quinta-feira, 25 de março de 2010

Fragmento da minha tese: "Narrarrativas memorialísticas: Por uma arte docente na escolarização da literatura".

           

          Há uma poética no tempo da narrativa literária, uma trama poética que faz da narrativa de vida pela via do texto memorialístico uma ou mais de uma possibilidade de existência e de resistência ao esquecimento. Existe uma poética do tempo que é um mergulho único na eternidade, o tempo fluído da memória que se narra é Kairós, um tempo que guarda dentro dos ponteiros a não-linearidade e que por isso é o próprio movimento e também é a alquimia, numa mudança contínua de um estado para o outro.

          Voltamos assim ao pensamento de Heráclito, filósofo que entendia o mundo como fluxo contínuo de mudanças. Heráclito foi muito mais do que um filósofo que precedeu Sócrates. Ele foi, sem dúvida, fonte para muitos pensadores que acreditaram - como ele – na dinâmica das coisas. Para Heráclito o devir da existência não poderia ser estático já que o mundo não era estático. Dessa cosmologia pré-socrática podemos retirar algumas pistas para compreender o fluxo da narrativa memorialística que se localiza numa alternância sutil entre ficção e história, entre o real e o imaginário, entre o natural e o maravilhoso, entre o consciente e o inconsciente. E a busca pela verdade pertence a todos os tempos, a todas épocas humanas. Nós buscamos a verdade nas divindades, na fé que remove montanhas, buscamos a verdade como atividade intelectual e por isso refletimos sobre as coisas e queremos saber o porquê das existências ordinárias e extraordinárias.

              Enfim, a realidade o que é? E as verdades guardadas na realidade, quantas são? Sim, nós queremos saber é "das coisas", da matéria dos sonhos, como disse Shakespeare sobre o teatro. A literatura memorialista é como um teatro da narrativa e as máscaras com as quais o narrador se apresenta vêm em camadas num sutil palimpsesto de rostos. O narrador memorialista é "um fingidor, chega a fingir que é dor a dor que deveras sente."

             Nas memórias de Pedro Nava, nosso principal escritor memorialista, encontramos um narrador que carrega como questão central a linguagem poética da memória e como esta vai ser um elemento fundamental de reflexão. Reflexão naquilo que Jung conceituou como um voltar-se a si mesmo. Com isso, percebemos claramente no romance que o narrador fará o uso da linguagem poética como ascese, uma busca do seu mundo ontológico e dialógico, significando e situando a memória dentro do seu próprio texto memorialístico:

                A memória dos que envelhecem (e que transmite aos filhos, aos sobrinhos, aos netos, a lembrança dos pequenos fatos que tecem a vida de cada indivíduo e do grupo com ele estabelece contatos, correlações, aproximações, antagonismos, afeições, repulsas e ódios) é o elemento básico na construção da tradição familiar. Esse folclore jorra e vai vivendo do contato do moço com o velho _ porque só este sabe que existiu em determinada ocasião o indivíduo cujo conhecimento pessoal não valia nada, mas cuja evocação é uma esmagadora oportunidade poética. (NAVA, Pedro. 1974, p.17)

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Patricia Porto