sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Isso passa.



            Ética? Perdoe o leitor, é que às vezes, por tolice, confundo, vislumbrando determinados contextos institucionais, a palavra ética com algum tipo de “ismo”. E dei pra confundir também a palavra amizade com compadrio, troca de favores e sofás. E a palavra família confundo com nepotismo e churrasco. E a palavra confiança com corporativismo ou fisiologismo. São resquícios talvez da minha ignorância prévia ou tardia. Mas é que tenho curiosidades estranhas por saber o porquê de eu ainda conseguir ficar perplexa quando me dou conta que brasileiro não vota mais? Brasileiro faz fezinha. E dá pra fazer outra coisa, meu irmão? "Votar" definitivamente não é a paixão nacional! E quando é sugerido "o pense antes de votar" aparece um coxinha, misto de almofadinha com fascista, que te xinga de radical, comuna, esquizoide. José Murilo de Carvalho fala bem sobre o exercício do pensamento como “instrumento” de muita utilidade, mas tantas vezes usado pra cair no vão da História. Outra questão. Cadê o pensamento?! Será que estamos ficando assim tão pobres em produção intelectual que não dá pra ver emergir algo de realmente pensado? Cabeça de político? Bunda de bebê?
              Por que não assumir o lugar do risco de pensar? Da ousadia de falar o que pensa? Da tentativa criativa de mostrar um ser que fica indignado, calcula sim, e pensa por si mesmo? Deixa o pensamento solto! Esse "ser-eu", singular e fraturado que planeja, projeta e que se desafia sem o papelão ou papelote de ficar atrás da porta, da máscara social, da persona... Deixa fluir o pensamento!
                Na mitologia africana há um orixá que simboliza a mãe-guia das forças das tempestades, a guia que age segundo uma grande força que deixa à mostra as fraturas do terreno, da terra, que desfolha, desalinha tudo para trazer um novo tempo... Qualquer semelhança com o Caos? Pois é. O que estamos tentamos ocultar para não cuidar, olhar e compreender?             
           Dizem que os poetas, além de excêntricos, são exímios fingidores, e que o ego de quem escreve é um monstro devorador. Concordo sem recorrer à heteronimia. Mas pelo menos o poeta se expõe, expõe a cara pálida. E é claro que sei que em ambientes hostis precisamos acionar velhas defesas e que para isso vamos desenvolvendo táticas, estratégias, cartografias de sobrevivência. E também tem o velho e "bem" gasto conformismo. E "conformismo" é uma palavra que às vezes confundo com fingimento, mas que está aí e pertence ao léxico dos que teimam em dizer: "deixa disso". Porque tem o conformista e tem “gente que finge conformismo” para ritualizar a moeda de troca. "O próximo, por favor!" Tem um tipo de oportunista-conformista que finge ser coleguinha de todo mundo e é um tremendo hipócrita por convicção. Posso crer, inclusive, que esse tipo pode muito - tranquilamente - passar uma biografia inteira como um cínico-medíocre-mediano-conformista, se é que é possível ser tão traste assim. Sabe aquele jeitinho de ser... No caso do Brasil, o jeitinho é mais pra fazer. E a regra da etiqueta é guardar entre os panos e colocar panos quentes onde der.
           É claro que eu leio os jornais, é claro que tenho acesso às páginas da Internet e sei o que se passa na cidade do Rio de Janeiro e no Brasil. De Cabral a Cabral nós sabemos, pra usar um trocadilho bobinho, que vamos caminhando às avessas. Excesso de roupas do Rei. Excesso de Reis. Mania de Colônia. Da que fede. Mas as informações nos chegam a todo o momento, quase que pelos poros, entram em nosso órgãos vitais até respirarmos bastante lixo midiático automático e sensacionalista... Não dá pra demonizar os que nos deixam burros, reclamava um outro Porto; mas dá pra chamar de calhordas os políticos covardes que se espalham pelo país nesse sistema sócio-econômico cínico-medíocre-mediano-conformista “dos que levam vantagem em tudo”, nas instituições, nas redes de informação e sacanagem.
         Tudo bem que tudo vai mal. Mas aos cínicos de plantão podemos dizer que é possível guardar uma medida de crença, fantasia, utopia para outros tempos, a mesma crença que nos faz suportar a existência, o engasgo, e que nos faz também suportar um bocado de mazelas, seja na política, no congresso, nessa estrutura toda com metástase. E espero e devo crer que boa parcela da população brasileira quer mudanças, e tendo bastante esperança mesmo, que muita gente não compactua com esses “ismos” de ocasião. A gente acredita no Brasil e acredita como criança, apostando as fichas. Existem "fichas" ainda? Tudo bem. E para não dizer que não falei das metralhadoras, há uns tempos atrás, numa escola pública onde trabalhei, nós, professores e alunos fomos obrigados a fechar as portas por ordem do tráfico. Tente acertar. Alternativa A: notícia gasta sem qualquer efeito no receptor. Alternativa B: notícia velha que só serve para embrulhar peixe. Alternativa C: notícia renitente que não faz cócegas nos assentos de qualquer Parlamento.
        É... Sobre essa situação lembro que sofri um bocado, sensação de ficar no ponto zero ou morto, na desvalia, se é que me entendem. E para anestesiar minha parcela, no jogo do joão teimoso ou sem braço, lembro que fui de bolinha, placebo desses que no invólucro vem escrito que um dia “isso passa”.


Patrícia Porto