sábado, 16 de junho de 2007

O encontro com o barqueiro


_ Vem, moça, corre a envelhecer
que te direi quem és.
Assim disse o barqueiro. E mais:
O que trazes aí neste cesto?
Nenhuma moeda?
Só palhas de solidão?
Foi isto então que acumulastes
do rio?
Pobre moça, intempestiva.
Por dentro, adulação de amanhãs
e por fora
o largo preço da vida.
Molhaste tuas coxas no
quente e na fonte
e ainda assim quiseste gritar e chorar,
tirando o sujo do corpo
a descobrir que era pouco
a tua paga.
Quis olhar a existência
e o que era estreito se fechou.
Moça das beiradas,
nem percebeu que o sujo estava na água
e que o pecado é uma invenção
que nunca se quis partilha.
Contentou-se apenas em saber se era dia
ou se era noite a tua vida,
Se era começo, se era fim.
“Bendito Serafim,
Bendito Serafim,
Salve o mal que há em mim!”
E cegou-se sem pregos
e deitou-se nos rochedos
com o frio da traição,
com os cortes das ruas
sem ágoras, sem preces,
sem anunciação.
E só depois de tanto alarde o quis saber:
Quantas mulheres viveram dentro de mim? – diga agora mensageiro.
Quantas desistiram?
Quantas voltaram?
Quantas beberam e se deitaram com Baco?
Ouço suas vozes e suas intemperanças nas saturnais...
E sei de repente de uma coisa entre tantas que esqueci – por atropelo:
Todas essas mulheres viveram violentamente seus preceitos!
Todas fizeram juntas a razão da minha fogueira!
E não são sombras minhas...
Não são minhas essas árvores.
Ao final de tudo, disseram-me que estarão pálidas,
e que todas elas, aninhadas, quietas,
preguiçosas, sonâmbulas, retornarão
às cadeiras de balanço dos outonos...
Moças também, minhas irmãs, correntes de um rio,
de um Rito do tempo
ao cair das folhas...

_ Leva o cesto, seu barqueiro,
leva o tempo
que eu lavo o resto.

_ Pobre moça, lavadeira,
pega o teu cesto,
consola-te de margens
que nem o teu trabalho
nem tua modéstia
e nem a tua venda
me pagam a tua queima.

Patrícia Porto