sexta-feira, 10 de novembro de 2017

13 por dia



Kylli Sparre


18 homens sobre seu corpo
13 mulheres assassinadas
18 homens num dia
13 mulheres por dia

Assassinadas

18 homens e a lei
13 mulheres assassinadas
18 homens decidem
13 mulheres assassinadas

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Barrocas

Pina Bausch - Blaubart, 1977


              Tudo tão provisório, Rose. Hoje encontrei nossas cartas, os poemas trocados no escuro da rua. Onde você estaria neste mundo? Por que não te encontro em lugar nenhum? De nós duas apenas uma foto com o sabor dos anos oitenta. E ainda guardo um guardanapo com escritas tortas, versos da nossa última vez num pé sujo. Por isso preciso andar todos os dias para tentar juntar estes fragmentos que também não me consolariam mais da perda da alma amiga.
                 Tudo tão intrigado em 86, uma mola de suspensão, uma ampulheta quebrada, um país se abrindo, mas não para nós, esquecidas de tantos e no chão de um alçapão de colher mulheres. Pois veja, essa minha roupa íntima, por exemplo, ela está muito bem surrada, vem sendo amaciada pelo meu sexo e vive desses contatos provisórios com minha mais doce e ácida notícia, minha pertença de mulher, uma mulher desconhecida das outras. Perdoem, elas não sabem de nós. São puras e inocentes, mamaram nos peitos de outras mães puras e inocentes e ainda tiveram boas escolas. Minha calcinha amaciada de algodão é minha poesia íntima e diária, longe daquele nome coletor que nos ordenava a costura de peças para reposição das vaginas de moças que se julgavam tão esclarecidas sobre nós, mas que nunca pisariam em nossos territórios – por medo, vergonha ou pelos dois. Pobres moças envergonhadas. Perdoem, elas não sabem de nós, Rose. Não sabem a metade da fruta que se pode sorver.
             E lembro que eu e Rose, debruçadas sobre a janela, ficávamos juntas fumando um baseado. Rose sim sabia onde escondê-lo. Ríamos do cheiro, porque passado pela revista das guardas, fumávamos outras tantas intimidades. A pele, erva doce, cabelos pubianos. Fumávamos uma cigarrilha e íamos para o disfarce, a cigarrilha que eu comprava como criminosa ao invés do pão. A pele e osso como deboche para as propagandas de alimentação saudável. Brincávamos as duas de trocar palavras, como "nada, nós fumamos apenas umas cigarrinhas", era como um tapa nos que nos condenavam por sermos mulheres da cidade baixa, nós ali brincando de jardins nos ralos da periferia, preservando os reinos vegetal, mineral e animal - para que as mais fortes crescessem robustas, rosadas. Nossos corpos de cigarras, nossos pelos pubianos, os cheiros crespos de nossos corpos, sabor de boca na nuca, o clitóris na boca um botão, entumecido, para ser chupado e na língua o delicado se abrindo e fechando em grandes, pequenos lábios de nossa linguagem de mistérios marinhos, molhados, molhadas, liquefeitas. Era tudo tão fundo que gargalhávamos das pequenas transgressões como loucas sedentas uma da outra. O salgado do abismo nos unia, a solidão das migrantes, a ousadia das putas, a insensatez dos homens que nos batiam e pagavam cervejas no fim do expediente. Sonhávamos em ser mulheres barrocas como as da igreja onde não íamos rezar, porque éramos a escória contagiada por todo tipo de subversão sem perspectivas de nada.
                  Conversávamos longamente sobre suicídio. Era um tema recorrente, porque éramos feias e pobres, não tínhamos casa, vivíamos nas rodas dos inválidos, apanhando de um ou de outro. Tínhamos direito ao suicídio, perguntei? Rose então me disse que não, morreríamos em asilos ou manicômios, isoladas dos pequenos prazeres terrenos, morreríamos de nosso próprio esgotamento de vida, amofinadas, e morreríamos da crueldade disfarçada de bondade humana, outra violência.
                 Para Rose, suicídio era uma terra apartada, não nos era palavra familiar como homicídio, morte a pauladas. Era um outro continente, como viajar para um país de outra língua, comprar uma peça de consumo caro, um queijo fedido, pertencia às que podiam comprar um bilhete sem volta.
               Ao barulho do sinal, entre gargalhadas ainda, nosso efeito de pequena rebeldia esfumaçava. Voltávamos de mãos dadas para o calabouço da colônia. Siamesas. Atemporais também.
              Antes de entrar, ela arrancou um hibisco e colocou no meu cabelo, suave na brutalidade do corte. Arrancou um hibisco em pleno dia e o sol ainda iluminava nossas caras!
              Éramos barrocas.


