segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Oclusiva, mas limpinha





Encontre as palavras.
Procure as palavras.
Não há coerência nisso. Atire nas palavras.
Sim. Uma ou duas pedrinhas.
Manche de sangue a mureta.
Um pulso cortante. Um coração à mostra.
Caia de boca na língua.
O veto é branco. Limpe a boca da gordura.
Acenda um pavio e inaugure um movimento.
O dos descentrados. O dos degredados.
O dos sem panela pra cozer. Convide sua amiga morta pra dançar.
Seja rejeitada: uma, duas, três vezes ao dia. Não morra de inanição.
Publique seus dedos nas trincheiras. Veja nos olhos do outro a apatia.
Os mesmos olhos que correm traidores e mesquinhos para os versos de uma jovem,
a que acaba de passar no freio do tempo - de causas floridas.
Atire-se da prancha sem pelica.

Patrícia Porto

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Contra a extinção do lobo mau.




Quando é que alguém percebe que se tornou uma pessoa raivosa e ressentida? Quando é que dá o estalo? Logo aquela pessoa que também amava os animais... Agora está ali, lidando com velhos almanaques do bom-mocismo ou com a nova patrulha dos que fazem marchas pelos bons costumes, e geralmente os afortunados que mais “lucram” com o extermínio dos lobos maus. Todos conhecem bem as analogias que se fazem sobre o cão bom e o cão mau, o lobo bom e o lobo mau. Como se os cães, os lobos, os animais todos pudessem dominar o seu lado instintivamente mau ou como se - simplesmente, pudessem jogar para debaixo do chão, da terra, atrás do espelho, a desordem do mundo interno, o instinto, a sombra do avesso. Por que extinguo? 

Uma pessoa me falou numa consulta médica: “Você tem dois lobos dentro de você. Um é bom e o outro é mau. Você é quem escolhe qual deve e quer alimentar e qual você deve matar de fome.” Achei horrível toda aquela pílula de lugar comum, de veto surrado e hostil. Se alguém receita remédio tarja preta para ajudar a matar o lobo mau de fome – é porque, certamente, nunca entrou na sua própria floresta ou loucura. Afinal sabemos que a normalidade é uma patologia inventada pelo homem branco. E quem mata o lobo mau nunca esteve do outro lado de si mesmo e nunca atravessou sua própria fronteira para se olhar no espelho em enigma, no Lobo de dentro, a tal corda sobre o abismo de Nietzsche. Quem repete frases feitas sem pensar pode muito bem receitar sem pensar; e daí o pior: diagnosticar sem pensar. 

Ouço numa entrevista que os novos pesquisadores da neurociência se esforçam dia-a-dia para desvendar um pouquinho mais do misterioso cérebro humano. Nosso cérebro e suas capacidades parecem assim - tão misteriosas quanto o que há de misterioso na descoberta das novas galáxias. O universo se expande e dilata, toma formas amolecidas, fragmentárias, enigmáticas e criam conexões, e fazem o antes inimaginável ou impossível - imaginário e real. E bem à nossa frente o tempo se dilata, quantifica e qualifica. Há Quantidade. O Quanto. E o Quântico. E tudo aquilo que desconhecíamos passa a ter uma imensa oportunidade e flexibilidade de qualidade de expansão. E se expande.

Eu que também amo os animais e também amo a física do universo - não entendo nada da prática humana de matar de fome os lobos maus. Ou ainda não entendo nada de dizer que a pior raiva humana é a raiva de um cão. Olho o meu cão, nunca vi ser mais bondoso e carinhoso. Domesticamos os nossos cães que latem e se comunicam o tempo todo conosco. Boris Cyrulnik diz que um cão selvagem ou um cão que acompanha um caçador quase nunca late, pois não há comunicação necessária no ofício de caçar outros animais ou no exercício de ser presa e predador na floresta.

No belíssimo livro de Clarissa Pinkola Estés, “Mulheres que correm com os lobos”, somos instigados pela leitura densa do texto, a desvelar a nossa relação com a floresta, e dessa relação somos também instigados a refletir sobre os nossos medos, angustias, as nossas fragilidades, nossas previsibilidades, precariedades. Impossível não se identificar. Num desses contos me vi perdida e achada na imagem da Mulher-lobo, da mulher que guardava ossos como relíquias da vida, como histórias, cicatrizes do mundo, registros da passagem da humanidade pela floresta. La Loba, a criatura. Há em “La Loba” um pouco de “Baú de Ossos” de Pedro Nava, os ossos dos mortos, o baú que evoca os desaparecidos, as casas mortas, numa arqueologia interminável, numa busca por desvendar-se pelas memórias, pelas reminiscências dos homens e das coisas naquilo que nos olha. 

