Patricia Porto

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Professora universitária, poeta e cronista. 

domingo, 18 de setembro de 2016

Erectus

Tatiana Parcero 


Corpus erectus:
erótico profético e profano.
Veja meus pés.
Quantas línguas cabem neles?
Quantos significados?
Mas eu não tenho tempo para a poesia.
Sou mulher.
Uma criança grita na sala,
ela precisa urgentemente de vitamina D.
Meus berros estão guardados em pequenas caixas
de estrutura sonora.
Preciso não ser a louca para ser alguém aproveitável,
competitivo, agressivo.
Preciso ser a vitamina D do sexo disponível.
Preciso comer placenta com falos.
Corpus erectus.
Quantas línguas cabem na xana?
Não posso falar sobre a xana,
só no signficante,
preciso abrir espaços para que os homens falem,
trabalhem, brilhem, executem suas tarefas satisfatórias.
Minhas irmãs, nenhuma criatura merece mais o nosso amor
que o cachorro que nos lambe os pés no que há de doméstico.
A civilização é o domínio do homem sobre outros homens.
Nós somos os cães bestializados que batem na porta para entrar.
Mas o cão bem suja a palavra dos homens,
a loucura que os homens destinaram às mulheres.
A xana desoculta a nossa verdadeira liberdade indomesticável
contra os deuses dos festivais, o bruxaria,
contra a escassez contemporânea o selvagem
engolindo o verso fácil do homem que introduz
sua crítica na nossa xana.
Corpus erectus.
Quantas vozes cabem nesse corpo?
O corpo feminino é o espetáculo civil da experiência.
Esse corpo, nossa zona franca,
nosso desejo espelhado na cara da covardia.
uma mulher sem classe é a mulher desobediente,
insana de seus novos poderes
que se arremessa nas suas próprias quedas
- seu corpo é deus travestido.

Patricia Porto  

terça-feira, 13 de setembro de 2016

carne crua

cansaço de negativos,
como um barco à deriva
como um corpo à deriva
como um beijo à deriva
como um seio à deriva
como um eixo norte, sul
como um tela mágica
em degelo

minhas coxas projetam um deus
e estão molhadas,
líquidas entre dedos

congelo nua em meu quarto
uma cela solitária de escolhas

este cansaço de setembro,
esta porta à deriva
este sol
esta luz que bate e encena

estes olhos que se fecham por onde borboletas flutuam,
flácidas de toda cor, a sépia, o cético, no asséptico

a dor não tem filtro

Patricia Porto

os párias

de onde vejo o mundo minha calcinha se inunda
não vejo por meios microscópicos qualquer centelha de hipocrisia
a vulva pública da grandeza terrena quer parir gênios da humanidade,
mas as mãos viris de Deus os examina por veículos macroscópicos

ninguém merece o céu da escrita
- talvez aquele cão lambendo a calçada

Patricia Porto

domingo, 11 de setembro de 2016

A moça, a bandeira e o cão.



Antonio Dias
  
          Nem notara que passava diante de um prédio, onde uma cerimônia de hasteamento da bandeira se realizava. Para ela, não havia a calçada quando o horizonte do hino elevava-lhe o espírito. Afinal, crescera com o progresso a abalançar-lhe o coração com o ar de seu próprio sangue. Calçadas para ela eram para serem estilhaçadas com pedras portuguesas, para que seus pés forrados com o melhor couro alemão fizessem dos danos de seus algozes um batuque refinado em plena orla de Copacabana.
         Enquanto no mastro a bandeira tremulava ao vento, seus cabelos soltos flutuavam luz entre fios manchados em colorido, sacudindo-lhe a imaginação. Então, entrelaçados a imaginação e os fios de algodão, o tecido leve da bandeira despejava ouro como folhas de outono numa bateia em forma de redemoinho. Girava-a ao ar, garimpando na luz uma ilusão repetitiva. Despejava-a em forma de filete na calçada quente, onde se desfazia entre pedras pretas e brancas em direção à Avenida Atlântida. O mar e o concreto e a velocidade a acolhiam como se ela fosse uma forma inserida nas pedras. Mas, satisfazer-se no recapeamento do asfalto, tornaria aquela Avenida um mero colar banhado de luzes na garganta de uma vitrine da Zona Sul.
     Na verdade, ela queria mesmo era a grandiosidade dos anos setenta, se revelando nas obras decadentes. Desejava que naquelas tolas estátuas o fomento de sua geração fizesse crescer a vida recuperada de sua jornada pela tortura esquecida dos maravilhosos anos setenta. Desejava que outras cores vivas vestissem sua bandeira imaginária, de forma que a cada batida de seu sapato de legítimo couro alemão fizesse surgir ali, ao seu lado, escombros do muro invisível que separava os anos de sua juventude dos anos de sua recente inquietude. Destroços de seu muro, pedras portuguesas, batidas absurdamente ouvidas em alto som, batidas de seus passos largos sobre o cimento da modernidade, seguindo-a, farejando-a como um pastor também estrangeiro. Poderia senti-lo roçar sua perna, roçar o seu pulso, encostando o focinho ao bracelete que carregava um farpado de espinhos, um cão farpado , um cravejado de arranha-céus. 


