quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Mil lutos


Patricia Porto, fotografia:  Pierre Grapez




Sinto sua falta
De todas as maneiras eu sinto 
E me vejo através dos dias que fomos eternos
Junho ou julho, tomando café coado próximo à linha do bonde
Um sol na pele dizendo o quanto eu estava viva
Havia uma luz indescritível que vinha de fora
Eu poderia tocá-la com os dedos e toquei
Você levava um doce à boca, mil folhas
Mil camadas entre o sorriso e a despedida
A linha do bonde transpassada pelos meus olhos
Então eu abri a porta e não éramos nada
Nada havia existido
Talvez a terra sedenta
Mil folhas
Vagando 

Entorpecida me deito 
E me levanto sempre



Patricia Porto

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Do Encontro entre o Amor e a Resistência: O indizível sentido do amor




 “Tudo isto realizo no imenso palácio da memória. Aí estão presentes o céu, a terra e o mar com todos os pormenores que neles pude perceber pelos sentidos, exceto os que já esqueci. É lá que me encontro a mim mesmo, e recordo as ações que fiz, o seu tempo, lugar, e até os sentimentos que me dominavam ao praticá-las”
(Santo Agostinho)


Há textos que nos provocam um sentimento tão grave de similitude que tomar distância dele vai exigir alguns dias de esforço. Foi a sensação que tive ao terminar de ler o romance de Rosângela Viera Rocha, “O indizível sentido do amor”.  Lembro de Leonardo Boff quando diz que “cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam”. Uma resenha é feita a partir dos olhos de quem lê, mas meus olhos de memorialista, meus olhos de poeta, os meus olhos de maranhense e ativista política, como poderiam ler o livro de Rosângela Vieira Rocha, distanciados da guerrilha, da resistência, da memória da luta dos camponeses, da luta do meu próprio povo, da memória de testemunho? Por isso não foi uma tarefa sem esforços de leitura e de esforços de mais esquecimentos que lembranças. 

Rosângela Vieira Rocha escreve uma narrativa memorialística. Não é um romance de autoficção. Por isso mesmo é preciso entender a diferença entre eles. A narrativa memorialística, diferentemente do romance de autoficção, pretende reinterpretar a memória dos acontecimentos, buscando elementos de escavação, de palimpsesto e investigação de testemunhos e memórias no intuito da reconstrução narrativa de um determinado tempo histórico ou ainda de tempos históricos emparelhados. Há um profundo sentimento investigativo na tarefa de reconstrução dessa memória, pois passa pela subjetividade de quem se debruça sobre a História pelo testemunho aliada à objetividade dos acontecimentos. Mais do que com a verdade, há compromisso com o testemunho. Nos romances de autoficção, o compromisso é com a ficção - que tem elementos da realidade pela escritura, pela artesania, pelo trabalho sígnico num jogo estético de linguagens e imagens híbridas, simbólicas, metafóricas do real. Na escrita memorialística o trabalho é o da fiação de um tempo plenamente constituído, historicamente palpável pela experiência, mesmo que também híbrido na sua reconstituição de significados.  Na ausência, nos vazios e “entres” da escrita memorialística há substâncias também ficcionais não pretendidas. Como diria Pedro Nava, é uma escrita anfíbia.

“O indizível sentido do amor” é um romance que fala de “amor e luto”, de perdas, de luta pelo luto, de um diário de viagem do externo para o interno, de exílios distintos, de reencontros e Encontro, de estar presente e ausente, de encontrar-se entre o Tudo e o Nada, de recompor sua própria história. É um romance memorialístico de uma mulher que diante do infortúnio da morte e da separação do homem amado, José, busca recompor um elo de conexão entre passado e presente, presente e passado. Só nesta primeira leitura já somos apresentados a princípios literários da narrativa memorialística: a busca permanente, o eterno retorno e a descoberta inexorável de um tempo cíclico que é próprio da narrativa das experiências, da narrativa de memórias. A narrativa de Rosângela vai e volta num tempo circular, o que é próprio dos memorialistas, um ir e vir, buscar o corpo de Eurídice, mas para quê? Para confrontar-se com o Nada sem pessimismo, sem notícias de mágoa. Por isso a ilusão de distanciamento, que na verdade trata-se de uma aproximação tão intensa que a própria ideia de apego se desvanece pelo sentimento de consciência ampliada do ser nesse tempo.     

O livro traz tempos e memórias que se conectam à nossa história recente. Ainda neste ano de 2017, estive com William da Silva Lima no seu aniversário de 85 anos. Mesmo depois de um derrame, William conversou comigo, de forma muito clara e lúcida, sobre a importância da literatura na vida dos presos comuns da época da ditadura militar. De como tinha sido importante na vida dele a leitura de Euclides da Cunha e de como o contato com outros presos políticos e os livros tinha feito com que ele compreendesse o Brasil e as desigualdades que já conhecia muito bem da vida na cidade.
José, marido de Rosângela, grande amigo de Alípio de Freitas, esteve preso na Ilha Grande. William também esteve preso na Ilha Grande com Alípio de Freitas. Alípio é um dos elos que reconta a história de José. É o homem pelo qual Rosângela procura desvendar elementos de testemunho das torturas de um tempo político que foi silenciado e se tornou silencioso.