Gente muito “do bem”, aparentemente do bem, é gente que aprendeu a calar a sua tempestade antes que apareçam os ventos. Quando vejo alguém nessa categoria presumo que o ansiolítico raspou aquela natureza até o fim do tacho. E sinto que o insosso do vazio impera mais que pondera. Como não é nunca da minha conta, apenas penso um pouco entre tantos outros pensamentos e sigo adiante. É claro que já me perguntei por que não funcionou comigo. E até já invejei essa gente com sugestão de paisagem eterna, como uma televisão passando, estaticamente - campos floridos com criancinhas correndo feito anjinhos. E ainda admirei gente com expressão de aquário - peixinhos coloridos naquela pequena amostra de ambiente devidamente controlado. Mas com o tempo passou e eu já me conformei. Aprendi, numa surpresa inconveniente, a gostar de algumas das minhas rasuras, ranhuras, essas coisas de gente fraturada pela vida. Não vou dar conta dos anjinhos correndo na estação das flores. Isso nunca. Já desisti.

O que fica então para alimentar? Não, não, me recuso a matar meu lobo mau! E me entrego aqui mesmo - ao dizer para quem está lendo. Saiba. Saiba disso. Eu tenho um lobo mau. Mas se eu não estiver completamente errada, você também deve ter o seu, não sei se machucado ou morrendo de fome, mas tem. E uma sensação me diz que quanto mais tivermos essa noção, com maior zelo trataremos as delicadezas do outro, assim como também entenderemos melhor as falências humanas. E se a corda puir, sabe o abismo? É o misterioso. Uma casa enigmática cheia de ossos. Uma floresta com lobos, cães, meninas, meninos selvagens correndo entre sombras e árvores. É mais embaixo mesmo. E é sempre melhor descobrir, olhar por si mesmo. Pra si mesmo.

Patrícia Porto

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Para os homens de bem dos últimos dias

Nesses dias avulsos de tempestade
ouvi dizer que homens invadiram Creta
armados até os dentes homens mataram pequenas espécies da ilha
Não havia Jacó nem Maomé para salvar os seres inferiores,
apenas o frio congelava a água nascente
os cemitérios estavam cobertos de gelo
nuvens carregavam sinistros
jornais anunciavam um carnaval fora de época

mulheres choravam sobre cruzes
assassinos comiam sorvete americano pensando ser alemães
o golpe era de facão
a poesia não fazia mais política
só o sexo dos anjos importava
mas Safo estava livre em outra órbita
descansando de tanto ópio

nesses dias insanos de tempestade
a acidez do estômago era tumor
flagelos de pessoas andavam insones costurando notas falsas
um bolo subindo pro céu da boca ferida
o tempo se escasseando
como filho de uma nova ordem cíclica: vingar-se

a lei confirma a tolice e o engano
o corpo é o único lugar de paragem
sem religião a mente é o templo do viajante
a cabeça uma dona de cais

inquietação exige sempre ferramentas de oficina
mas o espírito é coisa do diabo

Patricia Porto




sábado, 7 de janeiro de 2017

Ventania



no tempo do almoço
há uma festa entre fantasmas:
a sirene, o tiro no asfalto
minhas pernas bambas
avulsas, uma a uma
soltas no ar
- balão de pernas e oxigênio
para os lacrimogêneos

a vista turva
porque o tempo embaça
e estilhaços nos olhos
partem meu coração

não sou um ser humano cínico
nem ímpar

Patricia Porto

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Ainda é cedo, Amor.



Sobre o Ato Terrorista em Campinas.

Ainda é cedo, amor...

