domingo, 18 de outubro de 2009

Minha primeira playboy



Sabe aquele dia em que as coisas parecem inusitadas e que de repente uma avalanche de pensamentos inesperados se sucedem? Pois foi o que aconteceu comigo dia desses. Entrei num salão de beleza, algo que não faço mais de três ou quatro vezes ao ano e naquela indisposição de ficar horas intermináveis esperando o efeito de um produto químico devastador na minha cabeça, tive uma revista colocada em minhas mãos por uma das atendentes, uma revista que normalmente recusaria por conceito e não pré, mas que por inércia não retirei do colo. Na página deixada aberta havia uma entrevista com a escritora e apresentadora da GNT, Fernanda Young. Não consegui não ler, até porque do que eu já havia lido, visto e sabido da Young muito me agradava e “irritava” também. Sabia que a Young era de Niterói. Devo fazer um parêntese aqui para algo que dizem a respeito da cidade, pois sobre esse lugar tão aprazível falam, até mesmo os próprios niteroienses, que quase todos se conhecem ou ainda que alguém que conhece um outro alguém no final inevitavelmente vai conhecer ou esbarrar em você. Pensei se tratar de lenda urbana até me mudar há três anos para Niterói e comprovar por experiência própria que isso realmente era um fato. E para mim, aos poucos, Niterói foi tomando a imagem da Mãe - com toda sua bondade e controle. Lembro que depois do segundo mês morando em Niterói comecei a sentir uma certa claustrofobia, ao ar livre, ao perceber que saindo a mesma hora todos os dias conseguiria, mesmo sem desejar, encontrar com os mesmos estranhos de sempre. Lá pelo terceiro ou quarto mês algo se tornou comum. Eu me sentia na obrigação de cumprimentar aquele estranho não mais tão estranho assim e por ai vai. Mas eu sabia que Young era de Niterói porque havia conhecido duas ou três pessoas que conheciam a Fernanda e pasmem: que haviam convivido de muito perto com ela. E a literatura não tinha nada com isso!
No folhear das páginas da revista, interessei-me pela parte em que Fernanda dizia se identificar com a cidade de São Paulo, com aquele clima louco de frio, garoa e céu cinza... Fui invadida então por um sentimento único de nostalgia, eu que por vezes pensei em me mudar e que de certa forma quase morei em São Paulo. Eu que não conseguia me identificar com minha cidade de origem e até mesmo com Niterói e com tudo de tão agradável que ali havia e há. Falo do agradável mesmo, como suas borboletas amarelas e suas praias fantásticas. Talvez eu assim como Fernanda, ela que cresceu em Niterói, tivéssemos aquela tal aptidão para o caos. Devo confessar que fiquei um tanto feliz por Fernanda me isentar, ainda que pouco, da culpa que eu tanto sentia por não me adaptar à cidade. Ficava evidente pra mim, de tão estranha natureza, que o problema estava comigo e na minha veia anti-social, aquela dos que gostam da vadiagem reclusa do mundo interno e do anonimato da cidade. Que benefícios eu enxergava no anonimato daquela cidade caótica que tinha sido a São Paulo que eu vivi! Nasci no nordeste que desde sempre foi para mim o início, o verbo, o Pai sentado à cabeceira da mesa sempre pronto pra "ralhar". Cresci bom tempo numa área pobre da periferia do Rio. Alô alô Realengo, aquele abraço! E quando um irmão mais velho foi viver em São Paulo, nas idas e visitas a ele, me encantei pelo absurdo e pela gente e pelas avenidas da Sampa tão bem descrita e cantata por Caetano. A São Paulo que eu me identifiquei tinha fábricas e operários, sanduíches de mortadela, a massa do Bexiga, as feiras e os pastéis com calda de cana, os vermelhos da Liberdade, o Trianon e o ônibus elétrico que me levava pra Santana. São Paulo era meio pátria de todos, porto de todos, migrantes e imigrantes. E eu ia para as ruas e aconchegava meu olhar com toda aquela gente um pouco pálida e com um certo tom inesperado de pressa. Nas ruas da Sampa eu me sentia parte e todo. Foi amor a toda vista. Minha primeira noite de amor, é claro, foi em São Paulo. Até porque aquela cidade não era a cinta do pai nem os olhos astutos da mãe. Era o Homem desnudo, humano e impreciso. E não havia nada de mais transgressor e delicado que tirá-lo da trindade para deitar-se com ele. Era como uma poesia doce e ácida. Para mim - sem a fechada lealdade do clã, sem a alegria da turma do bairro, era o amplo e cinza horizonte sem margens. Poética. Garoética.
Tenho um amigo de poesia que me citou uma vez que não se pode escolher o lugar onde se nasce, mas talvez se possa escolher o lugar onde se possa morrer. Se eu puder escolher... Devo agradecer à Young que naquela tarde sem expectativas me revelou um negativo guardado de filme, uma parte que falava tímida dentro de mim. Soube pela entrevista que ela fará um nu para a playboy. A playboy que há tempos não desnuda um feminino que esteja para além de um corpo bonito - desculpem, de um corpão bonito. Desisti da química no cabelo e saí pelas ruas. Uma brisa quente tocou o meu rosto. Borboletas amarelas cruzavam. Uma cidade tem tantos espelhos... Quem sabe eu não me encontre num deles agora.

Patrícia Porto


Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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