terça-feira, 16 de novembro de 2010

Intensamente.

Imagem do filme "Sobrevivendo com Lobos".

Preciso mudar,
ser outro, mergulhar no outro.
Ser do outro um mundo avulso.
Preciso aceitar,
cruzar o peito e a estrada
com facas afiadas de combate.
Preciso deixar partir,
sepultar a velha vida gasta,
o tempo morto,
o torto escudo de proteção.
Preciso pegar o caminho
de ida sem voltas,
sem desvios fáceis,
sem cabanas de salvação
Preciso ouvir o lobo
que vive dentro do novo,
que grita dentro do espelho
em desesperos de lúcido afeto.
Preciso correr contra a fuga,
romper velhos costumes,
enterrar com as próprias mãos
os velhos amores -
os sem sentido de direção.
Preciso atender o lobo,
esquecer o veto
e a rejeição que há no medo
de apanhar do Pai.
Preciso acreditar que o óbvio
é a transgressão das margens,
a glória dos seres marginais!
O óbvio é o encontro com as chagas
do corpo - sem custos de passagem,
sem pesos de culpa ou maldição.
Preciso encontrar o lobo.
Dizem que ele é o suspiro da noite,
o intenso da terra, entre as trevas a luz!
Preciso Ser do lobo a face mais limpa,
a mais próxima da fonte,
ser o rio, o vale, o sopro – e por fim -

O nada. Ser nada e ainda assim Ser parte de tudo.

Patricia Porto

terça-feira, 26 de outubro de 2010

em silêncio

Imagem: Wim Wenders, Mossy Ground, Nara, Japan.

No silêncio eu aprendi da onda,
do mar, de uma memória abissal,
da ventania vazia que é o amor
num poço mais vazio ainda, o de existir.

Aprendi incertezas que me falam surda mente
que não existem tantas respostas ou nenhuma resposta.
E que o nada também é uma chance e um susto
de existir sozinho e se achar profundo e raso.

No silêncio eu vivi tardes vermelhas de olhos acesos.
Eu aprendi a ver melhor o que havia das pedras,
uma linguagem inteira de pedras, uma linguagem de infância e pedras.

Das minhas durezas de alma, das minhas formas perenes de solidão eu adquiri certa lealdade.
E por escolher a solidão como condição de existência não consigo de modo algum me arrepender.
Eu li os poemas de Eliot e me estiquei com as memórias de Proust.
E sei deveras ouvir o som das grutas, das fendas, das águas, dos vales sombrios da alma...  Se dez mil cairão nesse chão, tu certamente estarás entre eles.
E fiz pactos com a floresta a compreender a escolha de mudança dos bichos. Partir pode não ser opção.
Descobri que sou um bicho, um bicho faminto, voraz, um bicho a violentar, e um bicho que espreita, obtuso.
E dei de conhecer um temor esfacelado
e uma indomável sede de dizer que não devo fé e que sim, peco o tempo todo.

Qualquer hora enveredo altiva por entre meus bosques de espera
e lá – silenciosamente – na linguagem dos que esperam sem nenhuma humildade -
hei de encontrar do mistério a casa, a lanterna, a terra onde pousarei os ossos desses dias.

Na última casa do último sonho
da última face próspera de esperança...
A criança abandonada atravessará o bosque rindo muito, rindo alto,
-  última e corajosa vontade de silêncio.

Patricia Porto

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Alegro para Souvenir.

Imagem@The Open Window, Juan Gris, 1921, Oil on canvas. 


Encoste a porta com carinho.
A passos lentos se afaste.
Pouse leve na palma dos sonhos
ao se desvendar.
Volte para dentro
que as gavetas precisam de arrumação
e os retratos não mais falam
do que passou imaculado.
A vida é uma noite e um dia.
Noite bela de estrelas
e indagações constelam luzentes,
anunciando a pergunta do tempo,
próximo em círculo.
Vem noite vem dia,
sem venda de sacrifícios.
Sem sacro ferir.
E depois,
do depois do antes que houve,
retorne do antes que houve,
retorne enfim das passagens,
e me conte dos anos que escolheu viver.
En-contraste?


Patrícia Porto

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sobre abismos.

Imagem: Ansel Adams.

Acesos estavam os olhos dos amantes
e novos sentidos íntimos apareciam do caos ao cais,
feito um farol varrendo o tempo
a assinalar mensagens de uma felicidade em transe.
Trânsito de seus corpos clandestinos – em margens,
consentidos – em rochas,
em faces – relógios,
em marchas – os navegantes,
com lâmpadas – ciganos,
entre segredos – e açoites,
a atravessar
máscaras – e montanhas.
Duas correntes de mares que se cruzam:
numa incerteza destrutivamente bela.
Tanta força revés,
tanto dano e daninha pra morrer sozinho, sozinha
na praia...
No calor da última hora?

Patricia Porto

sábado, 11 de setembro de 2010

Um SOLO e um Naufrágio




Imagem: Jan Saudek, Hungry for your touch, 1971


camadas são para se retirar
de nossos corpos frágeis.
e para enterrar os nossos aspectos
mais sombrios –  ah, um solo de ...
para os girassóis que murcham com nossas
esperanças ou idiossincrasias.

Um solo para esconder esses ossos
que feito cachorros velhos tontos,
correndo do próprio rabo
tentamos ocultar em terra firme
- o amor pinçado,

só eu e você...
nesse solo para o nosso sol puindo...
caindo...

E o big bang.

o bang bang.

o big end.

Solo para esses dedos de separação.

e par o rastro de papel
atrás da vida
atrás do vasto querer mais
a outra história:
aquela de desarmar bombas.

falta do que esperar?
coma a utopia.
coma que é macia...

um solo!
um naufrágio!

Não, não nos queremos salvos.
Por favor, desliguem os celulares,
desa frouxem os cintos.
Desintegrem nossos ódios,
esse vulcão adormecido de covardias

e abram, enfim, essas cortinas!

Patrícia Porto

domingo, 5 de setembro de 2010

Nossa aliança foi com o mensageiro.

 
Imagem: Henri Cartier-Bresson



Toda vista pôde revelar e ser alcançada.
Eu também vi a vista, minhas crianças!
Eu vi os navios seguindo seus destinos
e sombrios eu os vi levarem acordos de presságios!
Transcendências de nossas casas já não conseguimos vislumbrar.
Levaram-nos da alma o precioso, o benigno.
E o sorriso que te deixei ao mar me retornou em sal.
Nossas camas agora são feitas de sal,
nossas mesas são talhadas a sal,
nossos dias são vestes de sal,
nossa espera,
nosso tempo,
nosso mistério,
nossa saliva, o sal...
E os navios partem ao longe.
E nossas almas dentro deles, só sal vão.
E eu não pude mais vê-lo,
não pude tocá-lo o semblante,
minhas veias endurecidas,
petrificadas,
minhas crianças sedentas
tiveram os lábios rachados.
Agora a agonia apartada de todo mar,
abraça-me feito anjo em espumas
e nossos corpos,
nossas lembranças curtidas
fazem a dor dentro de mim afogar-se.
Ao vento corre agora a despedida,
despida de nós, vai te pedindo, te suplicando:
“A promessa foi de aventura, nada há que te acorrente ao cais.
Leva fios de teus cabelos finos o envelope da mensagem.
Deixa o amor, deixa que eu fico aqui na escotilha desta casa a espreitar,
todo o Espanto, fincada nesse sal de abismo,
nesse silêncio azul que me despela em saudade."


