cair, que tal ficarmos com aquele velho adágio: "Quem tem poder, que faça bom uso"? Esse pode servir...
        No “The End” talvez encontremos a frase de efeito para a contemporaneidade, como Boris Yellnikoff, personagem neurótico e pessimista do filme de Woody Allen. Sim, é possível, “Tudo Pode Dar Certo”.


Patricia Porto

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Prece para o dia em que te conheço e me perco em teus achados.





porque nunca sairei a mesma.
poesia,

que amanhã não se sofra tanto,
que o dia seja tão claro como escuro
e que se perceba dele os contraditórios,
os freios, os enigmas dos afogados.
A natividade explicita de uma tola esperança.
Que o golpe, enfim, sendo de sorte ou azar,
nunca antecipe desfechos. Deixe em aberto...
Aqui se constrói uma casa de versos, se desmorona
a notícia que outrora dizia no rádio. Mas já não há mais rádio.
E nem ouvidos para ouvir.
E que a água, limpa ou suja, seja o tanto faz: bem dizer, mal dizer, escárnio,
que o humano é um som em marcha que escuto do outro lado, o meu lado, o lado de mim
no outro quarto, na voz da sentença do meu exercício do feio.
Já que te ouço em mares de fluidez e me sinto um ser abjeto exijo perdão.
E que o tempo, sim, seja de farto e corte. E que não sobre. O tempo foi feito para o desgaste,
que se gaste o tempo então vivendo de tudo no esparramado, de todos, nos obscenos da alma caleidoscópica.

Proteja então as estrelas que nos protegem da escuridão
e que a cigarra cante, que a cigana dance,
e que o mensageiro se engane
e só leve da vida a solidão que não nos serve nos bolsos pra carregar como armadilhas,
como armas de grossos calibres da pretensa unção da verdade.

Que o velho seja realmente sábio
e o menino o velho mais sábio ainda.
E que caia do céu a chuva, a têmpora feliz dos renascimentos,
como as chuvas de tarde em minha terra de águas.
Terra aos montes pras meninas correrem, deitarem na lama
como nos bons dias da minha infância.
Ah, e que nunca nos falte o alimento do sonho, a larva da palavra,
o susto da arte: o riso, a risada, a vida solta, correndo, atravessando oceanos
a gargalhada. Sonora.

Amém


Patrícia Porto

Do charco.

Imagem© J. Guall
Meu amor disse:
“do charco nasce a flor”.
Charco, meu amor,
chagas do meu corpo doce,
flor violeta do meu sexo bruto,
como da brutalidade nasce o mel
e das violentas sedes da minha alma
nasce o escuro, em poças,
assim como do fim nasce o início,
como das bocas nascem e caem os dentes,
como da vida nasce a mente, a morte
e do tempo nasce o futuro que nos corta
ao meio
a nossa flor idade.

Patricia Porto

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

PEQUENO CONTO EM TRÊS ATOS ou poema transverso.


© Urszula Kozak

ATO I - OBSERVAÇÃO

Lançar cinzas no Everest é um antigo hábito hindu, que não prejudica em nada a coloração da neve que lhe cobre de branco.

ATO II – A FEBRE

Houve um dia em que a palavra se desprendeu dela como suor de uma noite ardente de febre. A temperatura represada numa altura digital. Sensação estranha e perversa de perda. Na pele as dores de um delírio escorriam no vidro embaçado de um edifício que mal conhecia. As letras em vermelho-neon se espatifavam na calçada, denunciando os atrasos que ela nunca cometeu, mas bem tentou. Sim, os vidros estavam todos atravessados em suas mãos e por não conseguir mais desangrar as digitais: guardou tudo no útero.

