quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Cartas ao mar.

Anka Zhuravleva


Cartas jogadas ao mar?
Não teremos mais.
De tolas certezas se preenchem a vida dos que andam ao certo.
Agora sim,
o sal do perecível dos beijos,
do perecível do amor,
do mundo o filho descartado,
porque sei do dia o mal estar do domingo à noite,
a solidão da geladeira. A ração congelada.
Sei da estátua de um seio amputado,
da bomba anatômica apontada para o nosso umbigo. A perfeição.

Cartas jogadas ao mar?
De insônias passam seus dias, os lobos solitários.
Sei do ínfimo das margens,
(e por que tantas margens se a alma está só?)
(por que tantos parênteses?)
Sei da fragilidade do mundo,
porque fui do raciocínio lógico um afogado firme!
Sei do verso o vespeiro, o excluído, cortado sem dó.
A palavra que me apertou o gatilho. E partiu. Abandono.

Cartas jogadas ao mar?
Com poucas palavras deixei minha cidade.
Disse pra velha que voltava logo. Não voltei.
Sei por tantos do mapa que não segui,
das veias tortas do mundo, porque sou dele
o tempo bastardo e a falta de semelhança com a reta...
Sei do escudo de uso pra morte súbita,
A mão de mulher que acenou até o fim. Esperando.
Eu sei do cachorro esquecido no mato. Mãezinha.

Pat Porto