Patricia Porto

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A ditadura da felicidade.

Arte de Rua.
                             
                    Hoje o difícil é encontrar alguém que tenha tempo para viver uma tristezinha qualquer. Se você a tiver, melhor esconder para não dar uma de bobo ou de sujeito desatualizado. “Nunca fomos tão felizes” era uma chamada de uma revista na banca desses últimos dias. E em sintonia com a revista, o novo censo concordava: realmente “nunca fomos tão felizes”, sorrisos e mais sorrisos fazem parte agora de uma nova contabilidade. O seu Moacir é feliz porque conseguiu um emprego, a dona Judite conseguiu enfim comprar a sua tão sonhada máquina de lavar, a dentista Cristina conseguiu montar seu próprio consultório; e outros tantos exemplos seguindo a mesma fórmula: conseguiu comprar o carro, a casa, eletrodomésticos, reformar o escritório... E se torna então interessante tentar compreender como é que se dá essa difícil ou fácil equação capaz de mensurar a felicidade de e no “indivíduo” , já que ela muda radicalmente de pessoa a pessoa. Como comparar a geladeira com o emprego? Tenho até uma hipótese: a felicidade é a materialização de um desejo concreto, por mais que ele pareça estúpido. Não digo que a geladeira e o fogão não sejam desejos legítimos, mas puxando a sardinha para a pergunta que não quer calar: o que é então essa tal felicidade? Onde a encontramos? Pode a felicidade ser traduzida em meia dúzia de eletrodomésticos comprados no Geraldão Eletros? O que o consumo tem a ver com essa onda de felicidade do “nunca fomos tão felizes”?
            Outra revelação. Segundo o novo censo, nunca fomos tão sozinhos. É outra questão a ser pensada. Sozinhos e mais felizes, vocês entendem? Será esse o elixir da felicidade? Segundo o mesmo censo também nunca fomos tão gordos e nunca tivemos tantas chances de desenvolver doenças cardiovasculares, as que mais matam no mundo. Na sequencia, as análises apontam que nunca estivemos tão estressados e que atualmente tomamos bem mais ansiolíticos e antidepressivos que em todos os tempos. Sozinhos, felizes – e fofos! Estressados - com doenças psicossomáticas, dependências químicas e emocionais! Mas felizes, pô!
               E somos felizes porque consumimos mais: carros, celulares – que só faltam dar tapinhas nas costas, roupas de marca, bugigangas, penduricalhos, móveis de design moderno, comida, gordura, muita gordura. Estamos gordos de tanto consumir, porque consumimos pela endorfina, pra ficarmos bem ligadões. Academia e comida, comida e distúrbio alimentar. Depois, vem a ansiedade, a abstinência, o suor noturno, o medo noturno, a paranóia. E só mesmo um shopping, daquele tipo cidade na redoma, pra dar sossego ao clamor visceral da felicidade viciante. Não à toa consumimos mais bebidas alcoólicas, mais energéticos e mais drogas. Consumimos por consumir, e se é pra comprar - que se compre da boa - que é pra mostrar pros amigos, pros manos - que a felicidade é de responsa! Nunca estivemos tão chapados, mas não naquela nostalgia de paz e amor, todos numa mesma utopia... O nosso novo consumo é daqueles pra cada um ficar na sua, trancado no seu pequeno mundo com o nariz pra cima; é droga pra individuo curtir na dele. E se rolar uma agressividade o lance pode até ficar melhor. A agressividade - essa pode ser dividida com os outros em novas formas de relação: bater nuns mendigos, nuns moleques afeminados, botar fogo nuns otários. Cara, maior felicidade!
                Felizes, sozinhos, gordos, estressados, violentos... Nunca fomos tão vazios. Nossa felicidade mesma é de um vazio avassalador. E a felicidade sem ser clandestina é ansiosa, competitiva, autoritária, castradora... Outro dia testemunhei o diálogo entre duas amigas:
                 “__ Você precisa parar de sofrer. Sua mãe se foi, está melhor que todos nós. (Adoro essa.) Levanta essa cabeça e vamos reagir! Bola pra frente! O Jogo continua!”
                    Perguntei a moça chorosa há quanto tempo sua mãe tinha morrido, ela tentando engolir as lágrimas disse: “ __ dois meses...”
                  Pobre moça que não pode sequer sofrer em paz, não pode chorar nem esgotar seu luto no tempo que é seu. Precisa seguir em frente, jogando a bola pra cima e a dor da perda pra debaixo do tapete. Nossos tapetes são hoje uma nação misturada entre ácaros e todas as tristezas que não nos permitem revelar. Tristeza, luto, dor, perda é coisa de gente pra baixo, baixíssimo astral. “Nem convida a Maria porque ela acabou de se separar, vai estragar nosso momento light.” “A Jane também não, tem aquele filho doente...” “Ah, o Jaime é depressão pura, poeta, cheio das sensibilidades, cruzes! Não chama, não chama!”
                   A academia de ginástica é o paraíso da nova era de glamour à felicidade. Corpos felizes, presumo, mesmo que os aparelhos de produzir beleza lembrem mais instrumentos de tortura medieval. Vem aquele sujeito fortão e diz “ponha mais peso nisso”! Quanto mais peso melhor, “desce tudo pras pernas” como dizia a minha avó. De frente vemos um deus grego, e falando, ouvimos os grunhidos de um parente próximo ao Neardenthal. Tenho uma teoria sobre excesso de peso e falta de neurônios, mas fica para a próxima. Não sei se alguém reparou, mas nas academias têm sempre aquela música bem agitada e uns vídeos com aquelas cantoras americanas peladas que cantam músicas sem o menor nexo sobre sexo. Felicidade da pura!
                 E claro, não deixaremos de citar as pessoas célebres da nossa atual e contagiante felicidade. As celebridades!, de preferência as instantâneas, que povoam manchetes e mentes com seus sorrisos e bundas – não necessariamente nessa ordem. Felizes, elas e eles, todos “fofíssimos” aparecem em festas de debutantes, chá de velhinhas, desfile de moda B, inauguração de churrascaria e farmácia, despedida de solteiro... E podemos perguntar: por que tão interessantes? Porque é a máxima do nosso tempo. Do mundo do botox, da não expressão - ao mundo da vida privada ou da privada da vida.
                   Uma pessoa recebe a triste notícia que a mãe está doente, câncer de mama, doença delicada. Fica paralisada de dor e resolve ligar então para algumas pessoas, tentando se consolar. Respostas: “querida, hoje câncer tem cura, tudo tem tratamento, até calvície.” “ela vai ficar bem, não vê a Hebe Camargo?” “Nossa, você é muito deprê, só pensa no pior. Positividade entendeu! Vou te ensinar um mantra fantástico.” “Doença é coisa que a nossa mente cria, sua mãe deve ser uma pessoa muito triste, precisa agora buscar a resposta dentro dela, relaxar e aí toda doença vai embora. Xô doença!” "Você tem um remedinho em casa? Então toma o dobro e dorme, amanhã é outro dia." "Nem começa, por favor, você sabe que eu sou hipocondríaco, não posso nem começar a ouvir essas coisas." Ai que saudade do tempo em que os amigos diziam: "Estou indo agora mesmo te dar um abraço."
                  E se um dia criarem um reality show só com pessoas doentes, de preferência casos terminais?Talvez esse povo do prozac gratuito e do alto astral – e que impõe aos outros a ditadura da felicidade, começasse a entender que somos realmente finitos e que cada pessoa humana tem um valor único, e que um ser que é nada ainda assim é insubstituível. E que todos tem direito ao sentimento da perda, de viver até a exaustão a sua dor, curando a alma de empecilhos futuros, de fantasmas mal resolvidos.
                 Ai que saudade da boemia de um Noel Rosa, saudade daquele tempo de dor de cotovelo e boa solidão. “Naquela mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim...” E doer era bom.


