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Professora Doutora. Poeta-performer, cronista e contadora de muitas histórias e estórias.

terça-feira, 6 de março de 2012

PÉROLA

Imagem: Wayne Levin.


No labirinto do mar, recifes, declínios de corais,
uma rosa negra habita o oceano,
uma mancha eterna de sangue faz do mar o vermelho.
A rubra casca do que já não deitamos fora.
O fora adentro do cais que é só parada,
repouso para águas e sangue de teu útero: terra,
Gaya, mãe, força de ostra.
Peço- te a mão para um afago,
o teu rosto para a lembrança vindoura,
teu colo submarino, fluído, o próprio movimento
à nossa deriva, nova mudança de vista.
Peço-te o abraço sempre último
na tua velhice de perdões.
Não deixarei ao mar à presa, nem levarei comigo o sal.
Deixo-te nas mãos minhas sementes repartidas,
plantemos juntos, juntas nossas humanas fragilidades.
Peço tua mão na despedida, peço teus olhos ao largo
voltados ao encontro de nossas vidas.
Digo-te adeus porque te preciso.
Levo de ti minhas conchas, ouvidos internos,
tua voz, teu cheiro, o cheiro eterno de nossa casa.
Na casa das ostras, onde sou de nascença tua pérola.      

Patrícia Porto

sábado, 3 de março de 2012

O desaparecimento de Patrícia Porto.

Imagem: Vivian Maier.


Perdoe, mas hoje não quero ser outra para fora de minhas regiões internas.  
Guardei devidamente os dotes em minhas gavetas bem arrumadas.
Perdoe a solidão de minhas viagens marinhas.
Perdoe a minha mania de contemplar o que é de beleza estranha, distância insana.
Sinto muito pela falta de comunicação quando tudo se comunica com tudo
e ninguém sabe de ninguém a dor e o coração.
Minhas cartas, estas estão aqui na mesa, escritas,  seladas,
mal posso esperar para enviá-las ao sem destino.
Da janela renasço mariposa, a irmã feia da borboleta.
Todos a querem matar pela má semelhança.
Podem pensar: “pobre é o destino  das mariposas...”   
Mas talvez ali no obscuro do quarto lhe salve a liberdade,
a fuga suprema do envidraçamento.
Ser mariposa não é de todo mal assim.
Por isso peço perdão por não colocar minhas “às favas” em dia,
por não ter uma alegria a ser exposta a cada dezena de horas,
por escrever coisas para poucos lerem,
por ter deixado de pertencer aos humildes e humilhados
e então deixar de ouvir que posso entrar no céu.
Peço perdão por reagir aos saqueadores de almas,
aos que vendem promessas e recolhem da terra nossos ossos em vão.
Sim, peço perdão por hoje,
perdoem o meu desejo de ficar só quando tudo mais o que se espera
do mundo, do desejo, da utopia, é a fantasia do baile: a máscara.
Preciso pedir perdão por não ficar chapada diante do mundo que consome,
por ter uma melancolia suburbana quando marcas de roupa dizem
que há mais bonecos de vitrine do que gente de carne e sangue desfilando nas ruas.
Perdoem, por hoje, que seja... Perdoem aqueles que preferem ainda sentir e viver realidades,
os que se deixam ser varridos por medos, dúvidas, delírios selvagens.
Perdoem  aqueles que têm preferência por nuvens, dias chuvosos e noites longas.
Eles sabem.  Eles não sabem. Eles sonham com o que podem saber.
Por ser uma louca como todos esses -  é que preciso sentir que sou a outra
 – a que me salva –
 a todo instante!
Não, não quero me curar!
Sou louca! Sim, sou louca de pedras, de pedras e rio, de rio ao mar, e ventanias.
E minha loucura talvez fique sem perdão.
Às vezes ela se apresenta antes de mim, de chofre.
Outras, depois, no fluir do tempo, o interminável.
“Coitada da louca.”  Há murmúrios...
Ouço e sinto muito por ela e por todos vocês, tão coerentes com tudo.
Mas preciso ser a louca, não posso sequer pensar em ser a sã.
Porque tenho rostos demais de outras em minhas internalidades
e por hábito habito sozinha conversas comigo e costumo cochichar com plantas, bichos e crianças.
Porque gosto da lentidão da lagarta.  
Sinto... E peço perdão por gostar mais do meu silêncio que do barulho da festa,
por preferir a solidão da escrita ao declínio dos atualizados, os novos bárbaros.
Por mergulhar em livros na hora exata em que a noite ferve.
Sinto não ter hoje uma felicidade qualquer de ocasião,
por não sentir vontade de pênis,
por não querer fazer sexo de brinde ou ter um orgasmo de bolso.
Sim, sou louca e não me vejo nem um pouco forçada a ser
 na amplitude do que é fluxo, vasto e infindo
- a mulher vestida de foto,
- o retrato estático da capa.
 Porque desapareci há séculos e o meu desaparecimento é mero.
Semblantes das que foram demolidas e mortas, abastadas dentro de mim.
  
