segunda-feira, 20 de março de 2017

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Esta canção de desespero é para meu pai:
o sem rosto

sentada em banquete com meus espectros
lembro de pedir um fundo de abismo
que não traga espelhos

quero esquecer para sempre esmolas de afeto e amores cínicos

abraço apenas os desconhecidos, estou sóbria
cansada, mas sóbria

esta navalha no bolso, por exemplo,

é para o último cordão

o sonho íntimo do atropelamento é para crianças
que andam no asfalto

tenho pés inchados de andar

Patrícia Porto

sexta-feira, 17 de março de 2017

Da Arte de ter filhos

          

(Para pais e educadores)

          
        Ser mãe, pai de alguém exige, logo de início, três idades: matur-idade, sensibil-idade, gêneros-idade. Você se torna pai e mãe de alguém quando, aos poucos, percebe que vai precisar por um bom período da vida cuidar mais de outra pessoa que de si mesmo, e como na oração de São Francisco aprende que pode amar muito mais do que ser amado e que pode perdoar mais que esperar ser perdoado. É por vezes aquele fogo esplêndido que nos torna divinos, próximos do alto e do ato de toda criação humana. E também é o abismo a engolir nossos pés, a nos revelar sobre a superfície sombria que há no diálogo com as pedras e que nos faz plenos do humano que vive dentro de nós.
          Ter filhos não é e nem se pode comparar com plantar uma árvore ou escrever um livro. Eu que já fiz os três sei por pele à flor que “filhos” superam as outras duas experiências e que ela, a experiência de “tê-los e sabê-los” é que nos golpeia com o melhor e o pior da nossa própria natureza. Prefiro aqui falar do melhor, pois do melhor depende o suficiente de nós. E essa parte que depende de nós é feita de trabalho, um artesanato continuo que comunga com o estar aberto a entrar na roda e girar ao seu sabor e saber. Afinal há sempre o imponderável, a surpresa, o tal inesperado de viver. Perigoso como disse o Rosa.
          E há de tudo nesse exercício e de tudo se vive “um pouco”: um pouco de medo, um pouco de insegurança, um pouco de choro. E se vive também do “tanto”: de tanto orgulho, tanto alívio, tanto respeito. E é claro, se vive do “baita”: baita alegria, baita susto, um baita desespero se chora sem que se saiba o porquê ou se fica sem conseguir respirar direito no meio da madrugada. Você quer ser o ar, um sopro de cura repentino ou quer mesmo transferir o seu peito pro dele ou dela – com as próprias mãos estendidas. E torce pra que a noite se torne dia imediatamente e a noite vai ficando longa de doer sem fim. Então você pode, inevitavelmente, vir a descobrir que tem pouco: pouco recurso, pouco dinheiro, pouco sossego. E descobre que tem muito: muito amor, muito amor, muito amor. E se doa de graça como nunca imaginou fazer na vida. Você que era tão egoísta, tão yuppie, tão workaholic, tão porra loca, tão “não tô nem aí”... Encantado agora com aquela coisinha fofa... Tão preocupado com a nota de Física. Você que era tão politicamente frio vira manteiga derretida de carteirinha, de platéia e arquibancada.
          Ser mãe ou pai de alguém é também precisar contar: contar as noites de sono sem dormir, contar os carneirinhos quando se tem noite, mas a insônia vem e eles não chegam em casa, contar os dias que faltam pros pequenos irem pra escola pela primeira vez ou contar os dias que faltam pra chegada deles que foram fazer aquela viagem dos sonhos pra um país que você não sabe sequer pronunciar o nome. E que de lá deram aquele pulinho de alguns bons anos conhecendo o mundo, se aventurando em outras viagens. E aí você conta: conta uma história pra dormir, conta as moedas pro sorvete, conta uma notícia triste, conta uma anedota, “aquela do papagaio que...”, conta as suas travessuras quando menina, menino; conta que se esbaldou no primeiro, segundo, terceiro Rock in Rio só pra dar aquela concorrida. E conta, conta com a fé, com a esperança – sempre, última, pequenininha, com o santinho já suado de torcido na mão. Você se agarra nela: esperança, porta, saída, quando todos já desistiram, já baixaram a cortina ou fecharam pra balanço. Você é a última pessoa, a pessoa que não apaga a luz nem mesmo quando o mais sensato é economizar. Economizar o espírito, o coração. Ah, o coração. Esse sofre! Quando não morre mesmo! Várias vezes! Por dias, meses, anos a fio. Vai lá o coração: na boca! No estômago! No corpo inteiro e como disse o poeta Maiakovski: “somos todo coração”. E somos lágrimas, risos, sentimentos confusos, de espelho, de figuras gregas. Queremos dar o que não tivemos ou tomar o que tivemos de sobra. Dias de estranhezas e profundezas na alma. E podemos até nos confundir com eles nas quedas dos saltos, nas asas deles podemos imitar a nossa ideia de liberdade; pro que liberta ou castra, pro que não sabemos ou não ousamos libertar de nós.
         Filhos: eles são sempre mais jovens que nossos olhos, que nossas possibilidades de enxergá-los com mais clareza. E por isso mesmo há neles e é deles o novo viço da vida, a beleza dos pequenos extraordinários, o ímpeto, o sublime e a aventura. Sim, eles estão mais perto da primeira parca e é deles todo um tecido que há pela frente para se passar o bastão, o chão da terra roxa. Que bom quando não há nenhuma trapaça, nenhum tipo de traça tentando ruir o que é somente deles: o sonho, o desejo, a vontade de ser mais ou menos, mais e menos, menos e mais. Ser pai e mãe então é refletir: sobre a espera, sobre o tempo, sobre as angustias diante do começo ou do fim, refletir sobre o ser mesmo, sobre as certezas arruinadas, sobre saber se despedir quando é preciso, sobre margens desde cedo anunciadas. E ser criança na infância que ele traduzir. E saber que não se pode libertar o que já nasceu liberto para ser inteiro.   
         Ser mãe e pai é re-aprender todos os dias aquelas quatro operações matemáticas: dividir, somar, diminuir e multiplicar. Diminuir talvez a mais difícil, como cortar na carne, sair do centro pra viver a delicadeza da periferia. Falar menos, ouvir mais. Sorrir mais, podar menos. Abraçar mais, o que conseguir. É nossa a sabedoria. E serão nossos também o que eles saberão de melhor na terra: os filhos deles, os netos. A vós... Avós são uma outra margem... Como migalhinhas de pão, doces de chuva, histórias de outras vidas, as mais antigas, as mais sonoras de todas...

