Se sou...

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Professora, poeta e cronista. Dizem que fé é a vontade de estar feliz. Então eu sigo, persisto acreditando, sempre, numa tentativa esperançosa de me achar feliz.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Diálogo com as pedras: eu também já fui chamada de burra.

Imagem: Sebastião Salgado, 1979.

           Algumas experiências da minha infância marcaram definitivamente a minha trajetória discente e depois, por desejo e necessidade, as mesmas experiências me ajudaram a constituir a minha trajetória docente.  Uma dessas experiências foi a de ser diagnosticada com dislexia aos dez anos idade. Lembro da irmã capuchinha, professora de português do Divina Pastora dizendo a minha avó num misto de pena e constrangimento: “_ O que acontece, dona Josefa, é que a sua neta tem apresentado muitos problemas na leitura, na escrita e na comunicação. E depois dos testes, das muitas avaliações que nós fizemos se pode afirmar que o que ela tem mesmo é dislexia.” 
                Minha avó tampouco se abateu: “_ Irmã, isso faz o quê? Mata!?”  “Não, não matava!” Foi o que a irmã respondeu a minha avó.  Mas eu me lembro bem de sair da sala da diretora com um novo campo de palavras na cabeça, uma nova semântica: “leitura, escrita, timidez, não fala, não se comunica, vocabulário pobre, avaliação, reprovação, incapacidade de aprender, diagnóstico, dislexia... Mas não mata!”   Na volta para casa, minha avó passou na quitanda do meu tio: “ _Nhô, tem caderno aí? Pega uns cinco.”  Fiquei assustada: “_ Vó, pra que tanto caderno?! Perguntei. Era castigo?! Pergunta de um tempo em que a escola e os meus professores só me ensinavam sobre como ser castigada para aprender. Para eles a reprovação, o risco vermelho na prova, o grito, a estupidez, as palavras negativas que só sabiam criar ecos assustadores dentro do meu espírito humano, eram o elixir, a paideia de lanternas acesas que salvaria a minha existência pagã e queimaria em praça pública como exemplo e sacrifício a minha burrice genética ou adquirida. 
            No entanto, minha avó, que era sábia de outro tipo de natureza,  a humana, respondeu “passando a mão na minha cabeça”...  Porque às vezes é o que a gente carece: que passem a mão na nossa cabeça. Não que nos salvem, como aos gentios. Então disse minha avó com a voz que vem mais do coração: “_ Um caderno pra fazer de diário, outro pra escrever carta pra Doquinha (minha mãe que morava no Rio de Janeiro), outro pra escrever minhas receitas, outro pra fazer cópia de livro...”  Fez um silêncio, coçou o queixo... “E o quinto, vó, pro que é?”  “Ah, no quinto você escreve uns versinhos de amor, umas histórias de visagem... Escreve, escreve o que quiser..."
            Escreva, escreva, escreva.... É o que queria minha avó contra todo o diagnóstico determinista e formal que dizia lá como registro, no vale porque está escrito e o escrito era: "vocabulário pobre". Mas minha avó sabia que "vocabulário pobre" não matava e se não matava tinha jeito.  E lutou com armas que tinha para que eu não aceitasse  e cumprisse aquela profecia de "incapaz" como a minha verdade diante do mundo e das letras. E por conta de todo o  incentivo, do elogio, do otimismo da minha avó, eu realmente não aceitei aquele primeiro determinismo, aquele factum não foi aceito. Para a escola eu seguia reprovada, incapaz, disléxica, mas para a minha família eu era “a escritora”. Isso fez toda diferença não só na minha vida escolar, como também na minha vida dividida com os outros, porque uma vida está sempre dividida com os outros, é