sábado, 15 de maio de 2010

Atravessando a rua em silêncio.


Imagem: Henri Cartier-Bresson


(Para a minha amiga Ana que passou por aqui como um passarinho.)

         Tem uma frase do Bartolomeu Campos de Queirós que, embora curta, é precisa, poética  e carrega múltiplos significados, estes que delicadamente afligem as paredes sólidas daquele lugar que chamamos semântica ou de busca de sentidos para as palavras da nossa (língua)gem. Costumo usar a frase de Bartolomeu como a pílula do doutor Caramujo quando, não por acaso, sinto que devo sair da impotência, da letargia,  lugar tão conhecido por nós, seres humanos modernos, que vivem como um dilema a nossa conturbada e frenética contemporaneidade - ou seria com-tempo-em-ansiedade?
         Disse Bartolomeu que tudo passa, que "até passarinho passa". Lembro então que quando descobri que estava doente já há muitos anos passados, Ana, uma grande amiga, escreveu esta frase num bilhetinho e me deu de presente com um livro também de Bartolomeu, já que éramos as duas suas fãs incondicionais. O livro “Para criar passarinho” passou a fazer parte de minha mesa de cabeceira e foi assim durante um longo percurso de avanços, retrocessos e reincidências.  O livro de Bartolomeu foi tão medicamento quanto os outros e tão eficiente quanto os outros. E gosto cada vez mais de pousar os olhos sobre um trecho que fala assim:

         Para bem criar passarinho é necessário ter corpo capaz de escutar o silêncio das pedras, o som do vento nas folhas, o ruído de soluços preso em garganta. Isso se alcança afinando bem os sentidos, para perceber sopros de flauta, cordas de harpa e murmúrios das perguntas e lembranças.

          Parece que uma boa definição para a morte foi encontrada por Manuel Bandeira: sim, “o maior de todos os milagres”, o último dos milagres, ele que viveu sempre entre fantasmas. E os que já passaram pela tangência da morte, talvez tenham realmente aprendido o incrível e enigmático valor da vida. Porque somente a presença contumaz, a presença física da morte nos faz criar deslocamentos antes inimagináveis. A ameaça da última parca a nos cortar o tecido faz aguçar nossos mais íntimos sentidos. Os sons da música dos passarinhos e a busca da diferenciação entre seus cantos é uma nova aprendizagem sobre sons e notas. Os odores do mundo aparecem - e agora não mais atenuados por nossa displicência olfativa, as texturas das palavras nos chegam com o eco de vozes, o pôr do sol de tantos tons abrandam o que é noite, as crianças fazendo algazarra no faz sorrir assim como a gargalhada sonora de uma menina que atravessa o espelho... E nos perguntamos atônitos: por que esperar a ameaça do fim para aprender a experimentar todos esses pequenos delírios - quase "delitos" da vida?
          Dizem que quase todas as pessoas quando são diagnosticadas com doenças de difícil tratamento tendem naturalmente a negar aquela primeira condição e se perguntam: “por que comigo?” “por que agora?" São invadidas de sentimentos paradoxais, por um lado,  superioridade e onipotência; por outro, fragilidade e frustração. E depois, dizem que nos passos seguintes, há revolta e por fim, chega o dia da conformação. Ainda assim nenhuma dessas etapas poderá ser medida como mais ou menos dolorosa. E todas – acreditem – nos fazem ver o mundo. Simplesmente isso: ver o mundo. E ver o mundo tem muito do ver a vida de mais perto, ver dos seres o imperceptível ao olho nu. Porque estamos diante de outra nudez, a maior de todas: a nudez da nossa própria alma.
        E qualquer que seja a via crúcis, ela nos ensina ainda mais sobre paciência, tolerância e humildade. Ser simples. Afinal assim chegamos ao mundo e assim partiremos dele. Não levaremos nada em nossos bolsos. Não carregaremos para nossos túmulos: riquezas, jóias, patrimônios, títulos, plateias... Estaremos sozinhos - de novo... Seremos simples. Perceberemos talvez e então que nada pode ser mais estúpido e violento que a intolerância, o desprezo e a prepotência. É diante do sofrimento que nosso corpo carnal torna-se então capaz de escutar o silêncio das pedras. Ele, suas marcas e cicatrizes serão o símbolo maior da nossa profunda humanização. E é ele que nos une ao que transcende. A alma é um todo que só percebemos diante de uma das mais úteis conscientizações terrenas: somos finitos. Perfeitamente únicos e finitos.
       E a cura é também um milagre, mas não porque nos deixa “prontos pra outra”, mas porque nada será como antes depois dela. E ela se repetirá mais de trezentas vezes ao ano, mostrando-nos o quanto somos mortais. Ela nos ensinará a olhar o outro - de dentro de nós - com mais compaixão, nos libertando de raivas e ressentimentos que porventura venham nos assolar. E ela nos ensinará a perdoar aqueles que nos trazem mágoas indevidas, aqueles que tentam diminuir o nosso valor, desprezando nossa humanidade e nosso potencial maior: a própria vida.
        Um rio sem água não é um rio, um corpo sem alma não é humano. O fundo do rio não é o rio – é o fundo e até no fundo há movimento, há a vida do rio, a identidade do rio, o nome do rio, o nome do rio está na água que corre – está na correnteza. A vida do rio é o profundo, do fundo para superfície e da superfície para o fundo, recriando-se para o deleite das margens.
        Por isso eu sigo acreditando num mundo de justiça, amor e bondade onde o ser humano seja a resposta, enfim, para “o onde vamos chegar”. Não estaremos sozinhos na hora que preciso for atravessar a rua em silêncio.

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

Google+ Followers

Com-partilhados...

Pesquisar neste blog