Alípio de Freitas foi padre e revolucionário na minha terra, São Luís, onde de fato travou contato com a miséria humana num tempo em que a luta camponesa se acirrava e tomava vultos de radicalidade. Meus avós conheceram a história de Alípio e da sua paróquia. Nós ouvíamos em casa as histórias de luta por terras e de como a Igreja Católica, com a eleição de João Paulo II, tinha tratado de emudecer e reprimir o movimento progressista e os que estavam ao lado da luta camponesa, os  que seguiam a teologia da libertação. Já na escola de freiras, das irmãs capuchinhas, na década de oitenta, éramos obrigados a ter aulas sobre o novo Papa. O retrato de João Paulo II se espalhava pelos corredores da escola, pois precisavam nos convencer, ainda crianças, que os caminhos de Deus não passavam pela reforma agrária e que a miséria do nosso povo não advinha daí. 

Não posso falar do romance “O indizível sentido do amor” sem falar da nossa história brasileira, e até mesmo sem falar da minha história brasileira, pois Rosângela no seu trabalho memorialístico e jornalístico, nos oferta -  em “religare” – esse corpo, essa ossatura que não foi enterrada o suficiente para se tornar invisível, imperceptível ao chamamento da memória. Assim, a autora nos ajuda a desvelar uma parte do que foi apagado com propósitos, escondido pelas tramas políticas que se seguiram à ditadura militar, tramas que desembocam no Golpe de 2016.  Por isso o trabalho de Rosângela Vieira Rocha é, indiscutivelmente, um trabalho necessário para o debate sobre os porões e as armadilhas da ditadura militar, porque precisamos lembrar para não esquecer, lembrar para não repetir. Já que fomos atravessados pelas notícias de outras farsas, entre uniformes e togas. 

O Luto de José e o Luto de Rosângela

Nas idas e vindas da memória de Rosângela Vieira Rocha, busco me refugiar no fio de Ariadne para não me perder dentro dos labirintos que a leitura do livro vai compondo com meus fantasmas, pois preciso voltar e visitar José na UTI. Agora também eu, leitora, sou testemunha dessa narrativa. Entre a discrição de José e o delicado diálogo de Rosângela com o luto encontramos uma linguagem estética que há nos melhores textos memorialísticos: a sobreposição de cenas, o jogo espelhar da urdidura narrativa em que uma cena traz a outra, feito caleidoscópio, camadas de imagens e linguagens que se alternam com os efeitos da memória viva, encarnada. Todos os ponteiros cabem num instante. E cada instante é feito de mil ponteiros. Os guardados de José fazem parte de sua luta/luto, e feito sobrevivente e testemunha, não há uma gota sequer para além do que merece ser falado/derramado. Rosângela é a voz que rompe muitos solos de não-ditos e através de sua luta/luto as alternâncias entre Cronos e Kairós vão se tecendo pelas palavras, entre o tempo elástico das reminiscências e o tempo-colheita-lavoura de dizer-se, contar-se para além de seu próprio ciclo temporal, abrindo-se ao círculo maior que é feito das memórias coletivas, memória de todos nós que amamos, vivemos, lutamos, sabemo-nos vivos até o finito, até o corte da última parca. Os dias, as noites dos lutos de José e Rosângela são os dias, noites que narram, magistralmente, o “indizível do amor”.

“Tentei contar a sua história, que não é propriamente uma história, são apenas “flashes” do que penso ter sido a sua vida. (p.186)     

Proust está feliz. Pois encontramos aqui um romance em outra língua.


*
Por Patricia Porto



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ROSÂNGELA VIEIRA ROCHA


Rosângela Vieira Rocha nasceu em Inhapim, MG. Tem onze livros publicados, quatro para adultos e sete infantojuvenis. Recebeu vários prêmios literários, entre os quais se destacam o Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG-1988, com o romance Véspera de lua, e a Bolsa Brasília de Produção Literária 2001, com a novela Rio das pedras. Participou de várias coletâneas de contos, entre as quais Mais trinta mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. Além de escritora, é jornalista, mestre em Comunicação Social, bacharel em Direito e professora aposentada da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília - UnB. É colunista de duas revistas culturais e literárias digitais. Ministra oficinas de textos e de literatura, além de palestras.

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Título: "O indizível sentido do amor"
Editora: Patuá
Ano: 2017

Onde comprar:

           

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A Poesia de Carlos Orfeu: O desassossego e a invenção nos (in)visíveis






O desassossego e a invenção nos (in)visíveis
/por Patrícia Porto/


Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura.
Roland Barthes


nas paredes
em despudor de silêncio
a litania do invisível

no cio do limo
a sinfonia do mofo
lavra
o
segredo
da
rachadura


         É nas trincheiras da arte poética do cotidiano que encontraremos novos signos de resistência estética para a poesia. Prova disso é o livro de estreia de Carlos Orfeu, “(in)visíveis cotidianos”, que se desdobra páginas-corpo-poemas em múltiplos olhares que atentam para os “pequenos nadas”, expressão tão bem criada por Michel Maffesoli. Não foi à toa que a leitura das cenas cotidianas, dos frames que o poeta nos apresenta em versos densos e concisos, me levou a dialogar com lugares que refletem a relação entre o poder e o cotidiano, assim como também me fez pensar na relação do homem comumcom o invisível corriqueiro. São reflexões que me fazem dialogar com a sociologia, a história, a história dos oprimidos, dos excluídos. Por isso, na leitura de “(in)visíveis cotidianos” não é simples apartar do aspecto crítico e literário da leitura o aspecto sociológico que há na cotidianidade. São poemas sobre o “tempo presente”, sobre a rotina, os pedaços do mundo, os vestígios da vida, os fragmentos que se amontoam como cruzes, estradas, corpos, urgências perfiladas por uma faixa humanatambém esquecida, abandonada, in-visibilizada. E intuo que na voz do poeta há também outros ditos no desvão das imagens – como palimpsestos,um volume sempre por-vir, uma nova urdidura entre a palavra e a espera.