sempre uma ilha em partilha em eterno estranhamento. Naquela casa nós partilhávamos de todo o pão, do corpo e da alma. E enquanto uma professora se dirigia a mim: “ah, não tem jeito, é demente, é burra mesmo!” Minha avó e minha família numerosa de tios e primos “nada protetores”, mas muito amorosos, diziam: “vai, você consegue! Escreva, escreva, escreva... Leia, leia, leia...” Esses acontecimentos multiplicaram a minha crença nos outros e em mim, marcando "definitivamente" a minha  trajetória discente e, depois: a minha trajetória doce docente, arte transitória e docente. 
                Ontem e hoje entendo perfeitamente quando uma menina, um menino, um jovem, uma criança, uma senhora ou um senhor me dizem ao pé do ouvido: “eu não consigo aprender, professora, eu sou burro, eu sou burra.”   Escolhi estudar português, a língua materna, a mãe de todos que sempre me reprovava, a língua do poder legitimado que a escola que eu frequentava usava para me rejeitar para, anos mais tarde, enfim poder dizer aos refletidos no meu olhar: “você sabe sim! Você consegue! Você aprende! Vamos comer palavras, vamos devorá-las!”  Eu aprendi e não somente aprendi como também passei a ensinar o português de muitos vocabulários. Que transgressão! Por isso me considero uma boa professora e não tenho modéstia alguma sobre isso! Podem reprovar a minha maneira de dar aulas, mas não podem reprovar, matar a minha vontade de ensinar e de aprender.  E eu  escolhi ensinar português, o português da arena de conflitos e dos jogos de interesses simbólicos e ideológicos, escolhi ensiná-lo para crianças, jovens e adultos reprovados, violentados pelos estigmas e diagnósticos, apartados da língua do poder, do currículo hegemônico que permeia a escola de todos os tempos. E eu ensino um português polêmico, oculto e explícito, que entrega aos meninos de bandeja: poemas de Maiakovski,  o teatro de Bretch e de Maria Clara  Machado, as trapaças linguisticas da poesia entre outras iguarias finíssimas que abrem olhos, mentes e corações.
          Gosto se aprende e se discute sim. E é com os meus alunos que eu aprendo a ser professora de português diariamente no trabalho de reinvenção com a língua portuguesa, reaprendendo também, pela experiência, a ser uma pessoa humana melhor a cada dia, uma pessoa que “afina e desafina”, que se estranha e que estranha o outro, mas que tem neles, meus alunos, e a partir deles, meus companheiros de jornada, uma confiança inabalável na educação como único instrumento de mudança. Sou radical neste ponto. Só acredito vendo e fazendo.  E não aceito o “nunca” como resposta. Um "por enquanto", "um talvez"...              
        Como professora há mais de quinze anos me habituei a ler, escrever e ouvir muitas histórias, histórias que me co-moveram, que me fizeram voltar à universidade, que me fizeram acreditar que era possível realizar aquilo que pertencia apenas ao campo da utopia, aquele lugar que não existe, mas insiste ser crença.  Por bastante tempo pensei a escola de qualidade como lugar para poucos e privilegiados. Mas foi o trabalho “ético e estético”  com a arte literária nas salas de aula que me fez usar os sentidos para olhar e compreender que o conhecimento, em todos os tempos, foi feito por homens e mulheres, crianças que tinham “algo” a dizer e  mostrar. Um “algo” a dizer  e mostrar às gerações futuras e eles fizeram desse “algo” tecido, desse poiesis singular e insubstituível - a cultura, a arte, a ciência, a literatura, a linguagem, o  movimento, a transformação, que no todo e nas partes, se faz comunhão entre o sonho e a vida. E eu sonho muito.