           Assim como na bela música do Cartola diria que "ainda é cedo, amor...". Há muitas camadas neste caso. E essas camadas revelam muito do que nós já éramos e do que estamos excretando como sociedade. Relacionamentos abusivos estão na ordem do dia. Não se restringem aos casais, mas se ampliam às pessoas em geral, às relações como um todo, num complexo. No nosso trabalho mesmo, quantos relacionamentos abusivos são mantidos - e por décadas? Quantas doenças nos causam? E o excesso de informação? A enxurrada cotidiana de notícias manipuladas? Todo o barulho e mal estar causado pelas mídias sociais que pouco acrescentam. E se tivermos uma arma na mão? Nossa história é uma história de escravidão, humilhações constantes, opressão, de subserviência, de ódios reprimidos não trabalhados, de ressentimentos e não-diálogo com os divergentes. 

           Há um grande abismo, um grande vazio de significados entre o discurso intelectual acadêmico e o movimento feminista real, o movimento social feminista. Então é muito estranho ler textos que dizem sempre o mesmo do mesmo, mas são incapazes de representar o que é a vivência da mulher com a violência doméstica cotidiana, a vivência da mulher que sofre abusos contínuos, abusos de classe, abusos étnicos, os de gênero, todos os abusos. As mulheres da Maria da Penha, as Mães de Acari e de Manaus... Creio que esteja faltando um trabalho de campo bem direcionado, que desvele as experiências e as narrativas singulares dessas mulheres. Está faltando solidariedade, porque empatia é palavra para alguns entrarem em consenso, talvez vender sabonetes. Está faltando, principalmente, diálogo. E sobre as pílulas morais que andei lendo, é preciso ir mais fundo, escavar, olhar para todos os dentros, fazer palimpsestos. O que aconteceu em Campinas não deve cair nesse mar de banalidades do mau discurso midiático, mesmo o de "boa" intenção.

             Neste momento, o zelo pela história alheia é imprescindível. Fazer as velhas emulações morais-intelectuais-cívicas não é de grande ajuda. O silêncio já seria bom para refletir antes. Um silêncio respeitoso de quem não sabe tudo ou não consegue dar conta de toda pós-verdade.


Oh que saudades que eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais
*
(Oswald de Andrade)

Ainda é cedo, amor...
Mal começastes a conhecer a vida.
*
(Cartola)

domingo, 1 de janeiro de 2017

Uma estética sobre os afogados


Viajar seria a palavra na falta da outra.
Na falta da outra voltar e re voltar a terra.
Na falta da outra
Es qui var tranquila da onda

Ou mergulhar e imersão
Engolir sozinha o tudo
Re vólver na vida é
Um tubo, um tipo de ensaio
De acender a alma

Viajar para a outra
Como quem diz perta a dimensão
A perder o repositório:
Reclames de ilusões baratas

E na falta de todos ao ver o mar de (augúrios)
Se arriscar na onda próxima, cair
Viajar sozinha como efeito placebo -
Irremediavelmente submunda

Patricia Porto

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Desprogramada


Palavras na cozinha sem solução:
Resistência,
Potência,
Alta e baixa tensão,
vidros de encher,
lacres e tomates.
Parto os tomates,
parto em metades,
as vermelhas,
fruto bom de sementes,
furto bom de comer.
Melhores que as palavras:
Presente,
Futuro,
Ausências.
Olho debruçada
e desejo.
Pois não dou conta.
A idade meia.

Corto tomates feito quem desplaneja castelos.
Mordo as duas partes.

Patricia Porto

Advir





Não perder a ternura é um método.
O método ainda é viver a vida a imagem
sem quebrar tanto as semelhanças.
A ternura inventa a flor, cria seu cheiro,
absorve seu nome como plural e respira.
Um aparelhamento sempre simultâneo à invenção.

Patrícia Porto

Feliz 2017! Entre flores e feridas.

Entre flores e feridas.



                   
                          Quem já se sentiu vítima de um gesto, uma palavra, um olhar de intolerância sabe à flor da pele o quanto isso faz doer. E talvez tenha aprendido pela dor que a melhor resposta possível é uma resposta política: a luta, a luta pacífica - e não passiva - pelos direitos e pelos “deveres” dos homens. Um clichê dentro do outro seria dizer que desde que o mundo é mundo, os seres humanos exercem a nem sempre sutil “intolerância” - para humilhar, negar, apartar, desprezar o outro. E nada é tão difícil de tolerar que a própria intolerância. Diríamos também que é uma herança complexa de nossa vida coletiva se levarmos em conta toda a nossa história pelo mundo, tão marcada por ações e reações resultantes de atos de intolerância levados às ultimas consequências, atos violentos e infundados, nascidos da não aceitação e da retroalimentação de ódios entre os povos, que só deixaram como legado as guerras e os genocídios, as maiores tragédias humanas.