Há no livro um mundo imagético a ser desvendado pelos leitores, há um convite que leva o olhar a funcionar como pausa.


no cio do limo


Carlos Orfeu parte do instante para o eterno como se parasse o tempo, o mantivesse em suspenso, e transformasse aquele momento num vórtice que une o todo.

Assim os poemas se conectam num livro-corpo que é também devir. E ler os (in)visíveis é aguçar os sentidos, conhecer as camadas para ouvir “a sinfonia”.


a lâmina ceifando a vida em seivas


               Feito a ninfa Eco - repito “seivas” e vou dedilhando as imagens que o poeta me apresenta. Na minha andarilhagem corro o risco da errância, e dialogo com mais imagens do cotidiano, as de Manuel Bandeira, Mário Quintana, Maria Helena Latini, Líria Porto e outros que me fizeram debruçar o corpo e a alma, todos os sentidos expandidos, para a importância desses significantes, numa outra dinâmica com este cotidiano. Carlos Orfeu chega para compor este painel de poetas e se une aos que ousaram dizer muito com menos, ver muito onde se vê menos, ser bastante sem desprezar esse menos. Porque há nesta arte - uma punção de vida, uma potência na vivência com “os pequenos nadas” e que precisa ser desvelada a partir de uma outra recepção, a que não exclui as  aventuras e as delicadezas do habitual - no seu trágico e belo, seja na voz, no silêncio. Mas para isso será preciso compreender uma lógica avessa à que nos faz perder os sentidos com  excessos.  Será preciso pousar o olhar no tempo íntimo das coisas, no tempo elástico das sensações do corpo, da casa, da rua, do urbano, desse nada que é tanto.

corto cebolas
com olhos ensopados

de águas esquecidas

       
Publicado originalmente na Revista Mallamargens:
http://www.mallarmargens.com/2017/07/o-desassossego-e-invencao-nos.html

Onde adquirir:
https://www.facebook.com/carlos.orfeu






INTERROMPIDOS, MAS PERMANENTES








“Ouvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. 
Como então posso estar louco?” […]
Edgar Allan Poe  


Ainda na contemporaneidade, Edgard Allan Poe, Piglia, Borges, Cortazar... são alguns nomes que influenciaram o que podemos entender como crítica do conto. Guardando cada qual sua peculiaridade teórica, convergiam na ideia do poder da síntese associado à qualidade literária. No mais, a teoria do conto é um caldo repleto de considerações teóricas completamente opostas e até díspares. Uma das significativas definições de conto foi defendida por Cortazar e diz perto ao apelo à síntese dessa narrativa:
Mas se não tivermos uma ideia viva do que é o conto, teremos perdido tempo, porque um conto, em última análise, se move nesse plano do homem onde a vida e a expressão escrita dessa vida travam uma batalha fraternal, se me for permitido o termo; e o resultado dessa batalha é o próprio conto, uma síntese viva ao mesmo que uma vida sintetizada, algo assim como um tremor de água dentro de um cristal, uma fugacidade numa permanência.
Ora, para escrever menos seria preciso escrever mais. Pois cortar na carne, encontrar soluções complexas e intensidade como enfatizava Poe, ou trabalhar com a “unidade de efeito”, o caráter de sugestão, não guiar o leitor a um desfecho único, todos esses são elementos imprescindíveis à escrita do conto.

Estreitando esse universo de “fugacidade na permanência”, chegamos aos contos curtos, narrativas breves, inquietantes, argutas e com alto domínio de síntese,  podendo até mesmo não chegar ao final de uma página. Um trabalho delicado de artificie das palavras - aquele que mantém a lâmina de corte sempre afiada. E esta qualidade peculiar da lâmina, assim como o uso de um dinamismo narrativo tão apropriado ao nosso atual contexto – paradoxal e caótico nas relações - são princípios instigantes que poderemos encontrar no livro de contos “Interrompidos”, de Alê Motta, lançado, neste ano de 2017, pela Editora Reformatório.

Na sua narrativa, a autora traz elementos essenciais ao conto, do qual se ocupa a teoria literária mais ampla, e também ao microconto, novo gênero que exige a dinâmica do próprio movimento da narrativa como pré-texto, uma câmera em suspenso constante, pendular, nervosa que segue de muito perto os personagens. Nos textos curtos da autora, há o conciso e o corte, a intensidade e a sugestão, o efeito de unidade e a permanência. A autora maneja com maestria seus instrumentos cirúrgicos, numa precisão necessária. São contos que mesclam o prosaico com o urbano, histórias urgentes e agudas sobre situações cotidianas e familiares.


Alê Motta imprime impacto, força, constrangimento, humor e até mesmo boa dose de sadismo como mecanismos da narrativa. As cenas, incidentes, tragédias vão se sucedendo numa tensão crescente.  Lido de uma sentada, o livro lembra por vezes um afogamento – cada conto é uma submersão, cada intervalo entre os contos, uma subida para respirar. Há um sentimento de agonia, de luta, de necessidade e mergulho. E uma obra que consegue causar tais sentimentos é uma obra a ser lida e merecidamente notada.



