terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Lilith e os Pássaros.

Imagem: .Edna Romero (b. 1988, Mexico), "Libellule".
"Asssim dizia Lilith:
Por que devo deitar-me embaixo de ti?
Por que devo abrir-me sob teu corpo?
Por que ser dominada por ti?
Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual.”


                  Gosto das frases feitas e dos clichês do uso coloquial da linguagem. São pensamentos comuns que tem como critério de autonomia a espontaneidade e o anonimato. Vão sendo costurados ao longo de camadas e camadas de gerações até aparecerem assim – dos vários nadas – dentro da nossa voz. A nossa voz que carrega tantas marcas coletivas geradas ao longo das permanências e das mudanças da língua. Pois uma língua viva é feita de mudanças e resistências. Não há palavra feita de voz que já não tenha sido dita um dia. Por isso admiro os adágios e os lugares comuns da linguagem, porque colocam à prova a nossa pretensão de exclusividade de pensamento. Por vezes formulamos ideias e formas de dizer algo, um algo que nos incomoda, fere, prejudica e não conseguimos comunicar, somos prolixos e inexatos. Daí os  verbetes, as expressões feitas, aquelas velhas frases populares que aparecem e transpassam da nossa voz a tal carga de intenções, imagens e  estereótipos... E essas expressões podem até mesmo romper a barreira do que consideramos mais sofisticado,  sintetizando toda uma formulação de pensamentos sem freios.
                Costumo sair às ruas sempre com os ouvidos atentos para não perder o volume de frases soltas, libertas como os frouxos da linguagem. E as coleciono quando posso. Registro não como fóssil da língua, mas como uma das narrativas da língua. E foi assim, numa garimpagem de passado e presente comum, que outro dia registrei várias frases surgidas numa conversa informal entre duas mulheres que se queixavam da vida: “pois é, porque a pessoa só dá valor quando perde...” ; “em terra de sapo de cócoras com ele”; “dizem que a panela velha é que faz comida boa”; “mas gado gosta é de pasto novo”; “o galo devia jantar onde canta”; “o galo enche o peito, mas é a galinha que põe os ovos...”; “uma pessoa sem sonhos é como um pássaro de asas quebradas...”, “ele bem quer voar, mas não tem asas...”, “em pequena hora Deus melhora.”
             Ouvindo as frases daquelas mulheres lembrei-me de um poema que li ainda no meu tempo de menina a aprender das pedras. Era um belo poema de Cora Coralina sobre as faces da vida.

(...)
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo.
Aprendi a viver.

             A poesia de Cora Coralina viveu em tempos rudes. Não me lembro de ser uma mulher comum sem o rude exercício de aprender as lições da vida - ali! - cotidianamente - como uma casca feita e posta. E assim como disse uma daquelas mulheres da conversa testemunhada, também tive meus dias de horas pequenas. Dias efêmeros dentro de outros longos e limitadores dias de pouca estima. Aprendi a viver? Inevitável aprender a viver e fazer da vida algo transformador quando se tem a pedra como lição e companhia. Com o passar dos anos e da convivência aprende-se muito sobre as pedras. Aprende-se sobre o afeto que nos foi negado, sobre as falhas do trajeto, sobre as desigualdades dos caminhos mais do que das origens. Aprende-se sobre a condição de ser, a situação de ser, de ser quando se está realmente sendo. E ser mulher, a mulher do dia, a mulher, diria Cora Coralina: “a minha irmãzinha”, requer a sabedoria das pedras. Preparar a vida do amanhã, aninhar no braço sonhos destruídos, abraçar causas desperdiçadas, amar os retalhos, sem aviso prévio ou solidão que seja bonita, requer um desdobramento do corpo e da alma.
                Eu também sei o que é sentir-se como um ser de asas de sonho adiado. E não daquele tipo que é feliz porque ruim com a gaiola, pior sem ela... Mas daquele tipo que não chia nem canta. Isso talvez seja das violências a que mais nos atinja, a violência silenciosa das grades suspensas com ajuda de nossas próprias mãos, a do desperdício do raro, a do silêncio instalado entre o jantar e as coisas sujas que se amontoam na pia. Ali no universo dos pequenos detalhes e das sutis delicadezas a alma de desdobrada pode tornar-se um vulto, uma sombra mera do que se é. Desvalorizada, desqualificada na sua existência, a mulher pode ser tragada nesta armadilha do cotidiano. Pode ser confundida com uma das mobílias da casa, deixada ao escanteio do que um dia pensou ser belo. Presa na torre que a confunde entre a espera e o desejo de mudança, a mulher que entende das pedras, precisa ter a audácia de roubar a chave do seu fiel carcereiro para enfrentar o dilúvio de sua liberdade. Porque tanta liberdade pode matar. Devagar e sempre.
              Livre como as palavras comuns, a mulher liberta de ser um novo modelo, uma grande expectativa ou o plano perfeito criado pelas mentes de seus carcereiros, corre o risco de se tornar a flor sedenta de sol, a flor teimosa que nasce vertiginosamente entre as pedras, até porque belíssimas flores também nascem de solos difíceis. Zelar pelos novos fios que nascem da vida, tecer mitologicamente a sua própria natureza recém-descoberta, fará dessa mulher a vasta existência entre tudo o que lhe foi negado de história e tudo que virá a ser o futuro do si mesma. A mulher que nasce dela mesma, entre a peleja e a beleza de sua esperança clichê, corre um risco imenso de despertar numa plena incompletude feliz.

Patricia Porto