quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Cartas ao mar.

Anka Zhuravleva


Cartas jogadas ao mar?
Não teremos mais.
De tolas certezas se preenchem a vida dos que andam ao certo.
Agora sim,
o sal do perecível dos beijos,
do perecível do amor,
do mundo o filho descartado,
porque sei do dia o mal estar do domingo à noite,
a solidão da geladeira. A ração congelada.
Sei da estátua de um seio amputado,
da bomba anatômica apontada para o nosso umbigo. A perfeição.

Cartas jogadas ao mar?
De insônias passam seus dias, os lobos solitários.
Sei do ínfimo das margens,
(e por que tantas margens se a alma está só?)
(por que tantos parênteses?)
Sei da fragilidade do mundo,
porque fui do raciocínio lógico um afogado firme!
Sei do verso o vespeiro, o excluído, cortado sem dó.
A palavra que me apertou o gatilho. E partiu. Abandono.

Cartas jogadas ao mar?
Com poucas palavras deixei minha cidade.
Disse pra velha que voltava logo. Não voltei.
Sei por tantos do mapa que não segui,
das veias tortas do mundo, porque sou dele
o tempo bastardo e a falta de semelhança com a reta...
Sei do escudo de uso pra morte súbita,
A mão de mulher que acenou até o fim. Esperando.
Eu sei do cachorro esquecido no mato. Mãezinha.

Pat Porto

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Estações


O Homem é uma corda sobre o abismo.
Nietzsche



A gente perde o ônibus,
os óculos,
o trem das coisas.
Não o amor.
O amor se vai,
se esvai.
O coração é que abisma.

P.Porto/1995

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O quadro de Alice


"Ai daqueles que não morderam o sonho
e de cuja loucura
nem mesmo a morte os redimirá."

Paulo Leminski



"O poeta é um fingidor" disse Fernando Pessoa. Hoje ao me despir da capa que carreguei desesperadamente pela vida, me ocultando de viver o que é de natureza intensa, revi algumas velhas notícias. Porque novidades também envelhecem e morrem. E feito o poeta fingidor também finjo a dor que deveras sinto. Talvez porque tenho aprendido pouco sobre a realidade real, porque a imaginação, esta sim é que foi minha companheira. Pouco entendo dos falsos moralistas que oprimem a liberdade alheia dizendo sempre o que se deve vestir, ler, pensar, falar, escrever... Estranho os que não sabem fingir, os que dizem nunca mentir. Estranho os opressores. E admiro cada vez mais os patéticos, os bobos, os loucos, os inúteis, a gente toda que sabe sorrir e festejar a vida como se a beleza residisse numa alegria breve. Confesso sim: não sou boa de frases de efeito e não me saio bem com competidores, perco sempre. Faço isso desde criança e quando era obrigada a jogar damas, perdia, perdia, fazia sempre questão de perder e por isso ficava feliz. Talvez porque o meu vazio nunca precisara desse tipo de cheia. Amei alguns homens, ah, sim, mas sempre perdi também. Perdoem a comparação. Mas fazia como as damas, já saia perdendo de início. E ao final, meu vazio esvaziado de sentido, enchia-se de dores. Ao entardecer percebo que algumas pessoas são como rede e moinho, redemoinham. Precisam de vento e de pouca certeza, precisam de pouco, um pouco de sereno, um pouco de distância, um pouco de silêncio. Para compreender quem está fora do meu vazio, também preciso sair da roda, deixar que ele veja o meu estado e se entristeça da minha dor e sorria da minha alegria. Preciso me des-centrar para poder o olhar o outro com-paixão. Preciso desejar menos e sonhar mais. Estarei preparada para amar? Não, não há preparação que se justifique. Pego o meu guarda-chuva e entro no quadro de Alice. Alice sim soube amar como ninguém.




Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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