Patricia Porto

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Entre surdos e tiranos.

"A tirania é um hábito com a propriedade de se desenvolver e dilatar a ponto de tornar-se doença." (Fiódor Dostoiévski) 

Imagem: Charles Chaplin em O Grande Ditador (1940)



Não me querem viva,
mas viva eu prossigo,
eu pro cedo,
arte.

Não me querem livre,
mas minha mente rompe,
não responde fatos.

Não me querem o farto
enquanto vislumbro o vasto
e os profundos.

Não me querem o largo
e eu lhes dou 
da largueza 
de meus mamilos costurados:
                  a dor.

Não me querem a feia,
mas eu já estou posta
sobre a vossa mesa.

Não me querem a santa,
em outras passagens.

Não me querem acesa
e eu sou o próprio fogo
de demência humana.
Vamos aplaudir –  aplaudir -
                                      o res-pei-tá-vel público!

Venham e acompanhem o cortejo do corpo
que se foi deixando de sua pobre alma
de sovina terra, a dos confusos.
Salvem a Santa! Vamos ajoelhar e rezar
para que os votos lhe sejam de fé.
Vamos catalogar nossos diplomas,
nossos méritos, nossas medalhas,
nossas conquistas, nossos dinheiros,
nossas enfermidades tão genéticas.
E vamos colocar aos pés do altar.
Vamos assoprar as velhinhas
e desejar que o tempo pare, parado
para o nosso desfile célebre
de corpos fúteis e sarados em caixões modernos
de última geração, a nossa geração.

Oh, grande tolice negar a sua morte e a minha vida,
a nossa falência múltipla,
o nosso estupor,
o dano e a finitude abdominal
da nossa degeneração.

Pois bem, não me querem viva,
mas viva eu prossigo,
Eu prometo,
Eu enterro anjos
e choro loucuras.
Atravesso o peito como uma navalha
e deixo escancarada
a porta oculta que me bateram na face.

Patricia Porto

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A morta.

Imagem: Fotocolagem de Araquém Alcântara.


e a gente sempre acha que é Mario Prata.


A escrita

-  degenera

mata o que de si inventa
pra viver de culpa
ou fere o amor de morte
pra viver demais.

Por isso a casa, casca
- de só construída na escrita.
tão bem se esquece da voz

No branco, vazia.
Não lhe abrem as janelas
e os sorrisos.
Ela, distraída,
sem alfabeto falado,
entra a procurar lampiões,
Tentando um amor artificial.

Nada de mais
nem de menos
Talvez amena
se deixada ao nada,
pequena.

Sem existência pacifica
esvaziada,
esvoaçando
o perdido,
mortinha da silva,
seca
com sal de doer
                        a saliva.

O corpo.

            Dança contemporânea: "corpo erótico", criação de Carmen Gomide, Fotografia de Silvia Machado.


a gente sempre acha...

É lá onde me perco
- entre fugas e pés...
No corpo
vão compondo mar gens.
Lá onde a vida é curva,
movi menta a mente,
onde me cura o ventre
da morte, a lúcida,
a lucidez da louca
que me escapa ao vento
e me enche de agonia tola
e me castra a fala.

Vou pisando...
E lá onde suas águas sujam,
líquida do corpo em espaço
deixo minhas mãos no tempo,
aguando, sujando os dedos,
desfolhada de vida, 
perdoando os crimes
que não cometi...

Só inventei.


Patricia Porto

Todo homem "é mulher, eu sei".

Imagem: Fotojornalismo, Palestina.