Patrícia Porto

Cabelo de vó

Esta que dança no escuro da terra é minha avó,
ela saiu da cidade, ela cortou o cabelo,
ela teve muitos filhos, mas só criou uma

minha avó é aquela de calça comprida,
ela fugiu com um aviador,
ela largou meu avô e nove filhos

a mulher que dança no sol é minha avó,
ela encolheu de repente,
ela viveu em São Paulo,

esta que veste chambre é minha avó,
ela fala em línguas estranhas,
ela envelhece de raiva,
seus cabelos são longos como os da Rapunzel

a mulher que dança no mar é a minha avó,
ela escuta a rádio relógio,
ela é a mulher das horas,
seus cabelos tecem o ventre do Novo Mundo

- ele está vazio

Patricia Porto

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Golpe




Alguns me dirão que o caminho certo está do outro lado da porta.
Prefiro a saída enigmática e desconhecida das ruas.
Elas me lembram que há muitos seres como eu,
isolados, dessolados, desistidos, insistindo, profanando de
esperança qualquer matéria de opressão.

Patricia Porto

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O circo dos horrores e as mulheres serpentes

Enrico Robusti

A mulher corpulenta de colar de pérolas, riso cínico de pérolas, olhos sorrateiros de pérolas anunciava o cortejo dos trabalhos. Sem reflexo, olho de vidro, com um cinismo mais tórrido que seu vestido de viscose, visgou-se no muro. O urso polar está em extinção, mas a mulher justiceira de pérolas em multiplicação prolifera-se. Eram meninas soberbas. As meninas prodígios com vestidos de flores verdes como flores amarelas de plástico e alegorias de igreja. Egos nervosos, ecos de caverninhas de Platão perdem para inferninhos de Dante. Falas de direção, vozes duras, timbre másculo feito um pau em ereção pela manhã. Como competir? Para quem competir? Competir, competir... feito um pau de viagra, uma vagina com estacas de pau de sebo, bola de sebo, o sebo escorrendo pela boca da vagina de plástico.
Como competir com a vagina de sebo? Como levar vantagem em tudo? Como enrouquecer a voz e pisar de coturnos em marcha com mechas longas guiando criancinhas para a câmara de gás? Rostos de garotas coca-cola, como competir? Como vencer da coca-cola? Como vencer se a pessoa de nascença tem o nariz torto e o mal do septo?
A mulher serpente de plástico terminando os trabalhos, olhos de pirata, sorriso de fios de vilania, incensava o ambiente, colar de pérolas aos porcos, as porcas de visgo, viço fácil, dentes de porcelana. O rio ia passando lentamente sem cortes de edição... Choro de escada, escada de mármore polar, frio polar, abraço polar, solidariedade polar, solidários de merda que apertam com a mão mole, carregam pastas e dejetam pela boca que vão rezar pelos menos favorecidos. Menos favorecidos de quê?
A mulher corpulenta goza com seu pequeno poder de balança, seu pequeno poder de merda, goza com seu sorriso de merda, atravessa o corredor da morte alheia se achando a rainha da grande batalha, na sordidez da vitória. Mas no final do corredor se fingindo de amigo há um gato que ronrona.
No circo das mulheres serpentes tudo desfunciona numa traquitana.
E serão servidos testículos de velhos bois como prato principal, uma iguaria.

Patrícia Porto

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

válvula e escape

David Mellon



aço no caos
como parafusos apertando,
sol de agosto é frio na nuca
e bolso vazio

olho para o cão que passeia comigo

dias de dizer sim ouvindo não
como essas imagens de cinema,
as dores de deserto que nos atravessam
são holofotes na casa dos quarenta
- não sei se viverei para contar meus ossos

viajar de corpo
é para os que sabem viver

eu vou amarrando as tirinhas no braço,
calafrio é sem etiqueta,
 a certeza de não sofrer de delírios é que é mais dura

uma canção dizia "quem sabe a gente se esbarra..."
quem sabe por dentro dessas vagas
nesses dias vultos
feito eu, esse fantasma

mas desejo é gentileza,
e gentileza é ter pavio, algum desejo


Patricia Porto

Livramento

Paulis Postazs



Não sou um bicho ordeiro
feito as galinhas de Meruca

- misteriosos eram os galos e as galinhas daquele lugar.

Feito um galo de briga cresci em meio às galinhas,

por isso me tornei um galo,

um galo de briga.

Pescoço duro, eriçado.

O avô, compenetrado, com a mão no queixo.

Misterioso era nascer mulher e galo

entre as galinhas ordeiras de Meruca, a beata.

Reminiscência é onda, água boa de sonho,

argila mole pra fazer o santo da casa

- por fora é que crença, a cura,

por dentro é esse sem limite, essa sombra.

Quando um verso molda

outro vem, rói a corda.

O livramento é um raso

e a memória dá rasteira no destino

com suas longas pernas de pau.