O Homem é sim capaz da exclusão e do extermínio por não concordar com ideias diferentes das suas, por não aceitar um modelo político diferente do seu, uma raça diferente da sua, uma classe social , uma religião que não seja a sua, enfim, por não enxergar a diferença entre os seres. E, paradoxalmente, tudo o que somos e fazemos vai nos singularizando dentro da própria trajetória humana. Somos diferentes, diversos, igualmente diferentes.

A tentativa de igualdade começa, sobretudo, pelo respeito à diferença. Pelo amor à diferença. E porque não há nada mais belo e humano que o amor não podemos deixá-lo de fora da resposta política, daí que o político é também poético, o que enfurece os que pensam dentro de caixas fortes. Ora, sabemos o quanto isso pode parecer desagradável: disponibilizar-se para amar, amar para além do seu raio de segurança e de seus prodígios. Não, não é fácil assim como num estalar de dedos e pensamentos. É um exercício contínuo de aceitar e ser aceito, é um exercício extraordinário de coragem. Até porque é muito mais fácil sentir raiva, guardar mágoas, velhos ressentimentos remoídos... Amar é ter coragem de assumir a sua parcela mais humana, é tirar a casca, a couraça, a culpa de não ser perfeito. É deixar de lado a mesquinharia, o egoísmo, toda falta de gentileza. Amar é sentir-se feliz por ser o suficiente - como disse um sábio, pois não precisamos ser o melhor entre outros, mas o melhor que se pode ser para alguém. Feliz quem pode olhar para as suas crias e se alegrar com a tamanha diferença encontrada. Feliz por ser capaz de compreender que os filhos não podem ser uma mera projeção narcísica dos desejos dos pais, de uma país e nem estão aqui somente para cumprir uma entre as tantas profecias familiares e coletivas. Eles são únicos quando são eles mesmos. E se perdem quando não podem ser eles mesmos.  Talvez a tarefa mais árdua seja de encontrá-los perdidos na estupidez globalizada.

Mesmo assim a perplexidade contemporânea nos coloca diante de atitudes pra lá de esquizoides se pensarmos nas últimas e tantas demonstrações de intolerância ocorridas pelo mundo afora. Poderemos nos questionar se estamos de fato perdendo contato com nosso mundo interior, perdendo também a capacidade de olhar para dentro desse interior. Para onde então caminha a nossa humanidade? E a nossa juventude? Tantos episódios de crueldade gratuita, de intolerância explícita... Por que sentir tanta raiva, tanto desprezo por tudo e todos? Será que estamos adoecendo ou será que sempre temos algo de doente em nós? Em tempos de glamourização excessiva da violência, dos bíceps saudáveis e das seitas que ditam regras comportamentais - até as alimentares, que tal trazer de volta o silêncio que perdemos com tanto barulho externo? Que tal ouvir o silêncio para refletir sobre quem somos, sobre o que queremos, sobre as escolhas que precisamos fazer? Que tal pausar a mente, nossa casa? Pausa-da-mente...

Nossos corações devem estar despertos para que possamos ver um palmo antes e depois de nossos narizes. Precisamos de menos babás eletrônicas e mais diálogo, menos shopping e mais abraços, menos redes sociais e mais tête-à-tête. Precisamos brincar mais, rir mais - principalmente as meninas, precisamos nos lançar mais ao outro, aquele nosso velho desconhecido. E, é claro, precisamos ter coragem. Essa palavra latina que une Cor + Agir, “agir com o coração”. O amor é a fé em estado sublime e sendo assim é o amor a única ponte que nos leva ao outro dialogicamente e que nos faz enxergar no olhar do outro a nossa imagem menos refletida, o amor é que nos educa sobre a necessária "empatia" para bem viver, para viver com, con-viver. Mais Eco. Menos Narciso.