Patrícia Porto

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A dona do rio.

Imagem: Claudia Andujar, da série Sonhos Yanomami, 1974

Se eu pulo,
o rio me absorve o medo
então eu sou o rio
e o rio é o meu tombo no escuro ,
e eu sou a minha queda,
meus cabelos, minhas crias
no salto para o alto de mim mesma.
Se eu me lanço e caio,
sou sombra e trevas,
já não me pertenço,
Já não lhe pertenço.
Sou a entrega e o basta.
E se meu coração foi esmagado
pelas mãos estúpidas e assassinas de três
ou quatro parcas,
já não nos importa.
Eu o reconstruo parte a parte, fio a fio,
e até do inferno faço do tecido um jardim.
Pois a morte já não me pertence.
Porque eu pertenço ao trânsito do rio!
Ao amor escasso e humano,
rompendo o bloqueio das pedras!
Eu pertenço ao delicado sentido do bem!
Minha violência é água, não represa o amor
e o coração do mundo é um só. Tomba. Manifesta.
Não se pode esmagar uma mulher com uma derrota.
O rio corre – desalinha – é doce e perigoso,
de correntes e volumes,
 lágrimas todas dos silêncios amargurados de mãe
- molhando de margens, as teimosas, as teimosas,
que sopram, espumam, alimentam
de esperança outros e tantos e tantas coragens
de escudo o livre.
E o que for da vida
segue serpente
no rio, no rio... e rio...   
que já o vejo daqui.

Patrícia Porto

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Barquinhos de papel.

Imagem: Sarolta Bán


Qual o tamanho da tua liberdade? De quanto aço foi feita a tua espada?
Para onde foi o pôr-do-sol que estava aqui?
Porque dentro há abraços,
porque dentro há refrigérios;
as dimensões te asseguram de cura.
Qual o tamanho do teu perdão? De quantas extinções é feita uma existência?
Dentro do teu afago, os braços de uma deusa,
os quatro cantos da casa vazia, os pais abonando deslizes,
os pais abandonando suas crias   
como gatos amarelos a comer filhotes.
De quanta proteção se pretende uma capa?
Com quanta hipocrisia se constrói uma história?
E a noite do absurdo, da urina de criança,
com quantas trancas se faz o Império de um Barba Azul?
Para Dentro, o espaço elástico da alma equilibrista,
o supremo destino dos animais sacrificados.
"Não é o mais forte que sobrevive."
A dor de umbigo, umbilical - da partida.
No mar, barquinhos de papel...  
De quantas nuvens se faz um desenho?
De quantos dedos um adeus?
De quanta chuva a reserva?
De quantas cores um desenho?
De quantos azuis e vermelhos, a outra?
De quantas mãos, quantos grãos, nãos, sins, de quantos
desertos se faz com areia um castelo?

Patricia Porto

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A pelo.

Imagem: Henri Cartier Bresson.


