quarta-feira, 9 de maio de 2007

Homem e pássaros

Ele vinha todas as noites e se deitava em minha cama. Era um homem forte, rude até, mas estava perdido naquela cidade do sul. E olhava pra mim quase que sempre desaprovando caminhos. Vai pra onde, mulher?

Passaram-se tantos anos até que ele se acostumasse à minha presença nas ausências que fazia de mim, até minha roupa de solidão encurtou. Minha quase viagem ele já até gostava. Assim me queria de longe, o Zé, bem quisesse ou não. Quis tentar ajudar, mas aquele homem foi aprendendo a falar uma tão língua difícil que eu só não conseguia decidir. Não era língua de gente ou sábio. Parecia mais assobio. E passou a se debater muito durante a noite, sentia um pouco de falta de ar – Então subia até o telhado para olhar as outras casas de cima, às vezes entrando em algumas sem ser mal percebido. Mas pela manhã voltava a dormir, inexplicavelmente, meu Zé.
Um dia decidi: pra que ter má sorte? Abri a porta para que ele saísse, meu homem de tão pouca fé. Mas ele apenas acocorou-se no sofá numa posição de bicho. Pra que isso, Zé? Que te deu homem?

Então vi – de repente – duas asas abertas sobre seus ombros, duas asas enormes. Aproximei minhas mãos do dorso dele, tocando penugens com tato, dor de certeza. Fechei a porta. Abri as janelas todas pro vento do norte. Vá se embora, Zé! Demore não.

Deitei na cama com ele – talvez pela última vez. E só então pude também revelar:

Olha, Zé, eu também tenho asas.