                         Tem circulado um texto pela internet sobre a invicta e indissolúvel infidelidade masculina. A autoria seria do "Sr. Arnaldo Jabor". Particularmente, o texto me cheirou a semântica com naftalina e a uma certa essência “duvidosa”, o que foi demais para o meu bom gosto literário, que me perdoem os que não apreciam a literatura. E pintou uma questão. Alguém por aí, dos novos fãs do Jabor, consegue se lembrar algo do trabalho dele como cineasta? Eu lembro e confesso gostar bastante daquela faceta. Se bem que naquela época vivíamos numa ditadura militar, “anos de chumbo”... E tinha a tal da Embrafilme que recebia um financiamento bem gordo taxando outros filmes que chegavam por aqui. Tinha também toda aquela mamata de gente que vivia pendurada nas tetas do novo cinema nacional. Xiiii!
                  E tinha a censura, é claro. “Pra frente Brasil”, do cineasta Roberto Faria, foi um baita soco no estômago no “milagre econômico” da Embrafilme. Eu era criança e lembro bem que “Toda nudez será castigada” dava sinais explícitos que logo se tornaria um clássico do cinema brasileiro. Adaptação da peça de Nelson Rodrigues, com os excelentes Darlene Glória e Paulo Porto, o filme foi devidamente reconhecido e premiado. Quem era o cineasta?! O Jabor! E isso parece bem mais bonito pra ser lembrado e celebrado como fato e obra de ficção. É claro que determinado público que se deixa dominar por informações sem filtro e que acaba por acreditar na veracidade de textos assinados por Drummond, Bandeira, Mário Prata, todos esses que circulam pela net, pode achar, até inocentemente, que baboseiras piegas e preconceituosas tenham realmente sido escritas por homens ilustres (não no sentido iluminista). Por isso mesmo difícil será distinguir um falso nome da verdadeira autoria. Até aí “tudo bem”, nada mais a esperar que o texto mal escrito com o nome de um bacana da literatura vire rapidamente uma praga cognitiva, um pequeno vírus mental circulante. E os que apreciam bons textos só podem torcer e esperar que a virose seja passageira - como as de ocasião. Outro dia recebi um texto-daninha, literalmente estranho, e a pessoa, sem culpa alguma, me enviou numa dessas correntes da rede. Por se tratar de Mário Quintana tratei de abrir e ler. Meu olho clínico, é claro, dissolveu o fogo amigo em cinco segundos já na leitura da primeira frase. Talvez Quintana, um dos mais usados nesses plágios de autoria, tenha se remexido no caixão sem corpo, como no “Velório sem defunto”. O texto não era nem um mais ou menos. Era um festival de horror explícito mesmo! Mas pra não ficar demonizando ninguém, pois toda essa questão de autoria é pra lá de polêmica, a minha crítica ao texto recebido pela net - vai se resumir à péssima abordagem do tema escolhido pelo seu verdadeiro autor. Não estou falando das escolhas na vida desse sujeito não. Isso não convém. Falo da disseminação da intolerância através desse poderoso veículo - que é hoje a internet.
             Sendo objetiva (coisa difícil), sobre o texto que recebi, ele já começa com uma primeira verdade irrevogável lançada “às mulheres”. Diz o texto que “não existe homem fiel”. E por aí vai num espetáculo de palavras de cunho machista, cheio de expressões de intolerância e pouca, diria talvez, nenhuma visibilidade de mundo. Como poderia o Jabor escrever "esse texto" digno das nossas lixeiras? Não dá pra ficar confuso. É um insulto ao Jabor. Porque não tem nenhum charme, mesmo de um nome reconhecido, que possa poupar um texto como esse do vexame das ofensas declaradas contra a mulher. Se eu pegar a deixa do "J. da Net", eu diria aos que estão poluindo nossas caixas de e-mail com mensagens preconceituosas como esta, que a mulher também é a mãe e vice-versa (Oooohhh!). Acredito que os que andam distribuindo tal mensagem não devam ser filhos de chocadeira. Só pra dar um exemplo do mesmo nível.
             Vale lembrar que no país das Isabelas, das Eloás, das Elisas, das Mércias, das Marias da Penha... A cada duas horas uma mulher é assassinada por um marido, um ex-companheiro, namorado etc. Sem falar na violência doméstica e sexual cometida por pais, padrastos, tios, irmãos.. Talvez então agora eu até concorde com o Sr. Jabor da Net, “não existe homem fiel” a não ser o “religioso” como o texto-vírus diz. O texto diz também (nossa!) que “O homem só precisa de uma bunda.” Pelo visto, pode ser de criança também, como diz a estatística sobre abuso sexual de menores no Brasil, isso vale para meninas e meninos. Menino também sofre abuso sexual.
                    Segundo estudos do Instituto Sangrai, ocorreram 41.532 mortes de mulheres e mães de 1997 a 2007, quase todas em decorrência de violência doméstica. E as principais testemunhas desses assassinatos foram crianças, meninas e meninos. O Brasil é o 12º país no ranking de homicídios de mulheres por motivo passional, torpe ou mesmo sem qualquer tipo de motivação, por nada. É. Vale lembrar também – pra quem já esqueceu - daqueles quatro rapazes da Barra que espancaram a empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto. Os golpes foram todos dados na cabeça de Sirley, que foi humilhada, roubada e agredida. Os rapazes ainda disseram que a confundiram com uma prostituta. E que por isso a espancaram. Isso aconteceu em 2007. E tem também o maníaco do parque. Vocês lembram? Tem também o caso da menina Liana Friedenbach que foi cruelmente torturada, estuprada e assassinada por um grupo de homens. E aí concordo com o texto da net, “todos gostavam de bunda”. Segundo noticias da Folha de São Paulo, o assassino, o Champinha, quando viu Liana, disse para o comparsa, Pernambuco: 'Olha que menina gostosa'. Isso aconteceu em 2003 e Liana só tinha dezesseis anos.
                     Em tempos de wikileaks, fica aqui o desejo que os filhos e as filhas do amanhã, que nós criamos hoje, se tornem pessoas “com valores” e que aprendam desde cedo a disseminar essas coisas arcaicas como respeito, responsabilidade, altruísmo, amor... Espero que eles não achem graça em textos machistas, nazistas, racistas, textos tão preconceituosos quanto o do "Sr. J. da Net". Porque, no fundo, no fundo, essa grosseria não tem a menor graça. Ser fiel aos valores humanos é bom, faz bem, dá até uma onda. E a fidelidade, a ética - no Brasil e no mundo, deveria ser medida pelas ações públicas, políticas, pela fidelidade aos princípios humanos e aos direitos civis de todos, homens, mulheres - e crianças principalmente. Pois em caso de naufrágio...


Patrícia Porto

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A Passagem (Lêdo Ivo)

Que me deixem passar - eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar,exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por seu eu diferente ou indesejado
mesmo assim eu passarei.
Inventarei a porta e o caminho
e passarei sozinho.
...................................................................................

Saramago - Uma Paixão.


Imagem de Sebastião Salgado.


Lembro de escrever um poema depois de ler com voracidade, paixão e entusiasmo “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” de José Saramago. Eu já era uma apaixonada por Camões, Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Meus poetas preferidos. E quando li a prosa de Saramago foi como encontrar-me a mim mesma desnuda em palavras, desnuda de resquícios da minha alienação diante do mundo. Saramago me fez acreditar que era possível fazer uma literatura crítica e não menos apaixonada pela palavra. Inspirei-me na biografia dele, eu  estudava numa escola técnica quando o li pela primeira vez e ambos fomos netos de Josefas, pobres e sábias. Sinto-me então mais esperançosa ao escolher esse caminho “árido” e “doce” da arte literária e por ter mantido a ilusão de sua companhia. Hoje, emocionada ao saber de sua morte, resolvi postar uma lembrança encarnada. Dedico meu pesar e minha paixão ao grande mestre de todos aqueles que, com muita consciência, lutam, sonhando e escrevendo em língua portuguesa.



A Inacabada Sinfonia.

Deus escreve certo pelas linhas tortas
e torto pelas linhas certas
e o tolo pela linha mestra
e o turvo pela linha cega.
E escreve errado pelas linhas certas,
desenha imagens nas linhas desertas
e deixa aberta a porta indigesta
de suas linhas mortas.

Deus escreve certo com margens tortas
e cruza pelas linhas doidas
e endoida pelas linhas curtas
e entulha pelas linhas as coisas
e come pelas linhas as frutas.
E escreve com luvas suas linhas doidas
e emenda as forcas com as formas afoitas
de suas margens mortas.

Deus escreve certo com as letras tortas
e entorta pelas linhas fracas
e engorda pelas linhas magras
e enrola pelas linhas claras.
E risca tudo pelas linhas fartas,
escreve, escreve as linhas amargas,
apaga, apaga as linhas deixadas
por suas letras mortas.


Patrícia Porto




José Saramago por Sebastião Salgado.

domingo, 16 de maio de 2010

POEMETO


Imagem: Kazuo Okubo




C A COS


Através do poema

vejo através

nosso caso

ao quadrado.

Seremos dois

ou quatro?

Seremos mais?

Não sei.

Pois através de ti

amei além

teus ca cos.



