sábado, 2 de junho de 2007

Das vantagens de ser o Estrangeiro,


             Depois que a ligação caiu, demorei a dormir. Fiquei confusa. Mas eu sou confusa. Hoje o sol apareceu - entre nuvens ainda. Vou dar uma caminhada na praia, ver gente, ler o jornal... Sair um pouquinho desse confinamento e buscar lugares, ilhas de equilíbrio.
            Ontem fui a grupo de terapia para pessoas que sofreram abusos e vou percebendo que agora ouço muito mais que falo. Não tenho algo que me perturbe tanto quanto no passado, que me incomode tanto a ponto de me expor mais que o devido, nem mesmo o cão do passado, muito menos o cão do presente. Mas estar entre eles também me faz desvelar um bem maior. Não deixaria de ir só por egoísmo, pois ouvir o outro, os sons do outro, as palavras adormecidas entre durezas e necessidade de sobreviver... Isso tem me ensinado a buscar algo que talvez já morasse em mim: uma solidariedade silenciosa, respeitosa, um silêncio respeitoso. Sinto que posso ajudar ouvindo e que isso faz realmente diferença... E essa descoberta dá a minha vida uma significativa possibilidade de compreensão do outro, de escuta afetuosa. Vou ficando comedida, eu tantas vezes sem medida. Sei bem quanto nos custa dar um passo a cada dia, um de cada vez. Sei que ainda me confundo, tropeço, caio e levando. Não tem outro jeito, eu preciso levantar, levantar da queda, do escuro, do medo da morte etc. Mas cometo contradições. E como bem disse o Jurandir Freire, ás vezes pode ser muito tarde para perdoar, eu vou tentando perdoar quem me puxa para o abraço do afogado, e tento. Assim percebo que vamos reaprendendo com as nossas falências, significando esses vazios, diminuindo o volume do barulho interno.
           Então a gente que vive dentro da gente vai vivendo melhor, descobrindo novos tempos da fruta Vida. Tem um frase que eu gosto muito do Cyro dos Anjos que diz: "na verdade, as coisas estão é no tempo, e o tempo está é dentro de nós". A terra roxa que nos foi subtraída, deixando assim o solo seco sem água, vai criando uma vontade de plantio. É longo o tempo do plantio, é Cronos e Kairós. Plantar, trabalhar a terra, sujar as mãos e não se achar sujo por isso, mastigar o capim do tempo, cantar a música do trabalho, esperar que surja a vida e ser nele, o exercício de viver, o próprio movimento.
             Pensei em fazer uma viagem. Todos me dizem para fazer viagens, embora eu já faça muitas. A mente pode nos levar a tantos lugares, assim como pode nos tirar de lugares de imobilismo. Mas viajar é olhar, viajar é o olhar do estrangeiro, é tirar férias do cotidiano e suspender-se como um trapezista, olhando do alto em seu balanço magistral. A melhor vantagem de ser estrangeiro é olhar e ver, olhar e não ver. Uma liberdade de arbítrio que te ensina e que dilui em pequena porções as versões originais. Logo sua identidade singular se amplia e se estranha, e se você ficar se verá para sempre como o Estrangeiro de si mesmo, por mais que se fixe, seu lugar é mover-se. O de "onde você veio" ficará num transe, colado ao "onde você está".  Quando mais ficar mais será Estrangeiro, se ficar muito pouco, apenas turista.
             Numa de minhas viagens para fora me deparei com o pensamento sobre uma preservação de  identidade coletiva que corre contra a aculturação galopante desse mundo cada vez mais globalizado - "tão perto e tão longe", conectados e ao mesmo tão distantes do hoje e do que foi ontem. Tento entendê-los por um lado, mas não sei se também "reter" o quase inevitável: o novo do mundo- não pode vir a ser "o não querer viver a/na diversidade”. Afinal, viver com o(s) diferente(s) é adaptar-se a viver constantes estranhamentos, transformações. Acho que o velho mundo colonizador não se preparou para isso e "naturalmente" (sem movimento) preserva se preservando, talvez com aquele medo de ser invadido por velhos (também) - fantasmas. Acho que os imigrantes históricos, assim como os migrantes são pela natureza Estrangeiros. Estão em trânsito permanente, por isso se agrupam como quisessem preservar o perdido, o elo perdido. E vivem em saga.
               Nas minhas viagens subterrâneas tenho aprendido desses sentidos com o outro, esse outro que diz quem eu estou sendo. Tenho mais compreensão que compaixão pela menina sofrida da minha infância, menos perdão e mais afeição. No grupo de terapia também somos todos Estrangeiros, cada qual com suas próprias viagens a narrar. E a narrativa ali renasce todos os tempos da Terra, as notícias chegam de lugares, os mais longínquos. As narrativas são veículos de cura e temperança. A voz que me acalanta é a voz que caiu comigo no mesmo precipício, mas diferente de Orfeu, por vezes voltamos com a nossa criança viva, respirando. E esse respiro é voz, é a narrativa desse Estrangeiro que sempre acaba de chegar, voltar e olhar.    
               Na porta de entrada da Terra Estrangeira colei um cartaz: Tenha uma boa estada nesta morada e aproveite bem o que for sentido... Vamos lá fora ver o mar?

