quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Entre surdos e tiranos.

"A tirania é um hábito com a propriedade de se desenvolver e dilatar a ponto de tornar-se doença." (Fiódor Dostoiévski) 

Imagem: Charles Chaplin em O Grande Ditador (1940)



Não me querem viva,
mas viva eu prossigo,
eu pro cedo,
arte.

Não me querem livre,
mas minha mente rompe,
não responde fatos.

Não me querem o farto
enquanto vislumbro o vasto
e os profundos.

Não me querem o largo
e eu lhes dou 
da largueza 
de meus mamilos costurados:
                  a dor.

Não me querem a feia,
mas eu já estou posta
sobre a vossa mesa.

Não me querem a santa,
em outras passagens.

Não me querem acesa
e eu sou o próprio fogo
de demência humana.
Vamos aplaudir –  aplaudir -
                                      o res-pei-tá-vel público!

Venham e acompanhem o cortejo do corpo
que se foi deixando de sua pobre alma
de sovina terra, a dos confusos.
Salvem a Santa! Vamos ajoelhar e rezar
para que os votos lhe sejam de fé.
Vamos catalogar nossos diplomas,
nossos méritos, nossas medalhas,
nossas conquistas, nossos dinheiros,
nossas enfermidades tão genéticas.
E vamos colocar aos pés do altar.
Vamos assoprar as velhinhas
e desejar que o tempo pare, parado
para o nosso desfile célebre
de corpos fúteis e sarados em caixões modernos
de última geração, a nossa geração.

Oh, grande tolice negar a sua morte e a minha vida,
a nossa falência múltipla,
o nosso estupor,
o dano e a finitude abdominal
da nossa degeneração.

Pois bem, não me querem viva,
mas viva eu prossigo,
Eu prometo,
Eu enterro anjos
e choro loucuras.
Atravesso o peito como uma navalha
e deixo escancarada
a porta oculta que me bateram na face.

Patricia Porto