Patrícia Porto\ 1995



* Festival de Fotografia em Floripa: De 17 a 21 de maio - palestras, workshops, oficinas, leitura de portfólio, exposições e projeções de fotografia de grandes nomes da fotografia brasileira.  Os trabalhos de Kazuo Okubo estarão lá. Vale demais conferir.  Show!!!

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sábado, 15 de maio de 2010

Atravessando a rua em silêncio.


Imagem: Henri Cartier-Bresson


(Para a minha amiga Ana que passou por aqui como um passarinho.)

         Tem uma frase do Bartolomeu Campos de Queirós que, embora curta, é precisa, poética  e carrega múltiplos significados, estes que delicadamente afligem as paredes sólidas daquele lugar que chamamos semântica ou de busca de sentidos para as palavras da nossa (língua)gem. Costumo usar a frase de Bartolomeu como a pílula do doutor Caramujo quando, não por acaso, sinto que devo sair da impotência, da letargia,  lugar tão conhecido por nós, seres humanos modernos, que vivem como um dilema a nossa conturbada e frenética contemporaneidade - ou seria com-tempo-em-ansiedade?
         Disse Bartolomeu que tudo passa, que "até passarinho passa". Lembro então que quando descobri que estava doente já há muitos anos passados, Ana, uma grande amiga, escreveu esta frase num bilhetinho e me deu de presente com um livro também de Bartolomeu, já que éramos as duas suas fãs incondicionais. O livro “Para criar passarinho” passou a fazer parte de minha mesa de cabeceira e foi assim durante um longo percurso de avanços, retrocessos e reincidências.  O livro de Bartolomeu foi tão medicamento quanto os outros e tão eficiente quanto os outros. E gosto cada vez mais de pousar os olhos sobre um trecho que fala assim:

         Para bem criar passarinho é necessário ter corpo capaz de escutar o silêncio das pedras, o som do vento nas folhas, o ruído de soluços preso em garganta. Isso se alcança afinando bem os sentidos, para perceber sopros de flauta, cordas de harpa e murmúrios das perguntas e lembranças.

          Parece que uma boa definição para a morte foi encontrada por Manuel Bandeira: sim, “o maior de todos os milagres”, o último dos milagres, ele que viveu sempre entre fantasmas. E os que já passaram pela tangência da morte, talvez tenham realmente aprendido o incrível e enigmático valor da vida. Porque somente a presença contumaz, a presença física da morte nos faz criar deslocamentos antes inimagináveis. A ameaça da última parca a nos cortar o tecido faz aguçar nossos mais íntimos sentidos. Os sons da música dos passarinhos e a busca da diferenciação entre seus cantos é uma nova aprendizagem sobre sons e notas. Os odores do mundo aparecem - e agora não mais atenuados por nossa displicência olfativa, as texturas das palavras nos chegam com o eco de vozes, o pôr do sol de tantos tons abrandam o que é noite, as crianças fazendo algazarra no faz sorrir assim como a gargalhada sonora de uma menina que atravessa o espelho... E nos perguntamos atônitos: por que esperar a ameaça do fim para aprender a experimentar todos esses pequenos delírios - quase "delitos" da vida?
          Dizem que quase todas as pessoas quando são diagnosticadas com doenças de difícil tratamento tendem naturalmente a negar aquela primeira condição e se perguntam: “por que comigo?” “por que agora?" São invadidas de sentimentos paradoxais, por um lado,  superioridade e onipotência; por outro, fragilidade e frustração. E depois, dizem que nos passos seguintes, há revolta e por fim, chega o dia da conformação. Ainda assim nenhuma dessas etapas poderá ser medida como mais ou menos dolorosa. E todas – acreditem – nos fazem ver o mundo. Simplesmente isso: ver o mundo. E ver o mundo tem muito do ver a vida de mais perto, ver dos seres o imperceptível ao olho nu. Porque estamos diante de outra nudez, a maior de todas: a nudez da nossa própria alma.
        E qualquer que seja a via crúcis, ela nos ensina ainda mais sobre paciência, tolerância e humildade. Ser simples. Afinal assim chegamos ao mundo e assim partiremos dele. Não levaremos nada em nossos bolsos. Não carregaremos para nossos túmulos: riquezas, jóias, patrimônios, títulos, plateias... Estaremos sozinhos - de novo... Seremos simples. Perceberemos talvez e então que nada pode ser mais estúpido e violento que a intolerância, o desprezo e a prepotência. É diante do sofrimento que nosso corpo carnal torna-se então capaz de escutar o silêncio das pedras. Ele, suas marcas e cicatrizes serão o símbolo maior da nossa profunda humanização. E é ele que nos une ao que transcende. A alma é um todo que só percebemos diante de uma das mais úteis conscientizações terrenas: somos finitos. Perfeitamente únicos e finitos.
       E a cura é também um milagre, mas não porque nos deixa “prontos pra outra”, mas porque nada será como antes depois dela. E ela se repetirá mais de trezentas vezes ao ano, mostrando-nos o quanto somos mortais. Ela nos ensinará a olhar o outro - de dentro de nós - com mais compaixão, nos libertando de raivas e ressentimentos que porventura venham nos assolar. E ela nos ensinará a perdoar aqueles que nos trazem mágoas indevidas, aqueles que tentam diminuir o nosso valor, desprezando nossa humanidade e nosso potencial maior: a própria vida.
        Um rio sem água não é um rio, um corpo sem alma não é humano. O fundo do rio não é o rio – é o fundo e até no fundo há movimento, há a vida do rio, a identidade do rio, o nome do rio, o nome do rio está na água que corre – está na correnteza. A vida do rio é o profundo, do fundo para superfície e da superfície para o fundo, recriando-se para o deleite das margens.
        Por isso eu sigo acreditando num mundo de justiça, amor e bondade onde o ser humano seja a resposta, enfim, para “o onde vamos chegar”. Não estaremos sozinhos na hora que preciso for atravessar a rua em silêncio.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Comentários e agradecimentos.

Imagem: Haruo Ohara


         Gostaria de agradecer aos comentários recebidos que só demonstram que "esse blog" vale muito a pena.  Minha prima Juceny, filha do meu amado tio Ribamar, e que há anos não vejo, deixou um comentário maravilhoso, inspirador. Obrigada Jucy! Obrigada à amiga Adrianne Ogêda que sempre me presenteia com selos simpáticos de reconhecimento e afeto. Obrigada pelo comentário e pelo conforto. Obrigada à Nessa, à Alice, ao Pedro Du Bois,  ao Jucá, à Luísa, ao Marcos, ao Sebastião, ao Josué, à Ludimila,  à professora Maria Helena que me emocionou muito com sua história, ao professor José Carlos e a quem mais chegar. Agradeço imensamente por compartilharem comigo a escrita, a leitura, essa viagem...  E para todos ofereço as palavras do poeta:

"Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive".


Vinícius de Moraes

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A ostra e o umbigo.


Imagem: Haruo Ohara


(Para minha mãe que nunca foi perfeita e porque nunca foi perfeita me ensinou que somos todos falíveis, que aprendemos a amar na tentativa e que a confiança é uma conquista diária, é um trabalho. Mãe, você é a minha ostra - o fechado, inalcançável e é o meu umbigo voltado para o mundo.)