Onde encontrar:
Editora Reformatório
Link para saber mais.
http://www.tanlup.com/interrompidos-de-ale-motta-1164325
 
Patricia Porto

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Começa em Mar – Uma leitura



É intensa e infinita a infância, rua de onde não se sai de todo. Nublagem feito sombra que entranha, quase víscera. Da infância ninguém se recupera totalmente.
 (Começa em Mar, p 132)


Não costumo chamar de resenha o que se faz de forma tão intimista e confessional. Acredito que seria melhor chamar de leitura ou carta, uma carta que envio para a escritora de um certo além-mar, autora de um dedilhar poético que comunga exílios com memórias de sal, as que nos noticiam da nossa própria formação identitária. Na minha leitura que começa antes do livro, o Mar, ou melhor, a Mar começou por um encontro entre Porto e Mar-anha. Porque o Porto se encontra é no Mar. E o primeiro contato com Vanessa Maranha se deu através do Mar, das águas e da ilha. Eu tinha feito um comentário no grupo do Mulherio sobre a nossa líquida forma de existência e insistência em ser mulher, de como nós nos fazíamos de líquidos, liquefeitas das águas que marcavam nossos ciclos. No meu caso, vida de Porto, ilha do Maranhão. E foi nessa sincronia que fui apresentada à Alice, a protagonista do romance de Vanessa Maranha, “Começa em Mar”, da editora Penalux, lançado em 2017 e que antes mesmo do lançamento já tinha recebido Menção Honrosa no Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura (2016). 

Com uma escrita fina e delicada no tecer de sua linguagem, Vanessa Maranha nos traz um romance de fundação feminina, que ousa descolar-se dos relatos, crônicas dos homens que nos contaram por séculos a fio, em suas viagens de mar. 

Se a rotina do Mar é ir e vir, é no círculo repetitivo das marés, do alto e baixo, cheio e vazio que se inicia a história desse romance. “Começa em Mar” nos embala numa dança vernácula em que signos são marinhos, são do silêncio, da saudade e do tempo, essa tríade de quem sempre queima as naus. O trabalho com a linguagem que Vanessa Maranha imprime ao romance é de uma polifonia marítima sonora e imagética, marcando os passos da estrangeira, exilada, expatriada em busca e perda permanente de pertencimento. Ouso dizer que Alice, A Zuma, é parte também do que é todo feminino, assim como as mulheres que se desdobram dela em Matrioska (Marta, Hortência e Jordana), as outras personagens fadistas, filhas do silêncio e da solidão, do Mar no seu cruel, Deus de Abraão, o mar que nos ilha, nos ameaça e mata, o mar no masculino, pai da ordem na cabeceira da mesa, como os pais que conheci no nordeste brasileiro e o pai de Alice, o desertor. Às mulheres entoam cantos ao sepulcro vivo, a insatisfação de Concha, mãe de Alice, é a costela, o trabalho inacabado do senhor da criação. E ouso dizer que o melhor da literatura de memórias ficcionais é quando realmente encontramos com personagens com os quais nos identificamos e reconhecemos em histórias.   Os pais de Alice são os pais da pátria colonizada, Portugal e Espanha, a península ibérica e as disputas de território em tratados e destratos, o velho mundo parindo um novo, a nova América, nascida já velha à espera de um Dom Sebastião.

“Mareava, ameaçador, uma iminência aos ilhéus que o respeitavam como a um deus temperamental e voluntarioso vezenquando rugindo ondulado, encaracolado, vez ou outra matando alguém, engolindo um chalé de caiçara ou uma casa de praia. A depender dos seus humores e Róvia conhecia bem a disposição justiceira das águas. Desse mar, não estaria a salvo quem ali teimasse, era motivo, rota, destino.” (p. 33)

Nesse ritmo de ondas imagéticas, Vanessa Maranha desfila um universo de personagens híbridos, outros tantos “forasteiros”, histórias cruzadas, desafiadas pela constância e inconstância do Mar com suas figuras míticas, o que nos revela as nuances de um realismo fantástico, cercado pela visão sobrenatural tão própria dos que vivem ilhados.  Em minha ilha, desde criança, ouvi dos mais velhos que sumiríamos do mapa, engolidos por uma serpente de duas cabeças, alojada nos túneis subterrâneos, construídos pelos portugueses. Crescer com uma serpente de duas cabeças é um convite constante ao fantástico.

Dos abissais exílios dessa narrativa que vai se tornando híbrida no percurso, Alice chega a vida adulta e se casa com Rafael, o não-marido, aquele que se encaverna no lobo do homem. A contradição e junção entre solo e mar, o pertencido e o desconhecido, entre o real e o fantástico tomam conta da narrativa da autora, que traz para o Mar o feminino, como na língua francesa, La Mer, ela, a mar. A história de Alice é a história de quem busca pertencer, se encontrar em algum lugar, entender seu tempo, sua origem fragmentada em mágoas e silêncios, distâncias. Por isso ela se lança ao desconhecido do Mar e se banha nele de sua própria carne e língua, de seu conhecimento de si mesma, mulher do sem-lugar. Seu pertencimento é o entre, o que não existe. Não pertencer é assim pertencimento e despertar. São as sereias que cantam pra Ulisses. As que carregam os pescadores para o sonho. As que entoam o canto de morte e vida.  São as musas do profundo naquilo que parece plácido e silencioso. Mas às mulheres comuns, transformadas da loucura libertária tão feminina, a metamorfose não é a da sereia, mas a do peixe, a das raízes ou da ave, do ir para dentro, do desaguar ou revoar em bandos, para encontrar-se nelas ou para conhecer delas outra dimensão liberta, nas dobraduras do tempo não linear.

“O tempo, devorador, é pródigo em esfumar os significados ou adulterá-los às conveniências. O tempo é despudorado. O tempo começa a dar pequenas notícias de passam. No corpo, no coração.” (p. 147)

O tempo que nos devora e que nos devolve ao mundo, que nos difusa a busca, nos enreda. O tempo do romance de Vanessa Maranha termina em mar para começar em mar em cheganças, arroubos, perdas, sonhos e amores.

