quinta-feira, 9 de junho de 2011

Meu Brasil entre tons e dissonâncias.

Darcy Ribeiro, 1948, Mato Grosso.


                            Tenho andado numa ressonância frasista esta semana. Acho de uma inteligência "chic" esse poder de síntese, eu não sei dizer nem o óbvio em cinco palavras. Que me perdoem os meus colegas, poetas contemporâneos com suas tesouras antenadas, eu me esparramo pelo chão. Por isso estou sempre ou com uma trilha sonora na cabeça, minha paixão explicita pela música; ou com frases de outros a rondar meu pequeno mundo. E aí tem dias em que acordo tendo como lema a conhecida frase do Tom Jobim, o nosso tom: "Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom”. 
                            Acredito que cada um de nós à sua própria medida ou desmedida passe duas ou três vezes por semana por esse sentimento que diz e clama lá do fundinho mesmo: “o que eu estou fazendo aqui, neste lugar?!” Que país é este, afinal? Rico e miserável em contradições. Acho que Belíndia já caducou.
                         Estatísticas não mentem, são como cartas de tarô.  Descartes não tinha ideia da persona que criou. E olha a rima! Olha a rima que dá!  É claro que avançamos muito, companheiros, e os números estão aí, de fato, comprovando que a pobreza vem diminuindo, basta olhar os números do ilustre economista Marcelo Neri e dos Institutos que são realmente sérios. Não estou sendo irônica. É fato! Estamos saindo da imensa pobreza e é pra valer. Que nos confirme o Fuleco!
                      Agora, da miséria ou do nosso velho miserê devo confessar que tenho cá minhas dúvidas - e dívidas à balde pra desmentir. E o que sei (nada sei, perdoem) é que desse imbróglio todo, uma pergunta teimosa resiste e não quer, mas por nadinha, calar: "se avançamos tanto por que os tantos retrocessos e a tanta desigualdade?" E o desconcertante retrocesso ético? Como fica nessa lista? Como lidar com esse “pepino” interno? Ah, no meu não, camarada!
                  É paradoxal mesmo. Lembra um pouco aquele jogo de corrida de casas que a tua tia te dava de presente de natal, quando não era meia: vai, meu filho, avance! Ah, agora retroceda não, volte duas, três casas. Quer saber? Volte ao início e comece tudo de novo que é melhor negócio... ou deixe-o, saia do jogo!
                  Não sei vocês, mas eu já pensei algumas boas vezes em arrumar minhas malinhas e ir pra um lugar distante, pra um desses países gelados que prometem oportunidades e são campeões em qualidade de vida. Depois pensei na frase do Tom e na minha bronquite, e desisti. Penso dois segundos por mil vezes. E fico no assobio do samba do avião, resignada... Tá legal, eu aceito o argumento.
                O que eu iria fazer com a minha língua que é pra mim saída e entrave. E o Brasil é bom, vai...  Olha as nossas praias, o futebol... Não temos guerras, homens-bomba, vulcões, tsunamis... E aí vai ficando quase impossível não esparramar pra tal piadinha batida da criação do mundo. E o todo poder dizendo: “Você vai ver quem eu vou colocar lá.” A lista da ficha suja é realmente longa e histórica, vários congressos, organizações, departamentos cabem dentro dela.
                 Sobre não ter guerras ainda duvido.  A nossa usual estatística de homicídios entre jovens que morrem antes dos vinte e tal – sempre teima em pregar peças. Mas segundo os novos índices, diminui pela metade de 2000 para 2010. Sei não... Devem estar torturando uns números. "Cala boca aí seu cálculo de merda!" E tome tapa na cara de mão aberta.
                E quem é Collor? Maluf? Zé Dirceu? Não seriam também homens-bomba? Outro dia ouvi um repórter falar que estava acontecendo um “verdadeiro terremoto político” em Brasília. Talvez a nossa natureza seja realmente outra já que estamos extinguindo aquele povo que era do verde, usava cocar e era real, e isso juntamente com os caras pálidas que a protegem, farinhas do mesmo saco das coisas que permanecem no reino da impunidade. Ah, mas tudo bem, eu também me ufano do meu país! Afinal, como esquecer gente bonita brasileira, de pele bronzeada caminhando rumo ao mar? Também disse o Tom sem perder o tom.
              Parafraseando meu poeta conterrâneo:  "minha terra ainda tem palmeiras, basta ouvir o sabiá". E se sabiá de lá não gorjeia como cá é porque virou raposa.  Mas nem por isso podemos esquecer a cidade maravilhosa com sua geografia encantadora. Dá para sublimar qualquer paranoia - com certeza. Basta não pegar ônibus, nem trem, nem metrô, nem táxi. OCa  
             E se for de carro, a pé ou bicicleta basta torcer bastante pra que não chova, ainda mais se estiver na Praça da Bandeira, perto do Maracanã. Basta torcer pra que não role um feriado prolongado quando você estiver sem grana pra fugir e torcer de pé junto pra que – nem com a vaca tossindo - se precise contar com algum serviço prioritário, tipo esses dos hospitais, dos bombeiros ou da polícia, todo esse povo deixado à míngua por esse Estado de coisas. Ah, vai, dá para sublimar sim e se rolar uma grana talvez se consiga até uma boa solução miliciana que resolva qualquer caso.

O que seria então “o melhor e o pior do Brasil”? Lanço esta pergunta como desafio de resposta aos leitores dessa crônica. Será que daria para pegar um gancho na Carta de Caminha? Falar de índios, queimadas, destruição se hoje somos a sétima economia do mundo e temos o oitavo milionário da Forbes? Não sei não, de tanto a gente ficar em cima do muro, ele já está maior que a muralha da China. E pra não dizer que eu não falei das flores... E a juventude, as crianças com tanta sede, fome de aprendizagens, de perspectivas de futuro? Sem dúvida, o melhor do Brasil. O pior é certamente a educação que eles continuam não recebendo como um direito legítimo, como fatia principal de dignidade pra se viver em cidadania.

Pressinto que ainda vou continuar por um bom tempo a ser perseguida pela frase do Tom. Brigo na padaria porque o pão veio queimado e o troco errado. Brigo com a caixa do mercado que me cobra a mais na conta e ainda me olha de cara feia. Brigo com o banco que cobrou tarifas indevidas. Brigo com o técnico que veio consertar minha máquina de lavar e me esfolou o bolso pra pagar a rebimboca da parafuseta. Brigo com o vizinho que colocou o carro da sogra na minha vaga de garagem. Brigo com o sujeito que por pouco não me atropela em cima da faixa de pedestre, estando o sinal fechado pra ele. Brigo com o atendente da minha operadora de telefone – e “xingo” e grito! Brigo com o cachorro que não pára de latir no meu ouvido e nem é meu. Brigo, brigo, brigo... Uma merda!

O Brasil tem tantos tons, camaradas... Agora deu até vontade de assobiar uma marchinha. Pena que seja a fúnebre a apropriada. Mas vai... Cada música, cada tempo, cada dia segue com a sua dissonância... É bom.



Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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