Minha mãe, o umbigo do tempo
Um bosque de árvores úmidas de encantos
Entre precipícios e âncoras cordas e assobios

Cordão ancorado em sonhos e nebulosas
Nuvens e luas de não-dormir
de descansar na fresta do tempo: uma porta

Cansar a espera
Umbilicalmente
Preso
Solto
O Umbiliverso
Ao Ver só
Do filho
                       O único
                                      tem po tem po
                                               o tem po da ostra:
                                                     mãe-tempo

......................................................
Patricia Porto

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A Mãe

Imagem: Sebastião Salgado


Mãe,
Mainha,
Minha mãe,
a que acendeu um anjo
na primeira profecia
divinatória.


O ventre da mãe.
A mãe de calos na mão,
A mãe do povo,
A mãe do filho,
A mãe operária,

Os olhos da mãe:
dois holofotes de luz.
Onde estiver eu estarei.


Os pés da mãe,
Os pés na terra,
Os pés de Gaya,
Os pés tão cansados da mãe.


Ela busca a água no poço
e o poço é sempre fundo,
ela mergulha em promessas
seus seios, suas vísceras.
E desce ao Hades
e faz pactos sinistros
com as forças da natureza.


O amor tão extremado
que acolhe e estraga
é da própria natureza.


A mãe, a água, a lagoa,
o mar infinito,
o pó da terra,
o ar e o vento e a tempestade,
o fogo do primeiro alimento
do primeiro homem a vagar sobre a terra.


Diante da caça e do predador,
diante da ameaça de perda ou morte:
Mãe, olhai por mim,
não me deixe só.

E a mãe faminta da vida dos seus
alimenta de esperança e espera
tudo o que lhes for de sorte e amor.




..............................................
Patrícia Porto

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Quando a felicidade é gratuita.



Imagem: Haruo Ohara


          Ontem um amigo me enviou uma mensagem dizendo: “adoro seus textos, mas não acho legal enviá-los como spam”. Fiquei confusa e pedi ajuda ao meu filho de onze anos: “o que é um e-mail spam?” Essas crianças! Como diz a minha mãe: “já nascem agora de olho aberto, corpo durinho e começam a falar em seis meses.” Outro dia na porta da escola do meu filho, os pais se admiravam com a precocidade dos rebentos: “o meu começou a falar com oito meses”, “ah, o meu com dez”... “E ler e escrever com dois.” “Com três...”, “com quatro...” Era um festival abominável de crianças prodígios, de gênios, de super dotados... Todos faziam esportes como atletas: “corre cinco quilômetros em tantos minutos”... “Nada como um peixe...” “Faz esgrima...” Esgrima?! Nessa hora, confesso que fiquei novamente confusa: Como assim esgrima? Esgrima não é um objeto cortante para ser manipulado por uma criança de dez, onze anos? A mãe me olhou como se eu fosse um ET acabando de estender o dedinho. “A esgrima é um esporte completamente seguro!” Pedi desculpa pela minha ignorância. Então uma delas, com um olhar de vilã de conto de fadas, me perguntou: “E o seu, o que ele faz?” E quase que por instinto, todas se aproximaram me acuando junto às grades do portão. “É! O seu! O que ele faz?”
            Então veio um redemoinho de imagens na minha cabeça. Tentei rapidamente ver nos meus arquivos cerebrais, falhos por sinal, que resposta dar àquela pergunta. Pensei comigo: meu filho adora inventar histórias. Talvez por ser filho de uma contadora de histórias que também adora inventar estórias. Nós fazemos competição de monstros: monstro da lixeira, do elevador, do ônibus lotado, da piscina... Ele começou a falar com quase um ano, mas ele sorria, gargalhava todos os dias. Começou a ler aos sete, e antes de mim, pois eu só comecei a ler - com dificuldade - aos oito. Ele adora futebol, o Botafogo e conhece como ninguém a história dos times, dos jogadores, dos campeonatos; mas a bola, essa já não gosta muito dele, “um caso de amor não correspondido” como foi para Nelson Rodrigues e o nosso querido Armando Nogueira. Ele é um menino meio gordinho, meio baixinho, tem olhos escuros e cabelo entre o liso e o cacheado. E eu sou realmente suspeita pra dizer o quanto ele é “inteiro” e bonito. Ah, mas eu lembro que aos quatro anos, ele me perguntou: “Como é que eu faço pra ficar da cor do João? Se eu dormir todo dia do lado de fora da casa, a noite me escurece?” E lembro que aos sete ele sozinho arrumou os brinquedos e disse pra avó: “esses aqui eu vou doar.” E minha mãe não concordou: “mas são brinquedos novos!”. E ele perguntou: “mas então os meninos só podem ganhar os meus brinquedos velhos?” E ainda na mesma ocasião, ele disse: “vou ficar apenas com esses aqui que eu gosto mais.” A avó de novo o repreendeu: “mas esses estão quebrados, sem pernas, sem braços... Joga fora.” E ele completou: “vó, se o seu filho não tivesse uma perna ou um braço você jogava ele fora?” Bem, esse é o Pedro que conheço e que também já revelou a todos que quer ser "feliz" quando crescer.
            O sinal bateu. As crianças saíram agitadas e eu fui salva pelo gongo. Afinal nunca há uma só resposta para uma pergunta assim como existiam e existem muitas outras perguntas dentro da minha resposta.
          E voltando ao meu amigo do spam e a minha pergunta inicial, o Pedro me respondeu: “mãe, spam é um e-mail chato que a gente não gosta de receber e ainda dá trabalho para deletar.” Espontâneo e autêntico como espontâneas e autênticas quase sempre são as respostas das crianças. Ah, esses adultos...



Patrícia Porto

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Passageiro





Entrou na rua profunda.
 Mal notou no núcleo interno a solidão do guindaste
que os aguardava, a ele e a todos - do outro lado -
o outro lado que é o mesmo lado.
E atirou-se do perfeito ao infinito.



Patrícia Porto

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Rosas


Rosas

São elas sim as últimas e verdadeiras,
as que encobrirão os nossos rostos,
os nossos corpos.
Entre elas nossa mortalha,
nosso manto,
um sudário de lembranças...
Quando não nos restar palavras enfim
nem duras nem doces...
Quando não nos restar olhares -
outras formas de dizer “te amo”,
quando nossas mãos estiverem postas,
mortas,
atravessadas em nossos peitos,
elas dirão por nós
linguagens inexpressíveis.
Elas exalarão odores que somente
a vida pôde com frescor exalar.
Quando não nos restar os braços para os abraços
elas serão levadas aos túmulos
e nos abraçarão aos nossos amados.
Quando toda terra estiver soterrando nossas esperanças
elas acolherão as nossas tristezas.
Quando o último de nossos melhores amigos
não puder presenciar a nossa ida e ausência,
elas nascerão pelos campos,
semeadas ao sabor de um tempo sem previsão.
Elas delicadamente testemunharão que um dia
eu, você, todos nós
estivemos aqui.