Patricia Porto

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A livraria e o sebo.

             Esta crônica é dedicada ao Seu Hélio, um gentil e sensível homem de letras e livros, dono de um sebo charmoso em Miguel Pereira.
Imagem: Arte de Rua, René Magritte. 

            A livraria no Brasil, de uma forma geral, é hoje uma boutique de livros. Resolvi começar logo com o pecado da injúria, lembrando a ironia tão peculiar do nosso grande autor Nelson Rodrigues que tão bem dizia: “toda unanimidade é burra”. Generalizando um tanto por mal de burrice e sem querer ofender às tantas boas livrarias que resistem bravamente à avalanche das novidades, cada vez que entro em certas duas ou três livrarias de shopping e olho aquelas mesas-vitrines com aquela quantidade enorme de livros que já foram vendidos aos milhões mundo afora, sou convidada a sentir certa náusea. Não vejo diferença ideológica entre esse tipo de livraria de shopping e a sapataria de shopping. São expostos modelos e mais modelos com muitos títulos apelativos numa orgia de temas pra lá de “best seller”. O sujeito olha, sente aquela já conhecida comichão do consumo e acaba levando para casa justamente aquele do tipo mais caro e mais sem sentido para ele, só porque a vendedora tinha dito com poderes de Juno e voz de locutora de aeroporto que aquele lhe caia muito bem. “Foi feito pra você.” “É o último dos lançamentos, você não pode perder essa oportunidade de colocar na sua estante.” E o sujeito mais consumidor que leitor, mais colecionador que leitor, acreditando no papo furado do consumo alienante, compra mais um para não ler, achando inclusive que se perder aquele exemplar último da 42ª edição ficará “out” do universo, um ser totalmente desatualizado do mundo “fashion” livresco ou do “mercado fresco dos livros”, que de frescor tem mais é a afetação das celebridades editoriais, verdadeiros caça-níqueis dos novos nichos de mercado de cores, tipos e tamanhos para todos os olhos, para todo gosto ou mau gosto. E eles pegam pesado! É coisa de mercado agressivo para o intelecto. E o que mais me impressiona é constatar na minha apoplexia ou burrice generalizada que realmente não se precisa mais saber escrever para lançar um livro no mercado editorial brasileiro. Tem muito lixo por aí. E usando de muita sinceridade, esse suicídio burro, talvez seja até um entrave saber escrever se pensarmos no público que não lê, “ops”, desculpe, no público que só consome, junta, acumula, não pode perder uma promoção e não desapega. 
             Outro dia uma senhora parecia ter me perguntado no elevador: “você é escritora, não é?” . Levei um susto hiperbólico com direito a um sopro no coração. Quase... Estou ficando velha, louca e surda. “O que a senhora perguntou mesmo? Acho que não ouvi direito.” E ela me desconsertou consertando a frase: “perguntei se você era professora.” Respondi que sim, claro, “professora com muito orgulho” e quase nenhum vintém para comprar os livros que preciso. Repito: "preciso"! Mas talvez o governo crie um vale ou um kit-livro-best-seller-professor como esses que eles mandam para as escolas públicas com livros infantis e pedagógicos que vão parar na casa de não sei quem, menos nas mãos daqueles que os mereceriam receber e ler por direito legítimo. Até porque, por viver à flor da minha pele, sei que nas escolas públicas, pelo menos as que estudei e trabalhei, biblioteca sempre foi um depósito de livros didáticos desatualizados sendo vigiados por professores afastados de suas salas de aulas, provavelmente por problemas de ordem mental e emocional. Eu sei disso, porque estive lá, nos dois casos contraditórios. E o que faz uma professora deprimida num depósito-biblioteca de escola pública deprimente? Corta os pulsos com a caneta vermelha? É Brasil... "como são tristes as coisas consideradas sem ênfase", diria Drummond. E talvez também dissesse como são tristes as pessoas consideradas sem ênfase! Os professores considerados sem ênfase com os estudantes considerados sem ênfase nas bibliotecas e escolas consideradas sem ênfase.
