sexta-feira, 18 de junho de 2010

A Passagem (Lêdo Ivo)

Que me deixem passar - eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar,exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por seu eu diferente ou indesejado
mesmo assim eu passarei.
Inventarei a porta e o caminho
e passarei sozinho.
...................................................................................

Saramago - Uma Paixão.


Imagem de Sebastião Salgado.


Lembro de escrever um poema depois de ler com voracidade, paixão e entusiasmo “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” de José Saramago. Eu já era uma apaixonada por Camões, Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Meus poetas preferidos. E quando li a prosa de Saramago foi como encontrar-me a mim mesma desnuda em palavras, desnuda de resquícios da minha alienação diante do mundo. Saramago me fez acreditar que era possível fazer uma literatura crítica e não menos apaixonada pela palavra. Inspirei-me na biografia dele, eu  estudava numa escola técnica quando o li pela primeira vez e ambos fomos netos de Josefas, pobres e sábias. Sinto-me então mais esperançosa ao escolher esse caminho “árido” e “doce” da arte literária e por ter mantido a ilusão de sua companhia. Hoje, emocionada ao saber de sua morte, resolvi postar uma lembrança encarnada. Dedico meu pesar e minha paixão ao grande mestre de todos aqueles que, com muita consciência, lutam, sonhando e escrevendo em língua portuguesa.



A Inacabada Sinfonia.

Deus escreve certo pelas linhas tortas
e torto pelas linhas certas
e o tolo pela linha mestra
e o turvo pela linha cega.
E escreve errado pelas linhas certas,
desenha imagens nas linhas desertas
e deixa aberta a porta indigesta
de suas linhas mortas.

Deus escreve certo com margens tortas
e cruza pelas linhas doidas
e endoida pelas linhas curtas
e entulha pelas linhas as coisas
e come pelas linhas as frutas.
E escreve com luvas suas linhas doidas
e emenda as forcas com as formas afoitas
de suas margens mortas.

Deus escreve certo com as letras tortas
e entorta pelas linhas fracas
e engorda pelas linhas magras
e enrola pelas linhas claras.
E risca tudo pelas linhas fartas,
escreve, escreve as linhas amargas,
apaga, apaga as linhas deixadas
por suas letras mortas.


Patrícia Porto




José Saramago por Sebastião Salgado.

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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