Patrícia Porto

Porque do fim do poço se pode ver
no fim de tudo
no fim do túnel
o invento da luz.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Troçando...

Bravo Pessoa! Também tenho conhecido pouca gente que leva porrada. Todos os meus conhecidos bem sucedidos são campeões em tudo: em educação, moradia, saúde, alimentação... Todos bem nutritos, endorfinados, com suas casas e jardins, cheios de orgulho e de bons motivos para um shopping de diversões e felicidades institucionais, cheios de bons conselhos míopes aos reles que não tiveram a sorte de berço e que por relapso de bom-caratismo, não aprenderam a roubar, sonegar e corromper como destino. Ah, como eu queria ser burra, Raul. Assim eu não sofria tanto.
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O favorito: Poema em Linha Reta. Fernando Pessoa.


POEMA EM LINHA RETA  (Fernando Pessoa)



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!


Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,


Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.




Álvaro de Campos

quinta-feira, 25 de março de 2010

O Direito de Sonhar ou Um Memorial Arquivado.

Precisava com urgência agradecer a mensagem de um amigo, que diante da minha tristeza declarada após receber um desses "nãos" da vida, na sua boa dose de gentileza e bondade humana, me escreveu palavras  belas e necessárias. Dizia ele: “...não fique assim, você é bem maior que isso”. Eu que naquele momento me sentia tão pequena na minha tarefa de ser grande.

Pensei então em lhe responder dizendo que nunca fui pessoa de sonhar muito e que sempre economizei bastante nesse exercício, tentando muitas vezes encontrar um equilíbrio inútil entre o desatino de ser uma pessoa ludicamente amorosa e o dever de ser uma pessoa realizadora, que concretiza expectativas na concretude da sua existência. Emoção e razão sem lugar pra dicotomia.
Fico também constrangida ao escrever texto tão umbilical e de tantas auto-referências como este. Fruto de um excesso de discrição e de uma minha polidez sem sentido fico sempre sem saber onde colocar as mãos quando é minha a cumbuca. Mas fui pega assim... Como poderia descrever? Na esquina, no meio da encruzilhada - entre o limite do sofrer calada e a vontade de doer no explícito com a fratura exposta. Devo dizer que também sempre fui mais de sofrer calada, essa atitude ensinada de menina, atitude de mulher que guarda o fruto ensinado de menina pobre, essa herança de mulher de classe média que foi uma menina pobre que sonhava ser uma mulher de classe média com suas próprias mãos. Por isso a estreiteza do sonho e a largueza do caminho. Lembro que os meus sonhos de menina pequena eram: uma boneca grande, uns livros e “ser doutora” porque “doutor todo mundo respeita”. Dizia tio Inácio na sua sabedoria de velho. E que eu acreditava na minha sabedoria de menina.

Na época não existiam barbies e nem o consumo desenfreado que aposta fichas e empenhos numa infância que hoje, na contemporaneidade, é lucrativo nicho de mercado, esse mesmo mercado das distorções sociais. Nessa época a exclusão também era mais visível, todos nós éramos excluídos de algum lugar, e a discriminação era mais aberta. De porta escancarada chegava sem a hipocrisia do bom-mocismo e sem a maquiagem de intervenções padronizadas. A pessoa era discriminada e pronto, ponto. Mulher, pobre, negro, nordestino, analfabeto... Meu tio Inácio dizia que, no Brasil, o duro mesmo era ser sorteado nos cinco: mulher, pobre, negra, nordestina e analfabeta. Sabedoria de velho sorteado nuns três. Tio Inácio vivia dormindo e quando acordava contava um bando de sonhos, sonhos de poeta e criança, sonhos alados com pés soltinhos do chão.

Eu que desisti de ser bailarina antes de aprender a afrouxar os pés, dos meus sonhos de menina, lembro que a boneca grande eu ganhei de uma vizinha comerciante que distribuía brinquedos para a criançada todo dia de São Cosme e Damião. Era um bebê horrendo de plástico que perdia a cor em duas semanas e os braços em três. Foi preciso ficar o dia inteiro numa fila, esmagada entre muitas outras crianças, para no fim realizar a minha primeira aventura em busca de “um sonho perdido”. E quando o tal boneco começou a desbotar fui capaz então de fazer minha primeira reflexão sociológica sobre gente que se relaciona com gente: “aquela senhora dava os brinquedos por conta da promessa e não porque ela gostava de criança.” Passei a fazer cara feia pra dona do armarinho lá com todas suas pequenezas e todos me recriminaram com todas as suas miudezas. “Menina mal agradecida!”

Dos sonhos, os livros vieram numa caixa de papelão. Não me lembro de qualquer programa de leitura nas escolas públicas por onde passei. E eu que gostava de livros relia por vezes os mesmos livros de estórias que habitavam nossa tão modesta moradia. Minha mãe havia comprado um “conjunto” com cinco livros infantis de um vendedor que feito caixeiro viajante passava de porta em porta trazendo “leitura” e “sonho”. Um vendedor de sonhos eu imaginava. Eu no meu fascínio por letras e imagens. Ele querendo ganhar uns trocados, falando da vida difícil de desemprego, precisando sustentar mulher e filho. Minha mãe comprou mais “pra ajudar o moço” que pelo desejo de estimular os filhos à leitura. Valeu pra todos.

Dos sonhos, “ser doutora” foi o que não chegou como brinde ou presente. Foram anos de um esforço sobre-humano, até porque não foi sempre humano o meu processo educacional. Em alguns momentos ele beirou até à desumanidade: “escola sucateada” foi para mim lugar comum bem antes de eu poder ler isso em livros de pesquisadores preocupados e assustados com aquela e essa realidade. Quando chovia na escola “dos meus oito anos”, um pântano se formava e isso não é força de expressão nem figura de linguagem. Corríamos com a professora e as carteiras para o meio da sala, porque chovia dentro o que chovia fora.

Está certo dizer que o pesquisador não precisa ter sido pobre para pesquisar a pobreza e que não precisa ter estudado em escola pública para pensar e falar a respeito do ensino público. No entanto, ter vivido à flor de pele essa dimensão de realidade pode revelar ao pesquisador da pobreza e do ensino público no Brasil uma dimensão única e ampliada do problema. Um sentido a mais. Um sexto sentido feito de sensibilidade e intuição. A sensibilidade que não diminui em nada o rigor e o valor da pesquisa. E que ao contrário disso, pode aprimorá-la. Mas poucos me parecem os que conseguem ver para além da própria cegueira branca institucionalizada. Acho que precisamos de mais sábios assim como o cego Tirésias ou como meu tio Inácio, personagens dessa História que ousamos viver e inventar ou re-invetar vivendo.