Patricia Porto

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

CABEÇA DE ANTÍGONA




CABEÇA DE ANTÍGONA - RELEASE

Maranhense, nascida em São Luís, radicada em Niterói, Patrícia Porto é formada em Literatura e mestre e doutora em Educação. Tanto como pesquisadora, quanto poeta, Patrícia Porto trabalha a memória como matéria prima de suas criações. CABEÇA DE ANTÍGONA (Ed. Reformatório, 2017) é o seu trabalho mais depurado no mergulho na memória. É o ponto alto de uma triologia poética.

Importante dizer que não se trata de memória ressecada, emoldurada ou de ninar. É a memória que nos faz o que somos e que pode surgir a cada decisão que tomamos, a cada ato do nosso dia a dia. Para Patrícia Porto, a memória é o passado – é uma passagem.

Sobre Pétalas e Preces (201X), seu primeiro livro de poesias, trazia memória como fundadora de ciclos e urdidora de ritos de passagem. Parafraseando o termo “romance de formação”, podemos dizer que os textos apresentados são “poesia de formação”, em que a poeta se apresenta em sua maturidade artística.

Diário de Viagem (2014), o segundo título, é uma experiência a que a autora se propôs. Num ano de perdas e lutas, Patrícia Porto escreveu um diário poético em que não se permitiu correções e reescrituras, em que não deixou que o trabalho estético pusesse sombra sobre o que a poesia é, em seu grito inicial. No livro, a memória surge como horizonte. Em Diário de Viagem, a memória não fica. Ao contrário, é o único lugar possível à frente.

E chegamos à CABEÇA DE ANTÍGONA. Nele, a memória não é fundadora nem salvadora. A memória é carne. É corpo. É mulher. É aqui e agora. É onde a memória encontra seu lugar no mundo – e onde pode enfrentá-lo. Não há dúvida que o corpo feminino é um campo de disputas, de desejos, de interdições, de promessas e de libertação. Mas quando esse corpo é também o corpo da memória, todas essas características são transpassadas pelo tempo passado e pelo hoje. O corpo é a casa da memória. E Cabeça de Antígona é a casa em que essa memória se diz, se afirma, se impõe e encara o futuro, como se o anjo de Klee, inspirador de Walter Benjamin, decidisse virar para frente e abrisse as asas.
 
Ricardo Gualda

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Cabeça de Antígona, Patricia Porto

No dia 14 teremos o pré-lançamento do livro no evento nacional Mulherio das Letras, no espaço multicultural Tamarindeira Processos Criativos. João Pessoa, Paraíba, às 21h




 



No dia 18 o lançamento será na Blooks, no Reserva Cultural, Niterói, 19h - 22h




terça-feira, 3 de outubro de 2017

Lançamento Cabeça de Antígona _ Patricia Porto

Lançamento do meu livro. Uma felicidade que divido com vcs.





"Do alto da torre deste reformatório, o repique dos sinos, para anunciar nosso próximo lançamento:

"Cabeça de Antígona", de Patricia Porto que, segundo Délcio Teobaldo na apresentação do livro, "possui o manejo, tem as mãos adestradas ao ofício, mas chuta as panelas, rasga a nesga da saia a navalha, aumenta a chama a ponto de incendeio, erra a pitada do tempero. Por isso, quando me pediu que escrevesse uma orelha para este livro, reagi com ironia: “Ora, ora, Patrícia... Não te farei apenas a orelha. Te faço escuta”. Sonora escuta, porque os poemas de “Cabeça de Antígona” como, aliás, toda a poética de Patrícia Porto é de uma musicalidade que beira ao absurdo. Provoca desvario. Então, não se surpreendam que, cabocla e maliciosamente, sua Antígona se assemelhe a uma ribeirinha ancuda terçando um coco, um tambor de Mina, um samba de roda. Assim ela põe Antígona e Ogum no mesmo terreiro, e no ritmo alucinante da música! (leiam Patrícia Porto em voz alta, por favor!) "


Pré-lançamento em 14/10, durante o encontro do "Mulherio das Letras 2017" em João Pessoa.