ATO III – A GENEROSIDADE

A manhã de sexta chegou trazendo o vazio na claridade. Sentia o vento das altas cordilheiras e achava que cada esquina era um Everest a impor inúmeros limites. Então o sol veio como um ponto desbotado. Subiu ao topo do prédio e de lá lançou todas as cordas de alpinismo. Imaginava o dia em que ergueria esse monumento chamado liberdade. Vôo... Atravessaria a baía em forma de ponte, emergindo de um encontro de águas para desfazer-se em pequenas ondas provocadas pelas barcas. Escoraria-se em estacas e nos rangidos da atracação dos terminais. Um barulho, proporcionado pelo metal e madeira num encontro determinaria a sua partida e a sua chegada.

Precisava ser livre – não para prender, mas para se libertar de seu instinto caçador. Mas sem seu instinto o que faria da vida? Seria uma fera totalmente racional?

Foi assim que ela lançou-se aos mergulhos abissais - sem cordas ou artifícios, pois já não tinha medo de nada: nem do tempo-deus, nem da metafísica, nem de seus próprios genes. Não queria mais viver de palavras emboloradas e de ambições tão alheias a si. Por isso, num gesto exagerado, lançou-se a descobrir o que há de silêncio em lançar cinzas do Everest.

Lançar cinzas no Everest, um antigo hábito hindu, que não prejudica em nada a coloração da neve que lhe cobre de branco.

Patricia Porto

sábado, 17 de novembro de 2012

A mulher na bolha.


Imagem© House of Art, "Nua na Rua", Alessandra Cestac.

A mulher na bolha

           Havia uma bolha criada especialmente para ela. Nesta bolha ela podia acordar, comer, beber, dormir, fazer os serviços da bolha: limpar a bolha, decorar a bolha, receber os amigos, navegar na internet...
              Ela era quase feliz em sua bolha se não fosse o fato de ter que deixar a bolha para se relacionar com outros que tinham em mente projetos muito audaciosos, planos que mal cabiam na sua esfera reduzida de ter uma bolha plástica somente pra si. O que não administrava bem devido às tantas demandas do mercado. Ah, nada como manter uma bolha bem preservada de insetos e de suas imprevistas morfoses! Os anos se passaram sem corte e navalha: a mulher acordando, bebendo, dormindo, recebendo os amigos, navegando na internet... 
               Mas como nenhuma bolha é perfeita, a mulher dessa curta história às vezes se sentia mal e mal se entendia consigo mesma e se entediava. Então resolveu expandir sua bolha para aliviar seus dias de tédio. Era obviamente uma proposta de bolha expandida . Assim, cansada de certa solidão, entrou num site de encontros às cegas e resolveu trazer para dentro de sua bolha um legítimo tratador de bolhas esvaziadas. Era fácil, pois existiam muitos tratadores que viviam em bolhas reluzentes de brilho penetrante. Escolheu e encolheu para que pudesse caber em dois na nova bolha compacta e conjugada. A mulher na bolha seria então quase completamente feliz se a bolha não tivesse apresentado um terrível defeito de reinvenção: o de permitir a entrada de toda espécie danosa de seres que deterioravam bolhas conjugadas.
           A mulher desesperou-se e pediu ajuda aos psico-trópicos e também passou a consumir diariamente uma espécie de bolhatóxico sem receita. O tratador de bolhas já de olhos novamente reluzentes e sangue nos dentes buscava outras bolhas esvaziadas. Antecipada ao desfecho, nada ilusório, a mulher da bolha saiu borrifando o novo vazio a fim de voltar de vez a sua velha rotina: acordar, beber, dormir, receber os amigos, navegar na internet...
            Houve um grande progresso, a mulher, novamente sozinha, limpava e decorava a bolha a seu gosto e desgosto e era agora quase inteiramente sozinha no seu quarto de ser feliz - se não fosse a vida querendo hora ou outra tentar estourar a bolha criada especialmente pra ela.

Patrícia Porto

Imagem© São Paulo Mon Amour, Alessandra Cestac. 
O quarto - uma performance solitária horas a fio.