E algumas experiências da minha infância marcaram definitivamente a minha trajetória de vida e pesquisa. E uma dessas bem significativas foi a de ser diagnosticada como disléxica aos dez anos idade. Lembro da professora da escola de freiras  dizendo a minha avó entre pena e constrangimento: “_ O que acontece, dona Josefa, é que a sua neta tem apresentado muitos problemas na leitura e na escrita. E depois das avaliações que nós fizemos o que se pode afirmar é que ela tem dislexia.” Minha avó tampouco se abateu: “_ Irmã, isso mata?” “Não, não matava.” Foi o que a freira respondeu. E lembro bem de sair daquela sala da diretora com um novo campo de palavras na cabeça: “dislexia, diagnóstico, avaliação, leitura, escrita...” Na volta para casa, minha avó passou na quitanda: “ _Nhô, tem caderno aí? Pega uns cinco.” Fiquei assustada: “_ Vó, pra que tanto caderno? E ela respondeu “passando a mão na minha cabeça”: “_ Um pra fazer de diário, outro pra escrever carta, outro pra escrever minhas receitas, outro pra fazer cópia de livro...” “E o quinto vó?” “Ah, no quinto você escreve uns versinhos.”

De versinho em versinho fui me tornando escritora e leitora da minha própria realidade. Por isso mesmo ser “doutora” não foi conquistar um título a mais para o previsível e o esperado. Foi conquistar vários direitos usurpados desde cedo. Ler, escrever, entrar na universidade... Ser “doutora” não estava no mesmo plano do ganhar o bebê horrendo do colonizador e nem do pleitear um título tão comum à classe dominante. Era e é bem maior que isso.

Para me tornar uma professora doutora precisei fazer da minha própria vida objeto de pesquisa e transformação. Por isso, ainda que com certa melancolia, devo dizer ao meu amigo querido, que não vou desistir do meu sonho. Até porque esse eu venho desenhando há tempos. O adiamento da sua realização, é claro, me entristece um pouco, mas não desmonta ou varre a minha esperança nem gasta a minha utopia.

Bem, caro amigo, depois de enfrentar tantas durezas, penso que darei um vôo lá fora a fim de perseguir algumas estrelas. E desde já prometo voltar mais forte.


Patrícia Porto

Sonhos

Dersu Uzala é um filme feito por Akira Kurosawa em 1975 e conta a estória de um cartógrafo do exército russo czarista que durante uma expedição pela Sibéria recebe a ajuda de um guia, conhecedor da geografia e da topografia local, que o ajuda não somente nas suas buscas exteriores, mas o ajuda também a rever os valores da sociedade em que vivem numa busca que parte do  exterior para o interior e retorna ao exterior. Dessa relação cotidiana de pesquisa e descobertas nasce uma grande amizade entre eles, o explorador e o guia.
Esse é um resumo do filme que conta muito mais que essas poucas palavras ditas aqui, pois há também para além da beleza do filme, a história antes do filme e a história de Akira Kwrosawa, um dos maiores cineastas de todos os tempos. O meu cineasta favorito já que trabalho com imagens e as metáforas do existir. A história que há por trás do sucesso conta que por não conseguir apoio financeiro no Japão para produzir esse mesmo filme, Kurosawa passou por uma depressão profunda e tentou o suicídio em 1971, quando chegou a cortar os pulsos. Seu retorno triunfal ao cinema e à vida se dá com a concretização da filmagem de Derzu Uzala (A águia das estepes), filmado na Rússia e que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro também em 1975.


Fragmento da minha tese: "Narrarrativas memorialísticas: Por uma arte docente na escolarização da literatura".

           

          Há uma poética no tempo da narrativa literária, uma trama poética que faz da narrativa de vida pela via do texto memorialístico uma ou mais de uma possibilidade de existência e de resistência ao esquecimento. Existe uma poética do tempo que é um mergulho único na eternidade, o tempo fluído da memória que se narra é Kairós, um tempo que guarda dentro dos ponteiros a não-linearidade e que por isso é o próprio movimento e também é a alquimia, numa mudança contínua de um estado para o outro.

          Voltamos assim ao pensamento de Heráclito, filósofo que entendia o mundo como fluxo contínuo de mudanças. Heráclito foi muito mais do que um filósofo que precedeu Sócrates. Ele foi, sem dúvida, fonte para muitos pensadores que acreditaram - como ele – na dinâmica das coisas. Para Heráclito o devir da existência não poderia ser estático já que o mundo não era estático. Dessa cosmologia pré-socrática podemos retirar algumas pistas para compreender o fluxo da narrativa memorialística que se localiza numa alternância sutil entre ficção e história, entre o real e o imaginário, entre o natural e o maravilhoso, entre o consciente e o inconsciente. E a busca pela verdade pertence a todos os tempos, a todas épocas humanas. Nós buscamos a verdade nas divindades, na fé que remove montanhas, buscamos a verdade como atividade intelectual e por isso refletimos sobre as coisas e queremos saber o porquê das existências ordinárias e extraordinárias.

              Enfim, a realidade o que é? E as verdades guardadas na realidade, quantas são? Sim, nós queremos saber é "das coisas", da matéria dos sonhos, como disse Shakespeare sobre o teatro. A literatura memorialista é como um teatro da narrativa e as máscaras com as quais o narrador se apresenta vêm em camadas num sutil palimpsesto de rostos. O narrador memorialista é "um fingidor, chega a fingir que é dor a dor que deveras sente."

             Nas memórias de Pedro Nava, nosso principal escritor memorialista, encontramos um narrador que carrega como questão central a linguagem poética da memória e como esta vai ser um elemento fundamental de reflexão. Reflexão naquilo que Jung conceituou como um voltar-se a si mesmo. Com isso, percebemos claramente no romance que o narrador fará o uso da linguagem poética como ascese, uma busca do seu mundo ontológico e dialógico, significando e situando a memória dentro do seu próprio texto memorialístico:

                A memória dos que envelhecem (e que transmite aos filhos, aos sobrinhos, aos netos, a lembrança dos pequenos fatos que tecem a vida de cada indivíduo e do grupo com ele estabelece contatos, correlações, aproximações, antagonismos, afeições, repulsas e ódios) é o elemento básico na construção da tradição familiar. Esse folclore jorra e vai vivendo do contato do moço com o velho _ porque só este sabe que existiu em determinada ocasião o indivíduo cujo conhecimento pessoal não valia nada, mas cuja evocação é uma esmagadora oportunidade poética. (NAVA, Pedro. 1974, p.17)

(...)
Patricia Porto 

sexta-feira, 19 de março de 2010

O Porto




Pra esse moço bonito...

Se fosse o mar a nossa mão direita
E a nossa garganta fosse a água dar a senha
Não, não teria razão para tanta sede
Se fosse o mar doce como a tua beleza
E não fosse fel a onda, nossa água ardente
Não, não teria razão para tanta sede
Se fosse o mar calmo como o teu canto
E não fosse estranha a minha natureza
Não, não teria razão para tanta sede
Se fosse o mar todo o teu bem futuro
E se não fosse nessa água esse tanto sal
Salgando essas carnes nossas feito um fado triste
Não, não teria razão pra enterrar na areia esses nós e pés
Adubando a terra com tamanha sede


O Porto ficou deserto, vazio parto de si
A inundação foi chegando, salgando sua chegada
Varreu o sal dos seus barcos
E quem esperou nele o amor
só viu a sede partida
Tanto mar em terra firme
Se despedindo da vida




Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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