sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

O Largo do Boticário

Tocava a Ave Maria.
Foi assim que se casaram
entre ruídos e sirenes que
antigamente ela evitava.

De testemunhas os casarões,
ruínas invadidas, pareciam eles
fantasmas escondidos da multidão.

Ave Maria, cheia, cheia de graça, graça... Que graça?

De graça o pão,
desgraça o tempo que se esfarela na mesa. De graça.
O pai na cabeceira:
_ Meu filho, a vida cobra! É cobra! Re-cobra!


Ave Maria, cheia, cheia.... de grávida.

O bambuseiro caindo terreno,
o rio carioca na borda dá margem:
é um filete de pouca esperança
ameaça não existir
para além de nós.

Ave Maria, cheia, ceia
anjos indefesos atravessam a cortina
para antecipar a passagem do noivo:

Ele vem, bengala na mão,
precisando de anteparos para dizer sim.
O pai na cabeceira responde:
_ é tarde, filho, saibas:
a vida não passou desse Largo.

Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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