quinta-feira, 25 de março de 2010

O Direito de Sonhar ou Um Memorial Arquivado.

Precisava com urgência agradecer a mensagem de um amigo, que diante da minha tristeza declarada após receber um desses "nãos" da vida, na sua boa dose de gentileza e bondade humana, me escreveu palavras  belas e necessárias. Dizia ele: “...não fique assim, você é bem maior que isso”. Eu que naquele momento me sentia tão pequena na minha tarefa de ser grande.

Pensei então em lhe responder dizendo que nunca fui pessoa de sonhar muito e que sempre economizei bastante nesse exercício, tentando muitas vezes encontrar um equilíbrio inútil entre o desatino de ser uma pessoa ludicamente amorosa e o dever de ser uma pessoa realizadora, que concretiza expectativas na concretude da sua existência. Emoção e razão sem lugar pra dicotomia.
Fico também constrangida ao escrever texto tão umbilical e de tantas auto-referências como este. Fruto de um excesso de discrição e de uma minha polidez sem sentido fico sempre sem saber onde colocar as mãos quando é minha a cumbuca. Mas fui pega assim... Como poderia descrever? Na esquina, no meio da encruzilhada - entre o limite do sofrer calada e a vontade de doer no explícito com a fratura exposta. Devo dizer que também sempre fui mais de sofrer calada, essa atitude ensinada de menina, atitude de mulher que guarda o fruto ensinado de menina pobre, essa herança de mulher de classe média que foi uma menina pobre que sonhava ser uma mulher de classe média com suas próprias mãos. Por isso a estreiteza do sonho e a largueza do caminho. Lembro que os meus sonhos de menina pequena eram: uma boneca grande, uns livros e “ser doutora” porque “doutor todo mundo respeita”. Dizia tio Inácio na sua sabedoria de velho. E que eu acreditava na minha sabedoria de menina.

Na época não existiam barbies e nem o consumo desenfreado que aposta fichas e empenhos numa infância que hoje, na contemporaneidade, é lucrativo nicho de mercado, esse mesmo mercado das distorções sociais. Nessa época a exclusão também era mais visível, todos nós éramos excluídos de algum lugar, e a discriminação era mais aberta. De porta escancarada chegava sem a hipocrisia do bom-mocismo e sem a maquiagem de intervenções padronizadas. A pessoa era discriminada e pronto, ponto. Mulher, pobre, negro, nordestino, analfabeto... Meu tio Inácio dizia que, no Brasil, o duro mesmo era ser sorteado nos cinco: mulher, pobre, negra, nordestina e analfabeta. Sabedoria de velho sorteado nuns três. Tio Inácio vivia dormindo e quando acordava contava um bando de sonhos, sonhos de poeta e criança, sonhos alados com pés soltinhos do chão.

Eu que desisti de ser bailarina antes de aprender a afrouxar os pés, dos meus sonhos de menina, lembro que a boneca grande eu ganhei de uma vizinha comerciante que distribuía brinquedos para a criançada todo dia de São Cosme e Damião. Era um bebê horrendo de plástico que perdia a cor em duas semanas e os braços em três. Foi preciso ficar o dia inteiro numa fila, esmagada entre muitas outras crianças, para no fim realizar a minha primeira aventura em busca de “um sonho perdido”. E quando o tal boneco começou a desbotar fui capaz então de fazer minha primeira reflexão sociológica sobre gente que se relaciona com gente: “aquela senhora dava os brinquedos por conta da promessa e não porque ela gostava de criança.” Passei a fazer cara feia pra dona do armarinho lá com todas suas pequenezas e todos me recriminaram com todas as suas miudezas. “Menina mal agradecida!”

Dos sonhos, os livros vieram numa caixa de papelão. Não me lembro de qualquer programa de leitura nas escolas públicas por onde passei. E eu que gostava de livros relia por vezes os mesmos livros de estórias que habitavam nossa tão modesta moradia. Minha mãe havia comprado um “conjunto” com cinco livros infantis de um vendedor que feito caixeiro viajante passava de porta em porta trazendo “leitura” e “sonho”. Um vendedor de sonhos eu imaginava. Eu no meu fascínio por letras e imagens. Ele querendo ganhar uns trocados, falando da vida difícil de desemprego, precisando sustentar mulher e filho. Minha mãe comprou mais “pra ajudar o moço” que pelo desejo de estimular os filhos à leitura. Valeu pra todos.

