quarta-feira, 30 de maio de 2007

Carta de amigo


Para R...,

Vi as fotos de Bonito. Adorei assim como adoro receber suas cartas. É como me banhar num rio calmo - “pro fundo” como os sofrimentos do homem – diria o Rosa, rios volumosos como esses que aparecem nas imagens. Fico toda quente quando olho e chego a pensar que parte de mim também é meio rio ou é um rio ao meio. Essas histórias que você anuncia, as leituras que você fez... Fico me banhando de palavras que encantam pela pessoa, pelo amigo que me oferece rosas e moinhos nesses tempos de individualismos e apegos tão materiais. De tantos absurdos do não sentir. Mas sei que somos “isto e aquilo”. Já reparou como nossa História foi sempre violenta, mas que mesmo durantes as guerras, o sol tinhosamente brilha e há crepúsculos e gente fazendo amor?
Quando leio suas cartas, fico sempre cheia de graça. Uma brincadeira com o litúrgico, já que você diz que abuso. Tive formação cristã, estudei em colégio de freiras e quis ser freira por um tempo significativo. Parte da minha compreensão de mundo veio de lá também e nunca vou tentar menosprezar o que aprendi, até porque negar guarda em si o afirmar, você sabe disso. Mas divino, meu caro, é realmente ter vivido o mundo e a convivência com o outro. E eu fico cheia, lua, viagem de rio inavegável – pois é mergulho de dentro-fora. E me banho desbravando os rios como as carrancas no São Francisco.
Quanto ao amor? Sim, tenho medo de gostar para além, mas não tem jeito – me esparramo pelo chão. Como era vidro e se quebrou, por hoje ando cansada de amores líquidos. Acabei de ler o Bauman, recomendado por você. Sou uma boa moça. Então penso em recuos, dançando no ar como borboletas amarelas (as mais comuns) ou pequenos bichinhos voadores. O inseto na flor. “Ela me quer. Ela não me quer. Ela só quer o meu mel.” É isso: sou um bicho voador e desde de que me entendo por gente é que venho aprendendo que a liberdade é um tanto ameaçadora. Liberdade pra quê? Pergunto via Irmãos Karamasov - que nós lemos. Para que serve um punhado de liberdade? Está no discurso do grande inquisidor. Que absurdo esse Dostoievski! Quando leio sinto desejos de morrer de espasmos. Eu o amei absurdamente desde a primeira vez que li “Crime e Castigo”. Amor platônico e dialógico. Sou masoquista? Talvez, já que sempre me fere, arranhando os sentidos e eu gosto, eu gosto.
Mas saiba que eu, esse ser que sofre e escreve, que mais sofre que escreve, só entende a liberdade no amor. Os homens que amei se assustaram muito comigo, sempre incrédulos. Poucas avenidas, muitas esquinas. E não me preparei devidamente para amores frívolos, fúteis ou autoritários. Amores passionais, fragmentados ou globalizados. Tudo muito contemporâneo pra mim, se ainda estou com cheiro de pólvora do século passado nas mãos. E aí me pergunto: como compreender alguém que se descortina em mundos internos com camadas de palavras, de lugares indefinidos, de vermelhos próprios de um existir amoroso. Tenho um amor doido e doído pelo mundo e amo meio que desmedida, sangrando. Tanto amor.
Nós mulheres sangramos. Respondendo a sua pergunta, sim, não foi possível, mas poderia e gostaria também de ter amado aquela pessoa que me amou, talvez mais de perto – para compreender esse “ser” para além da mulher que sou e me tornei. Embora sensíveis, como você bem diz, talvez generalizando, as mulheres que conheci e conheço me são ainda incógnitas e acredito que certamente há rigidez também no que se entende como mundo feminino. Mas meu coração sempre esteve aberto. Enquanto isso, vou gostando sempre e mais dos velhos e das crianças, extremos vitais de homens e mulheres. Sabem dizer não quando todos querem ouvir sim, são limítrofes e Kairós. Estão próximos demais das parcas e de seus fios a tecer ou cortar. Ressonância de Heidegger, você dirá. E eu lhe responderei que sim, é o tempo do retorno pródigo. Pois estamos sempre voltando para o poço, disse Raduan. Talvez o voltar seja então mais importante que o lugar.
Talento para escrita? Escrita feminina? Não sei, nunca me coloquei no lugar dessa crítica sobre mim mesma. Deixo isso para quem o quiser fazer. Não me importo com rótulos, não me importo com enquadramentos. Escrevo para sobreviver ao que não posso modificar com ações, sendo escrever também ação. Escrevo para não enlouquecer o outro em mim, para ter outras paragens e perspectivas, burilando a palavra talvez no meu corpo de linguagem. Para realizar as viagens que não fiz. Gostaria de escrever muito mais. A escrita ficou com os intervalos.
Sim, meus amigos gostam, se emocionam, querem ler mais. E perguntam: quando vai publicar seus poemas? Essa gente, eu digo sem dúvida, é de uma beleza incrível. Fico sempre encantada por eles, são cheios de juventude os amigos. Sobre publicar, ainda não sei, acho tão complicado, não sei como lidaria com a indiferença, não sei lidar com a indiferença. Então não sou muito ativa nesse sentido. E sempre tenho dúvidas sobre a maturidade do que escrevo e assim vai. Mas quando pessoas como você me falam desse possível, me entusiasmo. Quero pensar sobre. Mas daí a pouco, posso esquecer.
"Ninguém pode escolher onde nascer, mas pode escolher onde morrer”. Tenho andado com essa frase na cabeça. Sabe, quando você pressente que algo grande vai acontecer na sua vida, algo tão intenso, que por impossibilidade de sentidos mais apurados, torna-se impossível antever com exatidão? Tenho isso às vezes. Posso revelar agora, R., pois sinto confiança em mim. Acho que um dia vou voltar pra outro lugar, tenho alimentado esse desejo com pequenos pedacinhos de pão. Acho o Rio de Janeiro lindo, mas os cariocas me são fugazes demais, o que não é ruim, de forma alguma. Eles são ternos, afetivos e festivos na sua volatilidade relacional. E os inocentes do Leblon não sabem mais de mim. Eu prefiro ainda os que sabem ficar, continuar, fixar moradia, sabe, aqueles que moram dentro da gente e por isso criam saudades até no que não podemos viver deles. E ainda penso conhecer alguns interiores, se houver tempo e se o desejo se esticar de fato. O sal da terra como naquela canção. Pra casa? Talvez por alguns dias. Meu pai mora lá. Dei pra sentir medo de não vê-lo mais vivo ou o contrário. Isso me deu porque percebi horrorizada que não lembro mais do rosto dele. Não tenho sequer uma foto. No fundo, fui e sou sempre uma retirante aqui. Sinto-me em constante êxodo.
E se acontecer, estando no Mar, quando a minha maré encher, espumando branca, eu cheia de graça, de frutos e ventos, vou me lembrar que um dia conheci você, meu amigo, nas margens de um Rio denso e bonito – como o Bonito da foto. Que lembrança boa de se levar na alma para os sempres e confins, não?
Obrigada por suas palavras. Deixar de responder por vingança? De certo poderia. Mas já lhe amo o suficiente para entender vazios.

Beijos, meu amor, meu amor de amigo,
Patrícia.
Nos demais - eu sei, qualquer um o sabe - o coração tem domicílio no peito.
Comigo a anatomia ficou louca. Sou todo coração.
Maiakovski

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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