terça-feira, 12 de junho de 2007

Carta de tanto amor

Meu amor,
Eu mudei tanto que nem percebi tamanha a fúria dos acontecimentos. Mudei de casa, de rua, de cabelo, de trabalho, de trapaças contra o tempo. Fico cada vez mais antecipada, pensei que maturidade fosse aquele outro nível de consciência. Nada disso. E minha vontade de “ter menos” cresce cada vez mais. Quero ter menos dinheiro e mais simplicidade pra olhar a vida, quero comprar menos coisas sem utilidade, quero fazer mais amor e menos guerra. Também mudo por incômodos e às vezes por ansiedade. Sou da turma que veste a camisa por causas nobres e despe por causas não menos nobres. Tudo isso tem sido os meus dias frente minhas novas mudanças. Minha nova velha casa tem uma sala amarela, uma varanda sem grades, um muro baixo, uma árvore, uns pombos, passarinhos que cantam e cagam na minha janela, não necessariamente nessa ordem. Se estou feliz? Sim, mas inconformada também - com os silêncios – meus e seus – e inconformada com o excesso de vozes que desconheço a cada dia. Sinto falta e desejo da sua voz, que seja escrita, se não falada. Não escrevo minhas demasias talvez por uma boa dose de constrangimento. Aquela dose em que ao nos serenarmos, nos orvalhamos, suaves, mas sedentos de mais. Acho que nosso silêncio é a chuva na madrugada. Não a testemunhamos, mas ao romper os dias, somos noticiados que a terra foi encharcada de água e vida. Água morta, sanha de renascimento. Seja essa, pois a nossa necessidade: não nos abraçarmos mais (s)em palavras.

P.