Patricia Porto

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Lavanda

Pina


o cheiro crespo tem lavanda
minha roupa crespa
meu teto crespo
meu cabelo crespo tem essa lavanda

eu trocaria qualquer mediocridade instantânea
por um minuto de ideia acesa

o corpo tem essa história secular
com sabor de terra,
perdemos em fascículos

eu trocaria os tambores que estão em cima do armário do quarto
e me deitaria de botas na cama,
a blusa aberta

o tempo tem essa vertigem secular
e eu me mataria por pouco
- tanta poesia vazia nas prateleiras

mas essa lavanda me exala, me exila

Patricia Porto

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Para os nossos dias mais sagrados

Whattaroll


Para os nossos dias mais sagrados

Não vou desistir do poema
Não vou desistir da língua que como
à brasileira]
a brasileira no caldo do trabalho
- o fruto a fluir quente
entre minhas pernas

Água de nós
são flores de narciso
Não vou desistir do ato e cairei de pé!
não vou desistir de escrever no muro o que falo,
não vou desistir da mulher que não quis parir
Da maternidade sei a voz mansa do veneno
como o engasgo que mata suave,
feito o engodo que vive nos braços,
o engodo que chamarás de mulher, mãe e filha

Água de minha língua,
ácida nos olhos da mulher que chora pelo filho postiço,
molhando de desespero a saliva dos agregados,
não vou desistir desse objeto oculto e mítico,
não vou desistir da criança que ficou presa no quarto,
não vou desistir do desejo de partir para longe de toda indiferença,
não vou desistir de escrever as palavras que te furam, te ameaçam

Saibam, moças de escrita culta,
não vou desistir de esfregar o poema da mulher da rua – na cara do senhor Puntila,
da mulher de língua fácil, da mulher em trânsito, no tumulto de seus contrastes,
quero a língua toda, a medonha, o sol que vai subindo,
queimando,
céu & inferno

Não vou desistir de deixar Orfeu

Ela é minha,
minha essa outra
A mãezinha da cantiga está morta.
Restou-me esta aqui: a carnívora

Patricia Porto

domingo, 14 de agosto de 2016

A natimorta



Patricia Piccinini


A natimorta

No espelho uma mulher se desconhece.
A solidão é sempre
útero invertido
- incapaz de gerar uma sociedade.


Patricia Porto

Para o admirador que aplaude a poesia de vitrine.



Posso ver o rosto da mulher que veio antes de mim.
Era uma mulher portuguesa, uma mulher negra, uma mulher índia.
Elas estiveram fazendo sangue na minha história pela raiz.
Posso ver o rosto da mulher que me habitou uma ancestralidade
na minha origem mortificada,
morta aqui como eu estou com meu cigarro apagado nas mãos,

posso ver minha vertigem e não é da natureza,
não é da natureza a herança branca e limpinha,
não é da natureza a zona de conforto de pares justificados,
não é da natureza a verdade de ver
na poesia a bocetinha de ouro,

abri a revista e avistei a mulher branca, bonita, enfeitando as páginas dos poemas,
consagrada por autores brancos,
homenageada por seguidores brancos, ceifadores de matéria prima exótica.
Bebedores de Whisky que compram no freeshop
festejavam a poesia comprada a peso, oferecida como peça de buffet,
poema de grife, esmalte rubro na unha,
poesia vendida para colecionadores brancos
em suas festas brancas,

poesia engraçadinha, poesia da moça da vitrine,
poesia gostosinha, poesia branca,
para homens sebosos, gordurentos brancos.

Posso ver o rato, a curva por onde passa um elefante branco
- desejo me comunicar com eles,
- não são homens os animais incomunicáveis, não são brancos, não consomem poesia de riso fácil.

Mordo meu cigarro. Quero me comunicar com elas, as loucas sem endereço, as incomunicadas,
as putas da minha ancestralidade, as que levaram porrada, as intocadas,
as que existem e marcam, e as párias, as ajustadas com ferros nas cabeças,
as sem território,
as mulheres arrastadas pelo asfalto,
as que choram na carne a perda
as que ficaram na pedra, sem juízo algum.

Não há lugar para mim
entre os poemas perfumados à francesa,
não há lugar para mim
entre homens brancos que celebram a poesia de vitrine.

Quero o cheiro da gente, a suja,
o sabor do sangue na boca,
o poema que morde
e morde.

Patricia Porto
  

sexta-feira, 22 de julho de 2016

só para bonecas

Dara Scully

era corpo e arrebentação,
precisava expurgar em labirintos,
comer da noite sua dose de alternância

era corpo e era desejo,
não era uma ciência exata,
era faca no ventre, dama e vespeiro,
aborto de qualquer modelo de vida e ordem desgraçadas

eram vidros que lhe cortavam a cara e os cacos um chão de cozinha suja

a boneca de asfalto era fodida, a mestra da miséria,

queriam lhe arrancar os olhos e depois o coração,
a louca varrida, a grita gasta, estragada no tempo,
fruta de desterro, coisa de surrar, comer, deixar à mostra,
peitinhos amolecidos

a boneca de gente era carne de segunda,
mas de quando em quando girava
as maçanetas,
os cilindros,
os tambores,
todo maquinário da caixa
-até à última nota de doçura e queixa

Patricia Porto


Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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