Patricia Porto

(Esta crônica foi escrita em 2010)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Enigma

Wieslaw Walkuski


Quando a morte toca seu ventre,
a morte carregada no ventre, a morte da vida,
a vida  tão animada comendo do ventre,
a morte cheira a arnica, éter, patchouli.
Força! Diz a herdeira das horas.
Morte, que tamanho tem teu ventre?
As pedras me dizem teu nome como sussurro.
Tinha tanto medo dos fantasmas  
até escavar a pele, a pele escamada de sentimentos.
O fantasma era a própria compondo vigílias na casa escura.
Nenhuma notícia dos homens que chegavam ao Porto.
Uma árvore ali nasceu do ventre da morte ancorada.
Não dava frutos, somente sombras.

Patricia Porto

Sem Perdão

Jane Lund


Há dias de sol e tormenta, de não seguir o estrangeiro.
Malas prontas para partir, um sorriso enigmático no rosto de pássaro.
Naquele dia decidiu não mais apreciar poemas piadas,
porque era da ordem do dia ou porque ficariam visíveis em outdoors.
Olhou para seu companheiro de lógicas e percebeu que estava só.
Vagando no emaranhado dos poemas esparramados, sem proposta
de boa digestão, estavam sós.
Como se vivessem em caixas, pequenos caixões, homens se amontoavam
com gestos e gritos de sobrevivência.
Decidi sozinha que o poema não será guilhotinado às minhas avessas
para dar conta do gosto dos homens que vivem dentro das caixas.
Intento não perder o viés da aventura cartográfica,
exilada, expatriada, rancorosa,  aglutino palavras ao redor do meu barco.
Palavras como irmãs, nova sororidade, palavras sem algemas.
Não trocarei a poesia por trinta moedas,
não me lançarei ao precipício se é o que aguardam.
Permanecerei viva como uma estátua de carne no meio do passeio público,
esperando a mão gentil de uma criança curiosa,
basta que me olhe nos olhos para que eu lhe faça um gesto.
Então estamos salvas.

Patricia Porto


sábado, 10 de dezembro de 2016

Pertencer - Clarice Lispector

   Hoje o dia é dela (para mim). Escolhi uma crônica para compartilhar. O nome é "Pertencer". Escolhi esta crônica porque não me sinto pertencida à nada ou qualquer lugar, pessoa, situação... E isto nunca foi uma escolha. Esta crônica sempre me causou atritos. Acho que é isso que acontece quando um texto te levanta a pele e depois dela a veste é de vermelho rosa como carne tenra, sempre novilho nascido pra abates. 




Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.
Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!

domingo, 4 de dezembro de 2016

POEMA SUJO

Achei que Ribamar acordaria antes. Ficou esperando Dom Sebastião. Agora é transparência, poema sujo, palavra de quitanda, camarão seco, banana podre. Não precisa mais acordar, está entre estrelas. 

FERREIRA GULLAR, 1975, Buenos Aires
Poema sujo

(trecho inicial)

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti

bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era...
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta

Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já

um prato de louça ordinária não dura tanto
e as facas se perdem e os garfos
se perdem pela vida caem
pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira

e as grossas orelhas de hortelã
quanta coisa se perde
nesta vida
Como se perdeu o que eles falavam ali
mastigando
misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas tão reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa
janela
tão reais que
se apagaram para sempre
Ou não?

Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás
e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama,
ou dentro de um ônibus
ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico
acima do arco-íris
perfeitamente fora
do rigor cronológico
sonhando
Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas
balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas
cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à mesa do
jantar,
voais comigo
sobre continentes e mares

E também rastejais comigo
pelos túneis das noites clandestinas
sob o céu constelado do país
entre fulgor e lepra
debaixo de lençóis de lama e de terror
vos esgueirais comigo, mesas velhas,
armários obsoletos gavetas perfumadas de passado,
dobrais comigo as esquinas do susto
e esperais esperais
que o dia venha

E depois de tanto
que importa um nome?
Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo:
te chamo aurora
te chamo água
te descubro nas pedras coloridas nas artistas de cinema
nas aparições do sonho

- E esta mulher a tossir dentro de casa!
Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,
O perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.
E as formigas brotando aos milhões negras como golfadas de
dentro da parede (como se aquilo fosse a essência da casa)
E todos buscavam

num sorriso num gesto
nas conversas da esquina
no coito em pé na calçada escura do Quartel
no adultério
no roubo
a decifração do enigma

- Que faço entre coisas?
- De que me defendo?