                Mas voltando ao meu delírio instantâneo, lá estava eu a me iludir achando que aquela senhora do elevador pudesse ter lido algum texto escrito por mim e postado no meu blog, esse tempo-espaço democrático que me parece cada vez mais destinado, disponível aos que gostam de escrever e que pelo atraso do destino não conseguiram publicar e que por sorte do mesmo destino encontraram no ciberespaço um novo clube de leitores e interlocutores, parceiros de escritas e leituras. Tem porcaria, é claro, mas tem também muita gente boa. Dá uma vontade de alegria. Então viva a sinestesia e o café - que nos mantém firmes e alertas! Viva ao blog e sua capacidade de alcance transversal, que não nos deixa mais isolados na morte – literal - do autor. 
             E por falar em autoria lembrei agora dos nossos “imortais”, pois preciso me redimir e parabenizar à Academia Brasileira de Letras, pois o que para mim havia se tornado um “quem tem mais tostão leva o fardão”, depois do site, do twitter e principalmente depois de ver o Lêdo Ivo sendo entrevistado pelo Geneton Moraes Neto, não só refiz o meu conceito como virei seguidora de carteirinha da Academia. E devo confessar que nos meus devaneios preconceituosos, cheguei a imaginar a Surfistinha levando o fardão pra costureira aumentar o decote e botar uns brilhinhos a mais. E viva a prolixidade nossa de cada dia! E viva também, nesse nosso atual deserto de vocábulos, a quem sabe o que significa ser prolixo.
         Mas voltando ao fio da meada e às livrarias para deixá-las de vez em paz, vendendo, lucrando e festejando os números e não as letras, gostaria de exaltar a existência e a persistência do sebo. Aquele lugar que viciados em livros – como eu, não se cansam de ir, mesmo que o nariz fique todo esfolado de tanta rinite. Ah, um “viva” imenso aos sebos! Deveríamos abraçar coletivamente os sebos assim como fazemos com árvores e lagoas. Faria um bem danado à natureza humana tão saturada de clichês. A cidade agradeceria e as crianças, passarinhos sedentos do alimento da leitura, também.
             Vou parar de escrever para aplaudir agora mesmo – de pé – o bom e velho sebo com seus bons e velhos clássicos, verdadeiras adegas centenárias com literaturas finíssimas, como um Camões, um Dante, um Dostoiévski e tantos mais, sem falar nos brasileiros, safra da melhor qualidade: Machado, Guimarães Rosa, Monteiro Lobato – para crianças e adultos de almas endurecidas. O mesmo Monteiro Lobato que muito antes da pressão do pré-sal, ele que também gostava de um petróleo, disse uma frase célebre, iluminada: “um país se faz com homens e livros.”
            Eu sou um rato, uma rata de sebo. Longe dos velhos tempos dos mosteiros e do tempo dos livros enclausurados e longe por opção dos novos templos dos shoppings e da promoção relâmpago que lança e privilegia livros apertados que maltratam a mente, sinto-me abastecida e tocada na minha garimpagem particular por iguarias de letras pequenas e consumo difícil. Vou de sebo e contente! Os da Tiradentes e do Catete são ótimos. Sou capaz de tirar a fórceps um velho exemplar de Graciliano Ramos ou José Lins do Rego entre um amontoado de tesouros. Como pirata ou fantasma, escavo títulos e me confundo com velhas assombrações. Mergulho no absurdo em direção oposta. E saio de lá sempre confortada.


