segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Sobre os Amantes.

Imagem: Sally Mann

na fase aguda da palavra

agudos acordam
os acordes da voz
- e revelam vestígios esquecidos
de sonoros mundos -
e de dentro, da dor,
se ouve o desejo
que amplia todo duplo que há em si.

na trama, a roca fia a lira
e toca as perdas do advir
feito faca cortante
um tanto cega de corte,
que corta a vida em partes
sem definhar o amor.

dores doentias fitam-lhe
cara a cara, salto a queda,
pétalas caiem sobre
o corpo doce
da palavra po-ética.
agora pele, desnudada,
vive de espanto e existir:
a espantada.

e os dois agora, mergulhados,
vão ancorados um no corpo do outro:
poeta e palavra
- abrigam o dia da mesma criação...
e toda voz suspira: sou frágil...

de longe se pode ouvir
da palavra: viagem ou miragem,
o abandono de toda forma de estrutura.

transbordados sobre a cheia
que limpa e batiza a balada lírica
dos andantes sobre a terra,
dois andantes sobre a água,
cúmplices professam: sim, loucos!
Pois. Deságuas em mim.


Patrícia Porto

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Bicho Cabra.

Imagem: Pierre Verger
.


O bicho cabra tem nome.
É forte como quem tem no coração o sentido, o tino e o fazer doer,
faz chover suór, queimando de sal as lágrimas do chão.
É brasa, é brisa, é prumo perdido,
perdido o sereno no sumo do tempo,
batido no vasto ventre da barriga de todas as mães.
É cobra, veneno de terra correndo vento,
abrindo o bucho da vida a foice sem castigo.
O bicho cabra tem nome,
tem fama de maldição,
tem pressa, tem fumo e reza de parteira benzedeira,
tem morte a espreita de um corte que lhe apeteça,
corte que abra em rios os rachados da mão,
os calos da mão, os calados da mão.
Tem nome de demo, de dente afiado, de peste na brasa da escuridão,
na vasta lombriga de menino que é anjo antes de homem,
que é bruxo antes de santo,
que é visagem, bestagem, tudo mais.
Tem nome nos obscuros, na prosa escondida, na seca da língua,
sem fé, faminto destino tem nó na vingança,
tem estrada fechada de abismos,
tem troça de gente que ri da desdentada sanha de seu povo,
tem troço esquisito, tem um tambor que toca o silêncio,
no vasto e infinito da queda de um só: o peito batendo.
E batendo vai.  Espreguiça, envergonha, entristece
e se mete a fazer paisagem de sonho,
na rede, na trama, no barco, no berço da nossa cidade,
o cabra tem nome de gente e de guerra,
o cabra é o verbo f:aminto
Nascendo da pedra, duro de tanto nascer de novo.
E a terra é sempre o seu mesmo desterro,
seu tempo de cuia, seu fim e começo.