Obrigada, Vanessa, por me mostrar o quanto eu também começo em Mar. “E a memória...” Em labirinto.

Com afeto,
Patricia Porto


* Onde adquirir: Loja Virtual da Editora Penalux

sábado, 9 de dezembro de 2017

Onde estiveste de noite? (Lygia Fagundes Telles)



De Lygia Fagundes Telles para Clarice Lispector.

Acordei em meio do grito, gritei? Com os olhos ainda flutuando na vaga zona do sono, levantei a cabeça do travesseiro e quis saber onde estava. E que asas eram aquelas, meu Deus?! Essas asas que se debateram assim tão próximas que o meu grito foi num tom de pergunta, Quem é?...

Abri a boca e respirei, tinha que me localizar, espera um pouco, espera: estava sentada na cama de um hotel e a cidade era Marília. Cheguei ontem, sim, Marília.

Tudo escuro. Mas não tinha um relógio ali na cabeceira? Pronto, olhei e os ponteiros fosforescentes me pareceram tranquilos, cinco horas da madrugada. E antes de me perguntar, o que estou fazendo aqui?, veio a resposta assim com naturalidade, você foi convidada para participar de um curso de Literatura na Faculdade de Letras, dezembro de 1977, lembrou agora?

Voltei-me para a janela com as frestas das venezianas ligeiramente invadidas por uma tímida luminosidade. Por um vão menos estreito podia entrever o céu roxo. E as asas? perguntei recuando um pouco, pois não acordei com essas asas? Pronto, elas já voltavam arfantes no voo circular em redor da minha cabeça. Protegi a cabeça com as mãos, calma, calma, não podia ser um morcego que o voo dos morcegos era manso, aveludado e esse era um voo de asas assustadas, seria um pombo?

Ainda imóvel, entreabri os olhos e espiei. Foi quando o pequeno ser alado, assim do tamanho da mão de uma criança, como que escapou dos movimentos circulares e fugiu espavorido para o teto. Então acendi o abajur. A verdade é que eu estava tão assustada quanto o pássaro que entrara Deus sabe por onde e agora alcançara o teto abrindo o espaço em volteios mais largos. Levantei-me em silêncio e fui abrir as venezianas. O céu ia emergindo do roxo profundo para o azul. Olhei mais demoradamente a meia-lua transparente. As estrelas pálidas. Voltei para a cama.

Puxei o cobertor até o pescoço e ali fiquei sentada, quieta, olhando a andorinha, era uma andorinha e ainda voando. Voando. Meu medo agora era que nesse voo assim encegada não atinasse com a janela. Na infância eu tinha convivido tanto com os passarinhos, os da gaiola e esses transviados que entravam de repente dentro de casa e ficavam voando assim mesmo como que encegados até tombarem esbaforidos, o bico sangrando, as asas exaustas abertas feito braços, e a saída?!...

Vamos, pode descer, eu disse em voz baixa. Olha aí, a janela está aberta, você pode sair, repeti e me recostei no espaldar da cama. E a andorinha quase colada ao teto, voando. Voando. Esperei. O que mais podia fazer senão esperar? Qualquer intervenção seria fatal, disso eu sabia bem. Tinha apenas que ficar ali imóvel, respirando em silêncio porque até meu sopro podia assustá-la.

Voltei o olhar para o pequeno relógio. Mas o que significava isso? Uma andorinha assim solta na noite, voando despassarada no meio da noite, de onde tinha vindo e para onde ia? Ainda estava escuro quando ela entrou e começou a voar coroando a minha cabeça com seus voos obsessivos. Que continuavam agora no teto numa ronda tão angustiada. E com tantos quartos disponíveis nessa cidade, por que teria escolhido o quarto do hotel desta forasteira?

Inesperadamente ela conseguiu escapar da ronda em círculos e foi pousar no globo do lustre. E ali ficou descansando num descanso inseguro porque as patinhas trementes escorregavam no vidro leitoso do globo, teve que apoiar o bico arfante num dos elos da corrente de bronze por onde passava o fio elétrico.

Vamos, minha querida, desça daí, pedi em voz baixa. A janela está aberta, repeti e fiz um movimento com a cabeça na direção da janela. Para meu espanto, ela obedeceu mas ao invés de sair, pousou na trave de madeira dos pés da minha cama. Pousou e ficou assim de frente, me encarando, as asas um pouco descoladas do corpo e o bico entreaberto, arfante. Ainda assim me pareceu mais tranquila. Os olhinhos redondos fixos em mim. A plumagem azul-noite tão luzidia e lisa, se eu me inclinasse e escorregasse um pouco poderia tocar na minha visitante. Andorinha, andorinha, eu disse baixinho, você é livre. Não quer sair?

Aos poucos foi ficando mais calma, as asas coladas ao corpo. Continuava equilibrada no espaldar de madeira roliça, mudando de posição num movimento de balanço ao passar de uma patinha para a outra. E os olhos fixos em mim. Mas esta é hora de andorinha ficar assim solta? Por onde você andou, hein?

Ela não respondeu mas inclinou a cabeça para o ombro e sorriu, aquele era o seu jeito de sorrir. Apaguei o abajur. Quem sabe na penumbra ela atinasse com a madrugada que ia se abrindo lá fora? Com a mão do pensamento consegui alcançá-la e delicadamente fiz com que se voltasse para a janela. Adeus! eu disse. Então ela abriu as asas e saiu num voo alto. Firme. Antes de desaparecer na névoa ainda traçou alguns hieróglifos no azul do céu.