quinta-feira, 31 de maio de 2007

AVOE


Fiquei velha antes do tempo
Fiquei velha depois das horas
a ponto de hoje restar-me
apenas esses restos de noite ou de dia
restos de palavras enclausuradas
como irmãs rezando terços

E tenho nas mãos algemas etéreas
e olhos de gaveta para guardar o mundo
Por isso hoje só me restam poucos
versos engatilhados
e dúvidas se serei
na algibeira da porta: a tal ventania da morte

Meus fantasmas ali esperam-me
com seus tolos afagos

Volto-me faminta a revolver a terra
onde enterrei os fatos e as mentiras
e tenho poucas mãos para o Ato

Preciso então ir mais fundo
e me fartar desse solo triste
até a exaustão
Preciso chorar todas as lágrimas de dentro,
emborcar o corpo,
dobrar e desdobrar o dorso
para libertar de vez as asas
que guardei nas coxas,
desaprendidas do voo

ressaca


Estou triste com o que percebo ao meu redor. Como sou ingênua! Acredito tanto nas pessoas, acredito nas verdades que me dizem, acredito nas mentiras que me dizem. Acredito no afeto, na esperança, na justiça... E acho que não posso mudar isso em mim, também não posso mudar o outro, não posso mudar o mundo, as injustiças do homem, as injustiças do mundo. Nesse sentido sou sim muito ingênua, amplamente leal à minha fé no próximo. Ou talvez seja quixotesca demais, lutando em vão, gastando toda energia. Vou dormir, esquecer, tentar esquecer, tentar conviver melhor com as falhas humanas – as grandes e as pequenas. As minhas, sobretudo.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Carta de amigo