Dos sonhos, “ser doutora” foi o que não chegou como brinde ou presente. Foram anos de um esforço sobre-humano, até porque não foi sempre humano o meu processo educacional. Em alguns momentos ele beirou até à desumanidade: “escola sucateada” foi para mim lugar comum bem antes de eu poder ler isso em livros de pesquisadores preocupados e assustados com aquela e essa realidade. Quando chovia na escola “dos meus oito anos”, um pântano se formava e isso não é força de expressão nem figura de linguagem. Corríamos com a professora e as carteiras para o meio da sala, porque chovia dentro o que chovia fora.

Está certo dizer que o pesquisador não precisa ter sido pobre para pesquisar a pobreza e que não precisa ter estudado em escola pública para pensar e falar a respeito do ensino público. No entanto, ter vivido à flor de pele essa dimensão de realidade pode revelar ao pesquisador da pobreza e do ensino público no Brasil uma dimensão única e ampliada do problema. Um sentido a mais. Um sexto sentido feito de sensibilidade e intuição. A sensibilidade que não diminui em nada o rigor e o valor da pesquisa. E que ao contrário disso, pode aprimorá-la. Mas poucos me parecem os que conseguem ver para além da própria cegueira branca institucionalizada. Acho que precisamos de mais sábios assim como o cego Tirésias ou como meu tio Inácio, personagens dessa História que ousamos viver e inventar ou re-invetar vivendo.

E algumas experiências da minha infância marcaram definitivamente a minha trajetória de vida e pesquisa. E uma dessas bem significativas foi a de ser diagnosticada como disléxica aos dez anos idade. Lembro da professora da escola de freiras  dizendo a minha avó entre pena e constrangimento: “_ O que acontece, dona Josefa, é que a sua neta tem apresentado muitos problemas na leitura e na escrita. E depois das avaliações que nós fizemos o que se pode afirmar é que ela tem dislexia.” Minha avó tampouco se abateu: “_ Irmã, isso mata?” “Não, não matava.” Foi o que a freira respondeu. E lembro bem de sair daquela sala da diretora com um novo campo de palavras na cabeça: “dislexia, diagnóstico, avaliação, leitura, escrita...” Na volta para casa, minha avó passou na quitanda: “ _Nhô, tem caderno aí? Pega uns cinco.” Fiquei assustada: “_ Vó, pra que tanto caderno? E ela respondeu “passando a mão na minha cabeça”: “_ Um pra fazer de diário, outro pra escrever carta, outro pra escrever minhas receitas, outro pra fazer cópia de livro...” “E o quinto vó?” “Ah, no quinto você escreve uns versinhos.”

De versinho em versinho fui me tornando escritora e leitora da minha própria realidade. Por isso mesmo ser “doutora” não foi conquistar um título a mais para o previsível e o esperado. Foi conquistar vários direitos usurpados desde cedo. Ler, escrever, entrar na universidade... Ser “doutora” não estava no mesmo plano do ganhar o bebê horrendo do colonizador e nem do pleitear um título tão comum à classe dominante. Era e é bem maior que isso.

Para me tornar uma professora doutora precisei fazer da minha própria vida objeto de pesquisa e transformação. Por isso, ainda que com certa melancolia, devo dizer ao meu amigo querido, que não vou desistir do meu sonho. Até porque esse eu venho desenhando há tempos. O adiamento da sua realização, é claro, me entristece um pouco, mas não desmonta ou varre a minha esperança nem gasta a minha utopia.

Bem, caro amigo, depois de enfrentar tantas durezas, penso que darei um vôo lá fora a fim de perseguir algumas estrelas. E desde já prometo voltar mais forte.


Patrícia Porto

Sonhos

Dersu Uzala é um filme feito por Akira Kurosawa em 1975 e conta a estória de um cartógrafo do exército russo czarista que durante uma expedição pela Sibéria recebe a ajuda de um guia, conhecedor da geografia e da topografia local, que o ajuda não somente nas suas buscas exteriores, mas o ajuda também a rever os valores da sociedade em que vivem numa busca que parte do  exterior para o interior e retorna ao exterior. Dessa relação cotidiana de pesquisa e descobertas nasce uma grande amizade entre eles, o explorador e o guia.
Esse é um resumo do filme que conta muito mais que essas poucas palavras ditas aqui, pois há também para além da beleza do filme, a história antes do filme e a história de Akira Kwrosawa, um dos maiores cineastas de todos os tempos. O meu cineasta favorito já que trabalho com imagens e as metáforas do existir. A história que há por trás do sucesso conta que por não conseguir apoio financeiro no Japão para produzir esse mesmo filme, Kurosawa passou por uma depressão profunda e tentou o suicídio em 1971, quando chegou a cortar os pulsos. Seu retorno triunfal ao cinema e à vida se dá com a concretização da filmagem de Derzu Uzala (A águia das estepes), filmado na Rússia e que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro também em 1975.