Véspera dessa viagem para Marília. E a voz tão comovida de Leo Gilson Ribeiro, a Clarice Lispector está mal, muito mal. Desliguei o telefone e fiquei lembrando da viagem que fizemos juntas para a Colômbia, um congresso de escritores, tudo meio confuso, em que ano foi isso? Ah, não interessa a data, estávamos tão contentes, isso é o que importa, contentes e livres na universidade da cálida Cali. Combinamos ir no mesmo avião que decolou sereno mas na metade da viagem começou a subir e a descer, meio desgovernado. Comecei a tremer, na realidade, odeio avião mas por que será que estou sempre metida em algum deles? Para disfarçar, abri um jornal, afetando indiferença, oh! a literatura, o teatro. Clarice estava na cadeira ao lado, aquela cadeira que comparo à cadeira de dentista, cômoda, higiênica e detestável. Então ela apertou o meu braço e riu. Fique tranquila porque a minha cartomante já avisou, não vou morrer em nenhum desastre! E o tranquila e o desastre com aqueles rrr a mais na pronúncia que eu achava bastante charmosa, desastrrre!

Desatei a rir do argumento. A carrrtomante, Clarice?... E nesse justo instante as nuvens se abriram numa debandada e o avião pairou sereníssimo acima de todas as coisas, Eh! Colômbia.

La Nueva Narrativa Latinoamericana. No hotel, os congressistas já tinham começado suas discussões na grande sala. Mas essa gente fala demais! queixou-se a Clarice na tarde do dia seguinte, quando então combinamos fugir para fazer algumas compras. Na rua das lojas fomos perseguidas por moleques que com ar secreto nos ofereciam aquelas coisas que os brasileiros apreciam... Corri com um deles que insistiu demais. Já somos loucas pela própria natureza, eu disse. Não precisamos disso! Clarice riu e com o vozeirão nasalado perguntou onde ficavam as lojas de joias, queríamos ver as esmeraldas, Esmerraldas!

Quando chegamos ao hotel, lá estavam todos ainda reunidos naqueles encontros que não acabavam mais. Mas esses escrrritores deviam estar em suas casas escrrrevendo! — resmungou a Clarice enquanto disfarçadamente nos encaminhamos para o bar um pouco adiante da sala das ponencias; a nossa intervenção estava marcada para o dia seguinte. Quando eu devia começar dizendo que literatura no tiene sexo, como los ángeles. Alguma novidade nisso? Nenhuma novidade. Então a solução mesmo era comemorar com champanhe (ela pediu champanhe) e vinho tinto (pedi vinho) a ausência de novidades. Já tinham nos avisado que o salmão colombiano era ótimo, pedimos então salmão com pão preto, ah, era bom o encontro das escritoras e amigas que moravam longe, ela no Rio e eu em São Paulo. Tanto apetite e tanto assunto em comum, os amigos. A dificuldade do ofício e que era melhor esquecer no momento, a conversa devia ser amena, que os problemas, dezenas de problemas!, estavam sendo discutidos na sala logo ali adiante. No refúgio do bar, apenas duas guapas brasileñas com pesetas na carteira e com muito assunto. Clarice queria a minha opinião, afinal, quem era mais indiscreto depois da traição, o homem ou a mulher?

Lembrei que nos antigamentes (assim falava tia Laura) a mulher era um verdadeiro sepulcro, ninguém ficava sabendo de nada. Século XIX, início do século XX, Silencio en la noche, diz o tango argentino. Ainda o silêncio porque segundo Machado de Assis, o encanto da trama era o mistério. Na minha primeira leitura (é claro, Dom Casmurro) confessei ter achado Capitu uma inocente e o marido, esse sim, um chato neurótico. Mas na segunda leitura mudou tudo, a dissimulada, a manipuladora era ela. Ele era a vítima. Clarice pediu cigarros, eram bons os cigarros colombianos? Franziu a boca e confessou que sempre duvidou da moça, Mulher é o diabo! exclamou e desatei a rir, a coincidência: era exatamente essa a frase daquele engolidor de gilete do meu conto “O Moço do Saxofone”. Acho que agora elas já estão exagerando, não? Os homens verdes de medo e elas as primeiras a alardear, Pulei a cerca!... Mulher é o diabo!

Quando saímos, os congressistas já deixavam a sala de reuniões. “Olha só como eles estão fatigados e tristes!”, ela cochichou. E pediu que eu ficasse séria, tínhamos que fazer de conta que também estávamos lá no fundo da sala. Ofereceu-me depressa uma pastilha de hortelã e enfiou outra na boca, o hálito. Entregamos os nossos pacotes de compras a uma camareira que passava e Clarice recomendou muito que a moça não trocasse os pacotes das corbatas, na caixa vermelha estavam as corbatas que ela comprara, a camareira entendeu bem?

As recomendações de Clarice. No último bilhete que me escreveu, naquela letra desgarrada, pediu: Desanuvie essa testa e compre um vestido branco!

*

Um momento, agora eu estava em Marília e tinha que me apressar, o depoimento seria dentro de uma hora, ah! essas demoradas lembranças.

Quando entrei no saguão da Faculdade, uma jovem veio ao meu encontro. O olhar estava assustado e a voz me pareceu trêmula, A senhora ouviu? Saiu agora mesmo no noticiário do rádio, a Clarice Lispector morreu essa noite!

Fiquei um momento muda. Abracei a mocinha. Eu já sabia, disse antes de entrar na sala. Eu já sabia.


