sexta-feira, 19 de março de 2010

"Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta (...)"

João Cabral de Melo Neto,
Morte e Vida Severina


Imagem: Sebastião Salgado.


MOTE

O espelho a atravessar a alma
Não descarta a hipótese da lama
Suja a pele, suja os fatos e não nos garante
A felicidade a justiça a grandeza a humanidade
Torta face espelhada quebra as nossas chances
Enferruja dentaduras dos sorrisos falsos
Abre a porta fecha tudo e anuncia o engasgo
Enfurece nossos dias, ventania ataca
Sangra a história, cruza os dados
E não nos dá resposta

O espelho que atravessa minha alma torta
Entortece e assemelha nossa falta nobre
Joga tudo na privada da esperança morta
Esperança natimorta com sua boca a espera
Passeando pelos erros
Corrompendo o amor

Entre dedos nossa vida métrica escorre
E a morte é quem nos pela e nos engravida
Com suas dores, seus dilemas
Nos consome o tempo
Cai de sono em nosso corpo
E já sem juízo
Come a nossa alma


patricia porto