Para R...,

Vi as fotos de Bonito. Adorei assim como adoro receber suas cartas. É como me banhar num rio calmo - “pro fundo” como os sofrimentos do homem – diria o Rosa, rios volumosos como esses que aparecem nas imagens. Fico toda quente quando olho e chego a pensar que parte de mim também é meio rio ou é um rio ao meio. Essas histórias que você anuncia, as leituras que você fez... Fico me banhando de palavras que encantam pela pessoa, pelo amigo que me oferece rosas e moinhos nesses tempos de individualismos e apegos tão materiais. De tantos absurdos do não sentir. Mas sei que somos “isto e aquilo”. Já reparou como nossa História foi sempre violenta, mas que mesmo durantes as guerras, o sol tinhosamente brilha e há crepúsculos e gente fazendo amor?
Quando leio suas cartas, fico sempre cheia de graça. Uma brincadeira com o litúrgico, já que você diz que abuso. Tive formação cristã, estudei em colégio de freiras e quis ser freira por um tempo significativo. Parte da minha compreensão de mundo veio de lá também e nunca vou tentar menosprezar o que aprendi, até porque negar guarda em si o afirmar, você sabe disso. Mas divino, meu caro, é realmente ter vivido o mundo e a convivência com o outro. E eu fico cheia, lua, viagem de rio inavegável – pois é mergulho de dentro-fora. E me banho desbravando os rios como as carrancas no São Francisco.
Quanto ao amor? Sim, tenho medo de gostar para além, mas não tem jeito – me esparramo pelo chão. Como era vidro e se quebrou, por hoje ando cansada de amores líquidos. Acabei de ler o Bauman, recomendado por você. Sou uma boa moça. Então penso em recuos, dançando no ar como borboletas amarelas (as mais comuns) ou pequenos bichinhos voadores. O inseto na flor. “Ela me quer. Ela não me quer. Ela só quer o meu mel.” É isso: sou um bicho voador e desde de que me entendo por gente é que venho aprendendo que a liberdade é um tanto ameaçadora. Liberdade pra quê? Pergunto via Irmãos Karamasov - que nós lemos. Para que serve um punhado de liberdade? Está no discurso do grande inquisidor. Que absurdo esse Dostoievski! Quando leio sinto desejos de morrer de espasmos. Eu o amei absurdamente desde a primeira vez que li “Crime e Castigo”. Amor platônico e dialógico. Sou masoquista? Talvez, já que sempre me fere, arranhando os sentidos e eu gosto, eu gosto.
Mas saiba que eu, esse ser que sofre e escreve, que mais sofre que escreve, só entende a liberdade no amor. Os homens que amei se assustaram muito comigo, sempre incrédulos. Poucas avenidas, muitas esquinas. E não me preparei devidamente para amores frívolos, fúteis ou autoritários. Amores passionais, fragmentados ou globalizados. Tudo muito contemporâneo pra mim, se ainda estou com cheiro de pólvora do século passado nas mãos. E aí me pergunto: como compreender alguém que se descortina em mundos internos com camadas de palavras, de lugares indefinidos, de vermelhos próprios de um existir amoroso. Tenho um amor doido e doído pelo mundo e amo meio que desmedida, sangrando. Tanto amor.
Nós mulheres sangramos. Respondendo a sua pergunta, sim, não foi possível, mas poderia e gostaria também de ter amado aquela pessoa que me amou, talvez mais de perto – para compreender esse “ser” para além da mulher que sou e me tornei. Embora sensíveis, como você bem diz, talvez generalizando, as mulheres que conheci e conheço me são ainda incógnitas e acredito que certamente há rigidez também no que se entende como mundo feminino. Mas meu coração sempre esteve aberto. Enquanto isso, vou gostando sempre e mais dos velhos e das crianças, extremos vitais de homens e mulheres. Sabem dizer não quando todos querem ouvir sim, são limítrofes e Kairós. Estão próximos demais das parcas e de seus fios a tecer ou cortar. Ressonância de Heidegger, você dirá. E eu lhe responderei que sim, é o tempo do retorno pródigo. Pois estamos sempre voltando para o poço, disse Raduan. Talvez o voltar seja então mais importante que o lugar.
Talento para escrita? Escrita feminina? Não sei, nunca me coloquei no lugar dessa crítica sobre mim mesma. Deixo isso para quem o quiser fazer. Não me importo com rótulos, não me importo com enquadramentos. Escrevo para sobreviver ao que não posso modificar com ações, sendo escrever também ação. Escrevo para não enlouquecer o outro em mim, para ter outras paragens e perspectivas, burilando a palavra talvez no meu corpo de linguagem. Para realizar as viagens que não fiz. Gostaria de escrever muito mais. A escrita ficou com os intervalos.
Sim, meus amigos gostam, se emocionam, querem ler mais. E perguntam: quando vai publicar seus poemas? Essa gente, eu digo sem dúvida, é de uma beleza incrível. Fico sempre encantada por eles, são cheios de juventude os amigos. Sobre publicar, ainda não sei, acho tão complicado, não sei como lidaria com a indiferença, não sei lidar com a indiferença. Então não sou muito ativa nesse sentido. E sempre tenho dúvidas sobre a maturidade do que escrevo e assim vai. Mas quando pessoas como você me falam desse possível, me entusiasmo. Quero pensar sobre. Mas daí a pouco, posso esquecer.
"Ninguém pode escolher onde nascer, mas pode escolher onde morrer”. Tenho andado com essa frase na cabeça. Sabe, quando você pressente que algo grande vai acontecer na sua vida, algo tão intenso, que por impossibilidade de sentidos mais apurados, torna-se impossível antever com exatidão? Tenho isso às vezes. Posso revelar agora, R., pois sinto confiança em mim. Acho que um dia vou voltar pra outro lugar, tenho alimentado esse desejo com pequenos pedacinhos de pão. Acho o Rio de Janeiro lindo, mas os cariocas me são fugazes demais, o que não é ruim, de forma alguma. Eles são ternos, afetivos e festivos na sua volatilidade relacional. E os inocentes do Leblon não sabem mais de mim. Eu prefiro ainda os que sabem ficar, continuar, fixar moradia, sabe, aqueles que moram dentro da gente e por isso criam saudades até no que não podemos viver deles. E ainda penso conhecer alguns interiores, se houver tempo e se o desejo se esticar de fato. O sal da terra como naquela canção. Pra casa? Talvez por alguns dias. Meu pai mora lá. Dei pra sentir medo de não vê-lo mais vivo ou o contrário. Isso me deu porque percebi horrorizada que não lembro mais do rosto dele. Não tenho sequer uma foto. No fundo, fui e sou sempre uma retirante aqui. Sinto-me em constante êxodo.
E se acontecer, estando no Mar, quando a minha maré encher, espumando branca, eu cheia de graça, de frutos e ventos, vou me lembrar que um dia conheci você, meu amigo, nas margens de um Rio denso e bonito – como o Bonito da foto. Que lembrança boa de se levar na alma para os sempres e confins, não?
Obrigada por suas palavras. Deixar de responder por vingança? De certo poderia. Mas já lhe amo o suficiente para entender vazios.