(Durante aquele estranho chá,  Companhia das Letras)


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

BOOK TRAILER | poesia "Cabeça de Antígona" de Patricia Porto





Reformatório | http://reformatorio.com.br



Maranhense, nascida em São Luís, radicada em Niterói, Patrícia Porto é formada em Literatura e mestre e doutora em Educação. Tanto como pesquisadora, quanto poeta, Patrícia Porto trabalha a memória como matéria prima de suas criações. CABEÇA DE ANTÍGONA (Ed. Reformatório, 2017) é o seu trabalho mais depurado no mergulho na memória. É o ponto alto de uma trilogia poética.Nele, a memória não é fundadora nem salvadora. A memória é carne. É corpo. É mulher. É aqui e agora. É onde a memória encontra seu lugar no mundo – e onde pode enfrentá-lo. Não há dúvida que o corpo feminino é um campo de disputas, de desejos, de interdições, de promessas e de libertação. Mas quando esse corpo é também o corpo da memória, todas essas características são transpassadas pelo tempo passado e pelo hoje. O corpo é a casa da memória. E Cabeça de Antígona é a casa em que essa memória se diz, se afirma, se impõe e encara o futuro, como se o anjo de Klee, inspirador de Walter Benjamin, decidisse virar para frente e abrisse as asas.



Onde adquirir: http://www.tanlup.com/cabeca-de-antigona-de-patricia-porto-1171538


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

“CABEÇA DE ANTÍGONA” faz uma bela mediação entre a cena e o poema




Resenha de Fernando Andrade
Ambrosia
http://ambrosia.com.br/literatura/cabeca-de-antigona-faz-uma-bela-mediacao-entre-cena-e-o-poema/

A vida é pequena para uma tragédia? A vida é longa em suas pa(i)ssagens? Como ver em cada cena, luz & sombra como um teatro reflete o vivente que nela se deita, palco? porque a vida em pé nunca saberemos quantas pedrinhas ou britas da poesia do Drummond (ande) haverá no caminho. Será que todos aparato das experiências que estão dentro do baú de guardados foram esquecidas?

Pergunto, olhando as pessoas, se temos gosto pelo inóspito destas paisagens onde o horizonte reflete a alma do caminhante-viajante. Se a vida é narrativa mas não ficção, o quê? O poeta pode fazer com a palavra-meta. A tarefa ou liame é lidar com os olhos do subtexto, pois o poeta tem uma faca atrelada ao dentes que é a linguagem. Corta que é uma maravilha. Corta na carne e sangra…

O livro de poemas Cabeça de Antígona da poeta Patricia Porto pela Editora Reformatório, poemas narrativos que possuem na maioria das vezes, um enredo. Mas a poeta os costura com uma lírica do rés do chão não pisando ou falando de territórios, mas talvez sim: geografia, que pode ser uma espécie de existência terrena, terráquea, algo como uma vida geográfica. Natureza humana – no dicionário planeta, natureza física. Mas que é corpo.

Há uma forte sensação de pertencimento nas palavras evocativas e fortes da poeta. Sua costura de imagens belas através dos versos me lembrou aqueles poemas épicos em que os acontecimentos pequenos e grandes vêm junto das boas “guerras”. O personagem é a via de uma interiorização, como no teatro que todo trabalho do ator parte de dentro para exteriorizar o fora no espaço cênico onde a plateia se choca com os jorros do magma textual-sensorial de cada ator-personagem. No livro da poeta,  ela parte bem por dentro de si, em suas raízes, em sua jornadas noite adentro para encenar e não expor suas fricções entre vida e bardo.

Sua palavra não vem de um contexto religioso, não há tom misericordioso em sua (po)ética. Patricia domina como poucos a textura/tessitura de um relação entre vida e mímese, entre  contido e o biográfico. Todo o livro é dividido em partes do próprio processo formativo do corpo como memória, experiência.

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FERNANDO ANDRADE
http://ambrosia
Escritor e poeta, e jornalista, tem dois livros de poemas, Lacan por Câmeras Cinematográficas, e Poemometria lançados pela editora Oito e meio. Participa do coletivo de Arte, Caneta lente e pincel, com contos e poemas. também participa do Trema Literatura, coletivo de textos de ficção. tem entre seus escritores mais amados, Thomas Pynchon, Ìtalo Calvino, e no cinema ama demais Krzysztof Kieslowski



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

13 por dia



Kylli Sparre


18 homens sobre seu corpo
13 mulheres assassinadas
18 homens num dia
13 mulheres por dia

Assassinadas

18 homens e a lei
13 mulheres assassinadas
18 homens decidem
13 mulheres assassinadas

