quinta-feira, 22 de abril de 2010

Quando a felicidade é gratuita.



Imagem: Haruo Ohara


          Ontem um amigo me enviou uma mensagem dizendo: “adoro seus textos, mas não acho legal enviá-los como spam”. Fiquei confusa e pedi ajuda ao meu filho de onze anos: “o que é um e-mail spam?” Essas crianças! Como diz a minha mãe: “já nascem agora de olho aberto, corpo durinho e começam a falar em seis meses.” Outro dia na porta da escola do meu filho, os pais se admiravam com a precocidade dos rebentos: “o meu começou a falar com oito meses”, “ah, o meu com dez”... “E ler e escrever com dois.” “Com três...”, “com quatro...” Era um festival abominável de crianças prodígios, de gênios, de super dotados... Todos faziam esportes como atletas: “corre cinco quilômetros em tantos minutos”... “Nada como um peixe...” “Faz esgrima...” Esgrima?! Nessa hora, confesso que fiquei novamente confusa: Como assim esgrima? Esgrima não é um objeto cortante para ser manipulado por uma criança de dez, onze anos? A mãe me olhou como se eu fosse um ET acabando de estender o dedinho. “A esgrima é um esporte completamente seguro!” Pedi desculpa pela minha ignorância. Então uma delas, com um olhar de vilã de conto de fadas, me perguntou: “E o seu, o que ele faz?” E quase que por instinto, todas se aproximaram me acuando junto às grades do portão. “É! O seu! O que ele faz?”
            Então veio um redemoinho de imagens na minha cabeça. Tentei rapidamente ver nos meus arquivos cerebrais, falhos por sinal, que resposta dar àquela pergunta. Pensei comigo: meu filho adora inventar histórias. Talvez por ser filho de uma contadora de histórias que também adora inventar estórias. Nós fazemos competição de monstros: monstro da lixeira, do elevador, do ônibus lotado, da piscina... Ele começou a falar com quase um ano, mas ele sorria, gargalhava todos os dias. Começou a ler aos sete, e antes de mim, pois eu só comecei a ler - com dificuldade - aos oito. Ele adora futebol, o Botafogo e conhece como ninguém a história dos times, dos jogadores, dos campeonatos; mas a bola, essa já não gosta muito dele, “um caso de amor não correspondido” como foi para Nelson Rodrigues e o nosso querido Armando Nogueira. Ele é um menino meio gordinho, meio baixinho, tem olhos escuros e cabelo entre o liso e o cacheado. E eu sou realmente suspeita pra dizer o quanto ele é “inteiro” e bonito. Ah, mas eu lembro que aos quatro anos, ele me perguntou: “Como é que eu faço pra ficar da cor do João? Se eu dormir todo dia do lado de fora da casa, a noite me escurece?” E lembro que aos sete ele sozinho arrumou os brinquedos e disse pra avó: “esses aqui eu vou doar.” E minha mãe não concordou: “mas são brinquedos novos!”. E ele perguntou: “mas então os meninos só podem ganhar os meus brinquedos velhos?” E ainda na mesma ocasião, ele disse: “vou ficar apenas com esses aqui que eu gosto mais.” A avó de novo o repreendeu: “mas esses estão quebrados, sem pernas, sem braços... Joga fora.” E ele completou: “vó, se o seu filho não tivesse uma perna ou um braço você jogava ele fora?” Bem, esse é o Pedro que conheço e que também já revelou a todos que quer ser "feliz" quando crescer.
            O sinal bateu. As crianças saíram agitadas e eu fui salva pelo gongo. Afinal nunca há uma só resposta para uma pergunta assim como existiam e existem muitas outras perguntas dentro da minha resposta.
          E voltando ao meu amigo do spam e a minha pergunta inicial, o Pedro me respondeu: “mãe, spam é um e-mail chato que a gente não gosta de receber e ainda dá trabalho para deletar.” Espontâneo e autêntico como espontâneas e autênticas quase sempre são as respostas das crianças. Ah, esses adultos...



Patrícia Porto