Num cofo de quintal na terra preta cresciam plantas e rosas
(como pode o perfume
nascer assim?)
Da lama à beira das calçadas, da água dos esgotos cresciam
pés de tomate
Nos beirais das casas sobre as telhas cresciam capins
mais verdes que a esperança
(ou o fogo
de teus olhos)

Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade
sob as sombras da guerra:
a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg
catalinas torpedeamentos a quinta-coulna os fascistas os nazistas os
comunistas o repórter Esso a discussão na quitanda a querosene o
sabão de andiroba o mercado negro o racionamento oblackout as
montanhas de metais velhos o italiano assassinado na Praça João
Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de
tempestade por cima da nossa casa. Stalingrado resiste.
Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu primo que passava
rifa, pelo tio que roubava estanho à Estrada de Ferro, por seu Neco
que fazia charutos ordinários, pelo sargento Gonzaga que tomava
tiquira com mel de abelha e trepava com a janela aberta,
pelo meu carneiro manso
por minha cidade azul
pelo Brasil salve salve,
Stalingrado resiste.
A cada nova manhã
nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais

Mas a poesia não existia ainda.
Plantas. Bichos, Cheiros. Roupas.
Olhos. Braços. Seios. Bocas.
Vidraça verde, jasmim.
Bicicleta no domingo.
Papagaios de papel.
Retreta na praça.
Luto.
Homem morto no mercado
sangue humano nos legumes.
Mundo sem voz, coisa opaca.
Nem Bilac nem Raimundo. Tuba de alto clangor, lira singela?
Nem tuba nem lira grega. Soube depois: fala humana, voz de
gente, barulho escuro do corpo, intercortado de relâmpagos

Do corpo. Mas que é o corpo?
Meu corpo feito de carne e de osso.
Esse osso que não vejo, maxilares, costelas
flexível armação que me sustenta no espaço
que não me deixa desabar como um saco
vazio
que guarda as vísceras todas
funcionando
como retortas e tubos
fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
e as palavras
e as mentiras
e os carinhos mais doces mais sacanas
mais sentidos
para explodir uma galáxia
de leite
no centro de tuas coxas no fundo
de tua noite ávida
cheiros de umbigo e de vagina
graves cheiros indecifráveis
como símbolos
do corpo
do teu corpo do meu corpo
corpo
que pode um sabre rasgar
um caco de vidro
uma navalha
meu corpo cheio de sangue
que o irriga como a um continente
ou um jardim
circulando por meus braços
por meus dedos
enquanto discuto caminho
lembro relembro
meu sangue feito de gases que aspiro
dos céus da cidade estrangeira
com a ajuda dos plátanos
e que pode - por um descuido - esvair-se por meu
pulso
aberto

Meu corpo
que deitado na cama vejo
como um objeto no espaço
que mede 1,70m
e que sou eu: essa coisa deitada
barriga pernas e pés
com cinco dedos cada um (por que
não seis?)
joelhos e tornozelos
para mover-se
sentar-se
levantar-se

meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo
meu corpo feito de água
e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
e me sentir misturado
a toda essa massa de hidrogênio e hélio
que se desintegra e reintegra
sem se saber pra quê

Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai

corpo que se pára de funcionar provoca
um grave acontecimento na família:
sem ele não há José Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre

corpo-facho corpo-fátuocorpo-fato

atravessados de cheiros de galinheiros e rato
na quitanda ninho
de rato
cocô de gato
sal azinhavre sapato
brilhantina anel barato
língua no cu na boceta cavalo-de-crista chato
nos pentelhos
com meu corpo-falo
insondável incompreendido
meu cão doméstico meu dono
cheio de flor e de sono
meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio
de tudo como um monturo
de trapos sujos latas velhas colchões usados sinfonias
sambas e frevos azuis
de Fra Angelico verdes
de Cézanne
matéria-sonho de Volpi
Mas sobretudo meu
corpo
nordestino
Mais que isso
maranhense
mais que isso
sanluisense
mais que isso
ferreirense
newtoniense
alzirense
meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo
sob as balas do 24º BC
na revolução de 30

e que desde então segue pulsando como um relógio
num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)
tic tac tic tac
enquanto vou entre automóveis e ônibus
entre vitrinas de roupas
nas livrarias
nos bares
tic tac tic tac
pulsando há 45 anos
esse coração oculto
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva
debaixo da capa, do paletó, da camisa
debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária
meu coração de menino
......................................................

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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