Amo-te ao sinal  de um farol,
de bússolas, relógios e mares de distantes imprevistos.
Amo-te em recados ausentes reticentes que você finge não ler.
Te amo assim em ressaca pronominal.
Que nome posso dar? Saudade, que nome o teu de luz? Avesso?
Amo os teus olhos escuros do outro lado da rua, da mesa,
do outro lado da baía de todos os santos,
todas as figas, todos os dias, as noites sem o sereno de teus beijos.
Ah, teus beijos de encaixe o perfeito,
o pleno, o plano, no planejo de amores de agosto
em janeiro ou fevereiro, criminoso invento.
Sinto tudo de falta e desejo,
falha sou e folha solta vou à deriva,
e obscura hei de seguir pistas erradas, notícias de agulhas,  
 fazendo vigílias em palheiros, velando os sonoros,
dançando doida ritmos ciganos,com cavalos libertos
- como aquele que no meu corpo me fez sacana pra me ferir.
Passageira de um trem de renascenças,
amo-te o imponderável, o cheiro doce,
o homem o bruto e o belo, o sexo e o afeto.
Sonho o dia da ressurreição do amor:
desperto, livre, correndo ao teu segredo no ouvido,
misturado aos lençóis do teu país, da tua terra. Divino.
Vou estrangeira sem passaporte e em transe,
calma e alucinada,
desabrochando de fruta madura,
vôo acesa a casa da alma inteira,
de fitas nos cabelos,
rosas nas mãos
e olhos grandes, aguados, de aguardos de demora, de esperas,
te chamando, te clamando
por duas três quatro mil vidas ou mais.

Patricia Porto

PRECIOSSOS

Imagem da magnifica Sarolta Bán.

na noite faminta
nenhuma ordem ou desordem
nenhuma sentença de morte
nenhum direito negado
apenas a fome
o encanto enquanto
o sonho, o vulto
se faz Realizado


Patricia Porto

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Incógnitos.

Imagem: artista de circo polonês por Rafal Milach.


Para os que tão pouco souberam amar,
para os que não souberam amar,
para os frios, calafrios, os finos da loucura,
para os fracos de coração e juízo,
para os que morreram de amor e camélias,
para os que escolheram caminhos tortos a seguir,
para os que sucumbiram à dor e disseram basta,
para os que tiveram todas as horas estúpidas pra contar e perder
- e perderam.
Para todos as Todas dobras possíveis de tempo sem direção -
os cantos, os becos, o imponderável dos vazios, as memórias fabricadas,
a imensidão da lógica, o amor, os dia de calor e cálculo,
os Vazios do quadro, os vazios do pensamento
-  e os plenos de possibilidades e desejos.
Para os sem paradeiro, os de famílias desorganizadas, 
para os que fracassam por tentativa extrema:
um pouso de pausa, de encontro, o silêncio da solidão acolhida,
um sopro que atravessa a arte - mesmo que bissexta. E um chá. Inglês.
Para os contraditórios, os sujos, os desequilibrados,
os retirantes, os vagabundos, os vadios, os confusos, 
os que viveram sem o cunho da elevada moral,
para os que vieram sem ambição, sem pedigree,
para todos os vira-latas,os  indecentes, os sem berço e nem cuia,
para os transeuntes de sorte madrasta,
para os tontos em exercício e os excêntricos de profissão,
para os grotescos e os apaixonados:
os Vazios do sentimento a preencher,
a Beleza de face adversa,
o tombo da água,
no parto do mundo.
O outro a espera sedento
e o grito do Novo
numa entrega sem fim.

Patricia Porto    
  


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Vestido de festa.

Paris Doisneau 
De Robert Doisneau.

Pelas viagens que nunca fizemos juntos
um sorriso,
um Souvenir de porcelana da Índia
num trem que te leva a Bangladesh.
Para os dias que não viveremos juntos.
Para os sonhos que deitaremos fora
na estrada, fronteira entre almas
que se querem amigas, irmanadas,
mas que se sabem melhor na distância,
separadas, esquecidas.
Para os dias de comunhão,
por todos os santos dos dias,
um cartão postal da China.
Para o verão que vai despontar em sol,
cartas de ninguém para ninguém,
misérias humanas tão bem partilhadas,
nenhum silêncio de degelo,
nenhuma vertigem brusca,
um bibelô do Vietnã,
uma prece do Tibet.
uma  foto de torre ou castelo,
uma notícia do mar,
um segredo engarrafado,
bebido em silêncio póstumo e discreto.
Para os anos que não saberemos juntos,
um post, uma mudança de status,
um vaso quebrado,
uma foto de Paris iluminada.
Um desejo cão de morte,
um assobio último, baixo,
um gole de vinho amargo
e versos estilhaçados compondo o chão.

Patrícia Porto 

Poemas, crônicas, contos...

Com-partilhados...

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