quinta-feira, 31 de maio de 2007

AVOE


Fiquei velha antes do tempo
Fiquei velha depois das horas
a ponto de hoje restar-me
apenas esses restos de noite ou de dia
restos de palavras enclausuradas
como irmãs rezando terços

E tenho nas mãos algemas etéreas
e olhos de gaveta para guardar o mundo
Por isso hoje só me restam poucos
versos engatilhados
e dúvidas se serei
na algibeira da porta: a tal ventania da morte

Meus fantasmas ali esperam-me
com seus tolos afagos

Volto-me faminta a revolver a terra
onde enterrei os fatos e as mentiras
e tenho poucas mãos para o Ato

Preciso então ir mais fundo
e me fartar desse solo triste
até a exaustão
Preciso chorar todas as lágrimas de dentro,
emborcar o corpo,
dobrar e desdobrar o dorso
para libertar de vez as asas
que guardei nas coxas,
desaprendidas do voo