Beijos, meu amor, meu amor de amigo,
Patrícia.
Nos demais - eu sei, qualquer um o sabe - o coração tem domicílio no peito.
Comigo a anatomia ficou louca. Sou todo coração.
Maiakovski

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Partilhas?


“(...) O olhar de Gregor dirigiu-se então para janela e o tempo turvo - ouviam-se gostas de chuva batendo no zinco do para-peito - deixou-o inteiramente melancólico” (p.8)

“(...) Certa vez, de manhã cedo - uma chuva violenta batia nas vidraças...”. (p.68)

Kafka



Partiu com sua farsa trágica
Partiu sem dizer quantas voltas daria ao mundo
e não voltou.
Partiu com as minhas lágrimas, as embutidas,
e indiferente ficou ao ritual que menos fere.
Eu que já amo o mundo de forma tão doída.
Pra quê?
Pássaros podem até sentir,
mas têm coração?
Ou eles só sabem da pretensão de chegar?
Observo sua história,
mas pássaros não têm história. Têm?
Não, são como anjos.
O mundo em preto e branco.
Sigo lúcida estradas de volta
improvisando sentidos para não lamentar,
farejando memórias tumultuadas, deixadas
acolá e aqui,
feito indícios de um mal que me lembro pouco.
Mau tempo.
Mau uso da natureza. A humana.
Oh, passarinho sem coração.

Ora,


Amo em ti
tudo que não é ode
e tudo o que me dev ora
e que não se pode dever orar.

Odeio o que
em ti recl amo
h eras
h oras

o que não sendo sim
é sem (pre) ce
e não

e........... s........ o........... p................ r.......................... o



(Da dura poesia concreta de tuas esquinas, da deselegância discreta de tuas meninas...)


Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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