Lançamento em 18/10, Niteroi-RJ
(Blooks, Reserva Cultural, 19h)

Em breve mais informações."

(Editora Reformatório)



quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Revolução

Věra Chytilová



Marche, mulher! Marche para fora da aldeia.
Marche sobre os corpos, as dentaduras, os brincos,
as rosas esquecidas, queimadas.
Marche sobre as hóstias salgadas, sobre o desenho de Ariadne.
Marche para a Vila, una-se à tropa.
Marche para o catafalco.
Marche sobre os desertos da Ásia, os danos da América arrependida, o atraso, o feto, a ossadura.
Marche para encontrar as mulheres da Índia, os dias de violência na boca do estômago em Myanmar.
Marche sobre as muralhas da China. Sobre o Himalaia.
Marche sobre o mar de crianças entre as terras. Marche!
Expõe teu útero no penhasco e dá te comer aos que tem fome.

Patricia Porto

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

terra roja



Ana Mendieta

no tempo em que as crianças eram destruídas com o olhar
e se urinavam nas calças,
eu mesma não sabia que se podia viver para além da infância

o apito da fábrica de vinagre era um motor
- máquina de braços
- a jaula do zoo não era mais o único espaço do mundo

havia o som ácido, o vapor, uma tardança quente, abafada
e talvez alguma outra urgência lá fora

longe da Memória?
Não. Nem longe do poço,
de tão fundo, medonho.

Patricia Porto

sábado, 9 de setembro de 2017

Exílio

© Claudia Andujar



A escrita é exílio.
Horizonte que ninguém alcança desde
do verme à dor que rompe o ventre.
E é mais uma vida salobra.
Mais uma que arde de corpo.
Este desejo de retorno é enxame. O lar é detrito,
terra salgada por dentro da carne.

Olhe aqui onde me sangra o peito:
minha casa perdida,
meus mortos enfileirados,
os pés juntos, pés e mãos
das mulheres que se arrebentam na espuma.

Olhe aqui onde minha terra se aparta:
há um solo e esta rachadura sísmica -
uma câmera construindo imagens,
cavalos velhos carregando cargas.

Olhe aqui onde me falta a palavra -
me falta também o ar, o pão e a lanterna.

Aqui é a escrita. Uma revoada de signos.
Sem lugar.
Lugar nenhum.
Ponto só
cego nó
de partida.

Patrícia Porto, Exílio.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

COTURNO 36

Sally Mann


Pediu ao padrasto coturno que coubesse nos pés 36. Ele logo soltou em forma de berro: “e tu é homem? Vai usar coturno pra quê?” Não tinha resposta pra isso. Era astuta, mas era ainda mais moça que astuta. Colocou o velho tênis e foi para o trabalho. Mas meses depois lembrou do assunto de novo: “sargento, não tem como me arrumar um coturno 36?” O padrasto bateu na mesa: “onde é que tu já viu soldado com esse tamanho de pé? Tu é mulher macho?” Foi quando ela desistiu de pedir. O sargento era cabeça dura. Calçou o velho tênis e foi para o trabalho. De noite como era de costume dormia com uma faca embaixo da fronha. Era rotina ser visitada pelo padrasto à noite com o devido consentimento da mãe. Por isso quando tomou tento e força, tratou de trabalhar e no que ganhou o primeiro cruzeiro - comprou uma faca de cabo branco, das grandes, bem afiada. E arrumou amolador - dos bons também. Antes de deitar a mãe mandava orar. "Vai! Ora pra Deus!" Ela pegada do amolador e da faca, deixava o gume tinindo. Sonhava com um belo desfecho de golpe, a cama ensanguentada, a carne do porco perfurada até o osso. Conseguia dormir de alívio. Mas passou um ano e outro e outro ano. A faca só tinindo no aço esperando. Então um dia o padrasto veio. E a faca veio junto - a um dedo da fuça, bem no meio dos olhos. Reluzia na noite, clareando de morte, a achada. O homem assustado fugiu sem nem mesmo chiar, todo amarelo, cagado de medo. No dia seguinte quando ela voltou do trabalho lá estava sobre o travesseiro: o coturno 36, brilhando de engraxado.

Patricia Porto