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Barrocas

Pina Bausch - Blaubart, 1977


              Tudo tão provisório, Rose. Hoje encontrei nossas cartas, os poemas trocados no escuro da rua. Onde você estaria neste mundo? Por que não te encontro em lugar nenhum? De nós duas apenas uma foto com o sabor dos anos oitenta. E ainda guardo um guardanapo com escritas tortas, versos da nossa última vez num pé sujo. Por isso preciso andar todos os dias para tentar juntar estes fragmentos que também não me consolariam mais da perda da alma amiga.
                 Tudo tão intrigado em 86, uma mola de suspensão, uma ampulheta quebrada, um país se abrindo, mas não para nós, esquecidas de tantos e no chão de um alçapão de colher mulheres. Pois veja, essa minha roupa íntima, por exemplo, ela está muito bem surrada, vem sendo amaciada pelo meu sexo e vive desses contatos provisórios com minha mais doce e ácida notícia, minha pertença de mulher, uma mulher desconhecida das outras. Perdoem, elas não sabem de nós. São puras e inocentes, mamaram nos peitos de outras mães puras e inocentes e ainda tiveram boas escolas. Minha calcinha amaciada de algodão é minha poesia íntima e diária, longe daquele nome coletor que nos ordenava a costura de peças para reposição das vaginas de moças que se julgavam tão esclarecidas sobre nós, mas que nunca pisariam em nossos territórios – por medo, vergonha ou pelos dois. Pobres moças envergonhadas. Perdoem, elas não sabem de nós, Rose. Não sabem a metade da fruta que se pode sorver.
             E lembro que eu e Rose, debruçadas sobre a janela, ficávamos juntas fumando um baseado. Rose sim sabia onde escondê-lo. Ríamos do cheiro, porque passado pela revista das guardas, fumávamos outras tantas intimidades. A pele, erva doce, cabelos pubianos. Fumávamos uma cigarrilha e íamos para o disfarce, a cigarrilha que eu comprava como criminosa ao invés do pão. A pele e osso como deboche para as propagandas de alimentação saudável. Brincávamos as duas de trocar palavras, como "nada, nós fumamos apenas umas cigarrinhas", era como um tapa nos que nos condenavam por sermos mulheres da cidade baixa, nós ali brincando de jardins nos ralos da periferia, preservando os reinos vegetal, mineral e animal - para que as mais fortes crescessem robustas, rosadas. Nossos corpos de cigarras, nossos pelos pubianos, os cheiros crespos de nossos corpos, sabor de boca na nuca, o clitóris na boca um botão, entumecido, para ser chupado e na língua o delicado se abrindo e fechando em grandes, pequenos lábios de nossa linguagem de mistérios marinhos, molhados, molhadas, liquefeitas. Era tudo tão fundo que gargalhávamos das pequenas transgressões como loucas sedentas uma da outra. O salgado do abismo nos unia, a solidão das migrantes, a ousadia das putas, a insensatez dos homens que nos batiam e pagavam cervejas no fim do expediente. Sonhávamos em ser mulheres barrocas como as da igreja onde não íamos rezar, porque éramos a escória contagiada por todo tipo de subversão sem perspectivas de nada.
                  Conversávamos longamente sobre suicídio. Era um tema recorrente, porque éramos feias e pobres, não tínhamos casa, vivíamos nas rodas dos inválidos, apanhando de um ou de outro. Tínhamos direito ao suicídio, perguntei? Rose então me disse que não, morreríamos em asilos ou manicômios, isoladas dos pequenos prazeres terrenos, morreríamos de nosso próprio esgotamento de vida, amofinadas, e morreríamos da crueldade disfarçada de bondade humana, outra violência.
                 Para Rose, suicídio era uma terra apartada, não nos era palavra familiar como homicídio, morte a pauladas. Era um outro continente, como viajar para um país de outra língua, comprar uma peça de consumo caro, um queijo fedido, pertencia às que podiam comprar um bilhete sem volta.
               Ao barulho do sinal, entre gargalhadas ainda, nosso efeito de pequena rebeldia esfumaçava. Voltávamos de mãos dadas para o calabouço da colônia. Siamesas. Atemporais também.
              Antes de entrar, ela arrancou um hibisco e colocou no meu cabelo, suave na brutalidade do corte. Arrancou um hibisco em pleno dia e o sol ainda iluminava nossas caras!
              Éramos barrocas.


Patricia Porto

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

CABEÇA DE ANTÍGONA




CABEÇA DE ANTÍGONA - RELEASE

Maranhense, nascida em São Luís, radicada em Niterói, Patrícia Porto é formada em Literatura e mestre e doutora em Educação. Tanto como pesquisadora, quanto poeta, Patrícia Porto trabalha a memória como matéria prima de suas criações. CABEÇA DE ANTÍGONA (Ed. Reformatório, 2017) é o seu trabalho mais depurado no mergulho na memória. É o ponto alto de uma triologia poética.

Importante dizer que não se trata de memória ressecada, emoldurada ou de ninar. É a memória que nos faz o que somos e que pode surgir a cada decisão que tomamos, a cada ato do nosso dia a dia. Para Patrícia Porto, a memória é o passado – é uma passagem.

Sobre Pétalas e Preces (201X), seu primeiro livro de poesias, trazia memória como fundadora de ciclos e urdidora de ritos de passagem. Parafraseando o termo “romance de formação”, podemos dizer que os textos apresentados são “poesia de formação”, em que a poeta se apresenta em sua maturidade artística.

Diário de Viagem (2014), o segundo título, é uma experiência a que a autora se propôs. Num ano de perdas e lutas, Patrícia Porto escreveu um diário poético em que não se permitiu correções e reescrituras, em que não deixou que o trabalho estético pusesse sombra sobre o que a poesia é, em seu grito inicial. No livro, a memória surge como horizonte. Em Diário de Viagem, a memória não fica. Ao contrário, é o único lugar possível à frente.

E chegamos à CABEÇA DE ANTÍGONA. Nele, a memória não é fundadora nem salvadora. A memória é carne. É corpo. É mulher. É aqui e agora. É onde a memória encontra seu lugar no mundo – e onde pode enfrentá-lo. Não há dúvida que o corpo feminino é um campo de disputas, de desejos, de interdições, de promessas e de libertação. Mas quando esse corpo é também o corpo da memória, todas essas características são transpassadas pelo tempo passado e pelo hoje. O corpo é a casa da memória. E Cabeça de Antígona é a casa em que essa memória se diz, se afirma, se impõe e encara o futuro, como se o anjo de Klee, inspirador de Walter Benjamin, decidisse virar para frente e abrisse as asas.
 
Ricardo Gualda