Patrícia Porto

segunda-feira, 14 de maio de 2012

do outro lado.


Imagem:Gérard Castello Lopes  

de repente uma alegria,
uma desconhecida paz
e nenhum placebo de coragem.
uma dádiva lúcida de olhar o mundo
se for pela última vez!
quando se pode respirar bem fundo
até se sentir divinamente vivo, finito,
esplêndido, loucamente sendo  
por si mesmo, o mergulho profundo
para os pontos pacíficos da própria história.
do mar ao mar que não ressaca, só pausa,
em silêncio sem corações petrificados...
Livre de tudo que aprisiona o devir.
transgredir, trans passar, 
como poema, gente, um olhar à deriva, 
vivendo de palavras pelos ares.

Patrícia Porto

sexta-feira, 11 de maio de 2012

infâncias


Imagem@Sally Mann


Quando eu era criança havia uma chuva fina
que gotejava no meu quarto de dormir.
Pingava translúcidos sobre minha rede
que também era cabana e esconderijo.
Eu, vestida de chambre de passarinho,
brincava de gotejar com a chuva.
Porque nessa infância a gente brincava de ser ilha e natureza.
Vó sabia o tempo certo de cada coisa. Vô, se perdia todo no tempo escorrido.
Vó caçava tarefa. Vô fazia brinquedo de galhos.
Vó era a força. Vô, a expansão.
Vó, sabedoria. Vô, a pa-ciência...
Vó então ralhava: _tem que arrumar a telha, Mário!
Vô fingia de bobo: _amanhã já vejo!
Depois piscava de um olho pra mim e me dava um pedaço de pão ou maçã.
Crianças são sempre passarinhos.
Eu era um daqueles de asa quebrada
e boca e olhos grandes abertos pro mundo. Sempre com fome de tudo.
Mas vô e vó cuidavam de mim
com a delicadeza e a doçura dos que se encontram perto
demais de atravessar o jardim da última parca.
Não havia nada mais saboroso que aquela velhice de criança.
Vô e vó eram meninos que voltavam pra casa
cheios de infâncias,
com sorrisos largos e histórias de lugares estrangeiros.
Por isso nunca sarei do mal da asa quebrada
e quando sinto a chuva me ponho aninhada a gotejar saudades.

Patrícia Porto

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Amor.


Imagem @ Ansel Adams
Aos Navegantes.

À margem do mar espero teu retorno.
As pedras dizem de ti um rosto imaginado
que calado de esperas se violenta contra a marcha das águas.
Sou toda a violência da promessa sangrando as cordas da embarcação
ao revés num trapézio sobre o mar...
Meus achados são recifes e reis trapezistas se lançam entres os desvios,
entre os fios de solidão, os finos fios de teus cabelos a cobrir minhas mãos...
Minhas mãos, eu as sinto, não são mais de pedra...
Minhas mãos se assumiram frágeis com a música de tua viagem,
passando em vigília horas do tempo a recolher fragmentos de velhas histórias,
a contar vestígios espelhados nas conchas miúdas, no fruto marinho...
Na noite de estrelas acesas eu também me iluminei.
Nossas pequenas fraturas, pois, abraçadas à praia,
e por anos mergulhadas de mistérios, se inscreveram no texto do mundo
e por lá permaneceram cúmplices do barulho que espuma.
Mas eis que sobre o mar reinam seres que dão saltos ornamentais
para aportar em nossas terras e salgar nosso destino demarcado.
E que ao descobrir nossos sinais nos armadilham de esquecimentos,
e repatriam nossa língua de experiências.
Fazem ocultos nossos princípios, nosso enlace, nosso sonho de partilha.
Desatadas enfim minhas mãos só se poderiam lançar
e por isso, por uma nova pátria, se ameaçaram ao precipício,
e agora desunidas, vivem pagãs na presença e na face de um deus que sempre cai.
Minhas mãos se precipitaram e me ensinaram novas raízes,
novos sentidos sobre o desejo de ser outra,
a que dança nua na areia e tem corpo.
Teu retorno já não o podendo rever nos olhos que viviam em mim , o alimento e destruo.
Deixo então que me  transgrida o mar em punhal e me dispa de honra a entrega.  
Minhas mãos abertas do que foi claustro, tocam novos domínios.
Cada qual é uma onda partida, deixada em bilhetes,
avisos, urgências, pedidos feridos, pérolas em dor.
Talvez o mar, talvez um dia, talvez a flor frugal, perdida de meus cabelos para os corais,
encontre em tuas mãos os motivos, a herança tardia dos navegantes.
      
 Patricia Porto

terça-feira, 8 de maio de 2012

Os Guardados e a Santíssima.