Patrícia Porto

domingo, 12 de março de 2017

Sem licença




Ser leve. Peso pluma.
Ser do pássaro o imponderável.
Não criar raízes. Criar asas.
Escrever na pedra o sangue fresco.
Beber do sangue e ritualizar a promessa de ser uma. 
Guardar o corpo para a próxima estação

segunda-feira, 6 de março de 2017

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Viajar seria a palavra na falta da outra
Na falta da outra seria a mão a revoltar a terra
Na falta da outra uma pá, uma prótese
para esquivar tranquila da onda

e mergulhar, ser imersão,
engolir sozinha o que há de tudo até os miolos

Re voltar na vida
uma vela de lumieiro
ou acender aquela alma tão doentinha, a estrangeira

Viajar para a outra parte e ser do outro o ex-mundo no mesmo
como quem diz ser perto demais a dimensão do oceano
para perder o fio da cabeça

ler reclames de ilusões nos prédios altos
e acreditar que teto é abrigo
que amigo é o hostil que te dá tapas nas costas,

Na falta de todos ver o mar (os avisos)
arriscar ser na torre próxima, o corpo e o signo da vez

Viajar sozinha sem nenhum efeito placebo -
Irremediavelmente imunda
a Retirante

Deus é mãe,
o espírito, humano,
Patrícia

o filho é que é o intraduzível,
língua outra

Patricia Porto

quinta-feira, 2 de março de 2017

Matheus e A Mariposa




                      Naquele verão quente de janeiro, naquela cidade fria e quase sem vida noturna, fomos ao teatro ver a peça de Matheus, o “Processo de Conscerto do Desejo”, peça em que ele declama poemas escritos por sua mãe, Maria Cecília Nachtergaele, moça muito jovem que cometeu suicídio quando ele tinha apenas 3 meses. Mas antes de falar disso por completo, quero trazer outra lembrança, porque nas sincronias da vida, eu também tinha ido, semanas antes, ao Oi Futuro ver uma peça-montagem de Diana Blok sobre identidade e diversidade nas relações afetivas. Sim, lá estava o Matheus, lindo, travestido de mariposa em flores miúdas. Impossível não amar a perspectiva cênica naquela perfeita transmutação de gênero, daquele paulista mais nordestino que já vi na vida. Tenho dito. Quando voltei à peça de Matheus já havia uma intimidade entre nós, um convite à poesia, um convite para dentro, quando alguém diz: "vem mais perto, vem aqui conhecer os meus interiores. Mas logo aviso, que não são lá todos bonitos." Assim sentimos a pele do ator encarnado, ator amoroso, despido entre luzes que não destacam apenas vaidade, comum e até necessária. Era o homem-menino-mariposa em flores miúdas, travestido de poema, nu, belo de gênero e palavra. Às vezes se fazendo canto de música para a caixa de memórias, a ressonância enigmática dos suicidas, noutros momentos era o silêncio, fundo, tão fundo sem razão para qualquer palavra. Quanta beleza há na pedra, naquele fio de água passando ali... Saí do espetáculo, um espetáculo, extasiada, poética, bailando entre flores miúdas. Eis que no caminho de volta, na rua escura, lá nos encontramos nós, eu e ela sozinhas, eu e a mariposa. Sincronias.

Patricia Porto

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Do Pau Oco

Lua Morales


no tempo do cala-bouço
há uma festa entre fantasmas:
a sirene, o tiro no asfalto
minhas pernas bambas
avulsas, uma a uma
soltas no ar
- balão, pernas e oxigênio
para os lacrimogêneos

a vista turva
porque o tempo embaça
e há estilhaços nos olhos
para esta despedida
que parte meu coração
feito meu país calado

não, não sou um ser humano cínica
nem ímpar

Patricia Porto

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Para os homens de bem dos últimos dias

Noell S. Oszvald


Nesses dias avulsos da tempestade
ouvi dizer que homens invadiram Creta
armados até os dentes homens mataram pequenas espécies da ilha
Nem Jacó ou Maomé puderam salvar os seres humildes,
apenas o frio congelava a água nascente
os cemitérios estavam cobertos de gelo humano
nuvens carregavam vários sinistros
jornais anunciavam um carnaval fora de toda época

mulheres choravam sobre as cruzes
eram muitas da minha família de muitos mortos,
de mortes matadas e não assistidas,
assassinos comiam sorvete americano pensando ser do exército alemão,
o golpe era sem derramamento de sangue
a poesia não fazia mais política
a poesia também era mercadoria
só o sexo dos anjos importava
mas Safo estava livre em outra órbita
descansando de tanta desgraça

nesses dias insanos da tempestade
que varreu os últimos dias,
a acidez do estômago era mesmo tumor
flagelos de pessoas andavam insones costurando notas falsas
enquanto um bolo subia por dentro da boca ferida
e o tempo se escasseando vingativo
era filho pródigo daquela senhora: a violenta

a lei confirmava tolice e engano
o corpo, o único lugar de paragem,
sem religião na mente fazia templo o viajante,
a cabeça uma dona de cais

inquietação exigia outras ferramentas de oficina
mas o espírito, essa coisa do diabo,
era pura imaginação

Patricia Porto

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Nasceu para todos.

Sally Mann


Ficou sem teto
as noites com seus objetos pontiagudos
vieram dar boa noite, vez por vez, um cerco.

A escrita já não era a solução pra nada,
não tinha amigos. Sua poesia era um isto.
Basicamente sem amigos.

Ficou sem ar no balão de oxigênio,
escafandros eram para os com chance.

Precisava escrever poemas ou notícias para não asfixiar,
mas não precisava de falsos profetas, extrema a unção,
a piedade dos calhordas.

Quanta lástima uma mulher pode carregar na alma?
quantos origamis da mesma tristeza?
Um revólver sempre apontado pras estrelas,
um cano esguio na boca,
o céu enfim.

Patricia Porto

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

quem é a mãe do inseto?

Elliott Erwitt

pode ser tão fina a camada
que me separa do outro: lado direito
e lado esquerdo na mesa, casa, ruas, separando nossos utensílios
de guerra?
um avestruz ou um cisco no próprio olho
em conformidades com o silêncio do café, a tinta fresca, o corpo
com riscos verídicos de morrer de insônia e gota

a idade, um sinistro de exatos:
medo de cair, sangrar pelas narinas,
quebrar os ossos

tanto tapa na nuca vez acordar pro êxodo,
tanto chute que a ferida emprenhou

nascida de uma coxa
gerou um deus desgrenhado
sem pele, sem unhas
torso com escamas
atávico

um bicho voraz
capaz de devorar a si mesma


Patricia Porto

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Por favor, me cuspa.

Retratos de moradores de rua por Lee Jeffries


O cego emocional
não enxerga teus olhos
não enxerga teu vulto
muito menos tuas feridas na guelra
tuas noites dos infelizes
raízes no teu assoalho
a linha do Equador
o raio cúbico
o átomo
a vírgula
e o gesto

O cego emocional te cospe
de rude
é anêmico
está dando pra rir agora
neste momento
quando chacoalha a barriga
e esfumaça um antílope

O cego emocional
comprou um placa para os desafetos

Nela está escrito: Por favor, me cuspa!


Patricia Porto


O MÍMICO

Mulher em Macinômio.  Esta imagem faz parte de uma série de fotografias de George Georgiou (fotógrafo britânico), que trabalhou na Sérvia entre 1999 a 2002. A produção de George mostra os pacientes e as condições precárias de um hospício da Sérvia.

*

Dos privilégios de estar vivo e morto:

Hoje ainda nem morri

silêncio é quando há um suspenso, uma corda
e aquela adaga na cabeça diz: se joga!
o tempo pendular da guerra é frouxo,
faz ninho com seus tentáculos no chão

te cortam uma perna, nasce outra
jogam tua cabeça suja, teus pensamentos sujos, tuas palavras imundas
dentro de um balde d'água limpa
a fim de te purificar

Não te tortures!
coração é alma na boca aberta, mas só quando o dente podre dói
 há disfarces de peso pluma (um chumbo escondido na exátula)
- dilatas então um pássaro mímico com as mãos

Não te tortures!

Hoje nenhum de nós entre eles morreu de véspera
nenhum cínico aplaudiu com dois dedos o nosso fracasso,
o fato de não escrevermos versos concisos
nem coisas de sentido enfastiado
Ficou esperando e nada explodiu nas pupilas
O que dizia mesmo Maiakóvski?

ninguém hoje indiferente notou que temos corpos
e estivemos vivos e doloridos o tempo todo

desagradeço pois,
ora, pois
por nós não
não queremos vossos remédios!

Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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