              “Simone de Beauvoir, Paris, 1957″ @ Imagem: Irvin Penn


O PRIMEIRO GUARDADO


                 Aquela velhinha da rua três se chamava Dolores. Dolores vivia na janela a espreitar o mundo que passava cá fora, do lado que eu olhava pra ela.  Um dia nossos olhares mútuos foram interrompidos pela presença de uma barata imensa que passava entre nós: o lado dentro de Dolores e o meu cá fora. Eu Gritei! Mas Dolores não. Ficou lá de dentro me olhando. Perguntei então sem dúvida: _ Não grita? Não tem medo? Então a voz de dentro saiu, espanando rouca antes de se firmar:   
               _Grito? Não, nunca. Falo baixo por acomodação em domicílio. Viajo raso, menina, bem rente ao  chão, bem rente pra não causar impactos ou estribilhos na realidade moldada pra mulher que eu fui. Mas sofro de silêncios sim, extremos e ruidosos, e dores de vazios, dores de guardados. Nunca pude ser de natureza extravagante. Então, como também não recebi a dose exata de beleza que me poupasse da ilusão do amor masculino, além da dose doce de tristezas e nuvens, compus cantigas para vidas passadas. Compus sutilezas mais que os ardis. Dizem que sou calma nervosa, que guardo segredos e segredo juramentos. Vou ampliando, amplificando assim os silêncios. Sonho? Sim. A transverso. Gritar? Não. Nunca.

O SEGUNDO GUARDADO

Guardei aquela chave dada por Dolores e passei anos sem passar por ali. Enfim havia crescido e mudado de cidade, indo embora do interior. Um dia, por um motivo de saúde qualquer, precisei voltar para casa de minha tia Fátima. Precisava descansar, havia cansaços em mim. E foi quase no último desses poucos dias de férias que resolvi visitar a casa daquela senhorinha.
Perguntava ao chão durante o caminho: para onde foram as flores e os dias de paz que deixei aqui? Passo em frente à janela de Dolores e então vejo: a casa esvazia-se, afazia-se, tranca baús, perde as chaves. Mas para onde ela foi? A janela trancada, o tempo descascando tudo. Sei que as memórias dormem. E que são mulheres, metáforas com odores de velhice, quase sempre transcritas em línguas mortas de alfazema. E todas as velhas, eu sei, somos nós. Todas.

O TERCEIRO GUARDADO

Sem sincronias para adiar, acabei seguindo um cortejo, pois havia chegado bem durante a passagem de um funeral que já contornava a pequena praça rumo à capela da Santíssima. Resolvi seguir aquela dúzia de pessoas chorosas, até porque o funeral poderia ser bem o de Dolores e pensei por um momento, um relâmpago, que talvez mulheres espalhadas pelo mundo todo  estivessem saindo de suas casas ao mesmo tempo que aquelas ali seguindo em ladainha, e que talvez levassem para as ruas fotos e flores de amores velhos e novos, cantando canções,  pedindo justiça ou acalantos guardados em coro de vozes audíveis ou  inaudíveis. E diante daquela quase vertigem, peguei do meu xale português e entrei - sem mais despedidas ou desejos no vasto espelho da memória para me fechar em copas, para aprender, quem sabe, me  encontrar sem Dolores.

Patrícia Porto


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Instrumentos sobre Vivência.


Erik Johansson@Downside and upside.


Eu voo pra longe
onde o vento entende a face,
onde a vida é feita a sopros,
onde o homem é da ilha o coração.
Certo e certa que não nascerei de novo
vivo o minuto presente e ausente
como a última flor arrancada
de meu espírito humano.
Serei incapaz de fazer de mim
e de outros novos milagres terrenos.
Mas a utopia, a mágica, a beleza
e a peleja de ser do mundo um filho,
uma filha,
um símbolo
e um abismo de incertezas,
faz da minha humanidade
a resposta eternizada à insistência de
prosseguir vivo, viva, na milagreira
sorte e vez da existência.
Por isso já não me podem ferir, atacar, matar
os abutres que vivem a resmungar conhecimentos
de outro mundo.
Dentro de mim o vasto e a fronteira,
o instante e a velocidade de minhas asas: pensamento.
No conhecimento os homens se perdem de tanto progredir.
Na sabedoria os homens se encontram,
repartem o pão e se creem cada vez mais plenos
de sua autêntica natureza.

Patrícia Porto
(Patrícia de Cassia Pereira Porto)

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